O que é que acontece no corpo na menopausa? A menopausa não é uma doença, mas pode mudar profundamente a vida de uma mulher. O que acontece é uma diminuição progressiva da atividade dos ovários e, consequentemente, da produção de estrogénios e progesterona. Mas esta mudança hormonal não acontece apenas no aparelho reprodutor. Os recetores de estrogénio estão distribuídos por praticamente todo o organismo. Por isso, a transição menopáusica pode repercutir-se no sono, no humor, na temperatura corporal, na pele, na massa muscular e óssea, no metabolismo, no sistema cardiovascular e também na saúde sexual. É importante perceber que não estamos simplesmente a falar de deixar de menstruar. Estamos perante uma verdadeira transição biológica que pode ter manifestações muito diferentes de mulher para mulher. Quais são as mudanças menos conhecidas da menopausa e que mais podem afetar o dia-a-dia? Muitas mulheres chegam à consulta a dizer: “Eu já não sou a mesma, deixei de me conhecer”. Nem sempre têm afrontamentos. Às vezes o que as traz é acordarem cansadas, dormirem pior, sentirem mais ansiedade, dificuldade de concentração, perda de força muscular, dores articulares, aumento da gordura abdominal ou uma sensação de que perderam energia. Também podem surgir alterações da libido, secura vaginal, dor nas relações sexuais, alterações urinárias ou simplesmente uma perda de confiança no próprio corpo. São sintomas que podem parecer isolados, mas quando olhamos para a mulher como um todo percebemos que muitas vezes estão relacionados com a mesma fase de transição. As mulheres já procuram ajuda mais cedo ou continuam a achar que têm simplesmente de aguentar? Ainda existe algum silêncio em torno do tema da menopausa, sobretudo quando falamos de sexualidade, alterações emocionais ou perda de confiança. Mas acho que estamos a assistir a uma mudança muito positiva. As mulheres estão mais informadas e procuram cada vez mais ajuda. Mas ainda existe a ideia de que determinados sintomas são simplesmente “o preço de envelhecer” e que é preciso aguentar. Não devemos normalizar o sofrimento só porque ele é frequente. A menopausa é inevitável , mas sofrer com sintomas que interferem com o sono, o trabalho, a relação com o parceiro ou a autoestima não tem de ser encarado como inevitável. Se uma mulher está a dormir mal, perdeu qualidade de vida, tem dores, deixou de ter desejo sexual, sente ansiedade ou deixou de se reconhecer, merece ser ouvida por um médico. Não precisamos de medicar todas as mulheres. Precisamos é de não desvalorizar nenhuma mulher. A menopausa pode afetar a vida sexual de uma mulher? Pode, e este é um dos temas que mais frequentemente fica por abordar, porque muitas mulheres têm vergonha de falar disso numa consulta. A redução dos estrogénios provoca alterações dos tecidos vulvovaginais, secura, menor lubrificação e dor durante as relações. Mas a sexualidade é muito mais complexa do que uma hormona . Sono, stress, imagem corporal, relação de casal, autoestima, alterações emocionais e o próprio processo de envelhecimento podem interferir. Ainda existe algum constrangimento em falar sobre isto, talvez porque durante muito tempo a sexualidade feminina foi pouco valorizada . Mas numa consulta de ginecologia, falar de sexualidade deve ser tão natural como falar de menstruação ou de dor pélvica. Se a mulher não aborda o tema cabe ao ginecologista questionar sobre saúde sexual. A menopausa precoce pode surgir a partir de que idade? É importante distinguir menopausa precoce de insuficiência ovárica prematura. Consideramos menopausa precoce quando ocorre antes dos 45 anos. Quando a perda da função ovárica acontece antes dos 40 anos, falamos de insuficiência ovárica prematura. Pode ter causas genéticas, autoimunes, cirúrgicas, relacionadas com tratamentos como quimioterapia ou radioterapia, ou permanecer sem uma causa identificável. Nestes casos, a avaliação médica é particularmente importante , não apenas pelos sintomas, mas também pelo impacto que a deficiência hormonal prolongada pode ter na saúde óssea, cardiovascular, sexual e global da mulher. Há mulheres que têm sintomas e outras quase não se apercebem que estão a entrar na menopausa? Não existe uma menopausa igual para todas. A genética, a velocidade da transição hormonal, o estilo de vida, o sono, o stress, o estado de saúde e muitos outros fatores podem influenciar a forma como cada mulher vive esta fase. É também por isso que não gosto de olhar para a menopausa apenas através de análises. Uma mulher não é um valor de FSH (hormona estimulante dos folículos), de estradiol ou de testosterona. É um conjunto de sintomas, contexto clínico, fatores de risco e objetivos de saúde. Que relação existe entre a menopausa e dores que muitas mulheres acabam por atribuir simplesmente à idade? A dor musculoesquelética é uma queixa muito frequente nesta fase e pode coincidir com a redução dos estrogénios. Algumas mulheres começam a sentir rigidez, dores articulares, dores musculares ou uma recuperação física muito mais lenta. Mas há algo importante: não devemos atribuir automaticamente toda a dor à menopausa. Uma mulher de 48 ou 50 anos com dor persistente não deve ouvir simplesmente “é da idade”. Deve ser avaliada. A menopausa pode ser parte da explicação, mas a nossa responsabilidade é perceber o quadro completo. Existem hoje tratamentos médicos que permitem dizer a uma mulher: “não tem de viver com isto”? Sim, embora seja importante fazê-lo com responsabilidade. Mas não existe uma “receita da menopausa”. Hoje temos diferentes ferramentas: terapêutica hormonal quando está indicada, opções não hormonais, tratamentos dirigidos à saúde vaginal e intervenções sobre exercício, nutrição, sono, composição corporal e saúde metabólica. O tratamento deve ser individualizado e acompanhado ao longo do tempo. E há uma ideia que gosto de transmitir às minhas doentes: o objetivo não é fazer a mulher voltar aos 30 anos. É ajudá-la a viver os próximos anos com saúde, funcionalidade e qualidade de vida. Há técnicas inovadoras que podem mudar a vida das mulheres na menopausa? A inovação pode ser importante, sobretudo quando é utilizada para responder a uma necessidade concreta. Na área da saúde íntima, por exemplo, existem tecnologias regenerativas que podem ser utilizadas nos casos de sintomas geniturinários que impactam a qualidade de vida. Refiro-me, por exemplo: À utilização de laser CO2 (dióxido de carbono) para atrofia vulvovaginal e incontinência urinária ligeira; À aplicação de plasma rico em plaquetas para hidratação e regeneração com bons resultados nos casos de fissuras vulvares recorrentes, por exemplo; À aplicação de ácido hialurónico / bioestimuladores de colagénio para melhorar hidratação, elasticidade e conforto. Mas é preciso colocar a inovação no lugar certo: a tecnologia deve estar ao serviço da mulher e não a mulher ao serviço da tecnologia. Antes de qualquer tratamento, precisamos de saber qual é o problema, qual é o objetivo e qual é a evidência disponível para aquela intervenção. O que é que uma mulher não deve esperar de um tratamento inovador para a menopausa? Milagres. Não existe um tratamento que pare o envelhecimento ou que consiga recuperar todo o organismo para aquilo que era aos 30 anos . Longevidade não significa simplesmente viver mais anos. Significa tentar viver mais anos com saúde, autonomia, força, funcionalidade e qualidade de vida. E isso não se consegue com um único tratamento. Constrói-se ao longo do tempo. Como se pode distinguir aquilo que tem fundamento médico daquilo que é apenas tendência ou marketing? Esta é uma das questões mais importantes atualmente. “Natural” não significa necessariamente seguro, e “inovador” não significa necessariamente eficaz. Eu aconselharia qualquer mulher a fazer algumas perguntas simples: Existe evidência científica? Existem estudos de qualidade? São conhecidos os benefícios e os riscos? Existem recomendações de sociedades científicas? Quem está a prescrever ou a realizar o tratamento tem formação específica nesta área? Também é importante desconfiar de soluções que prometem resultados extraordinários , que dizem servir para todas as mulheres ou que apresentam a menopausa como uma doença que precisa de ser curada. A medicina deve ser baseada em evidência, mas também individualizada. Não se trata de escolher entre “hormonal” e “natural”; trata-se de perceber o que é adequado e seguro para aquela mulher. Uma mensagem Gostaria que todas as mulheres soubessem, antes de mais, que a menopausa não significa deixar de ser quem são. É uma nova fase da vida, com mudanças reais, mas não tem de ser uma fase de perda. E gostava que nenhuma mulher sentisse que tem de se resignar a viver com sintomas que condicionam a sua qualidade de vida. Peçam ajuda. Façam perguntas. Falem sobre aquilo que sentem, mesmo sobre os temas que ainda parecem difíceis de dizer em voz alta. A menopausa não deve ser vista como o fim de uma etapa da mulher, mas como uma oportunidade para olhar para a sua saúde de uma forma mais completa. Cuidar da mulher depois dos 40 anos é também cuidar da mulher que ela quer continuar a ser. Autora: Ana Filipa Brás (ginecologista) Conheça a equipa de Ginecologia-Obstetrícia do Hospital da Luz e faça a sua marcação. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.