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Cancro colorretal

O cancro que se desenvolve no cólon ou no reto, pelas suas numerosas características comuns, é muitas vezes designado cancro colorretal. Apesar de ser um dos mais fáceis de prevenir, o cancro colorretal é a segunda causa de morte por cancro no mundo ocidental. A probabilidade de uma pessoa desenvolver um cancro coloretal ao longo da vida é de 6% e cerca de 1 em cada 20 pessoas contrairá a doença. Estima-se que 14% de todos os cancros diagnosticados anualmente se localizem no cólon ou no reto; 40 a 50% dos doentes com cancro colorretal morrem em consequência da doença.

A frequência de cancro do cólon e do reto está a aumentar, encontrando-se de alguma forma relacionada com o desenvolvimento sócio-económico. A prevalência da doença é maior em países mais industrializados, como nos EUA e na Europa Ocidental, e menor em África ou na América do Sul. Em Portugal, o número de diagnósticos anuais tem registado um crescimento exponencial, sendo responsável por elevada mortalidade. Estima-se que 3% a 4% dos indivíduos, tanto do sexo masculino como do feminino, desde o nascimento até aos 70 anos de idade, serão atingidos por cancro do cólon e do reto, situando-se o pico máximo de incidência na sexta década da vida (> 50 anos).

A maioria dos cancros do cólon e reto desenvolve-se a partir de uma célula ou de um grupo de células do revestimento interno da parede intestinal (mucosa). Estas células multiplicam-se e organizam-se num pequeno tumor não canceroso (benigno) chamado pólipo. Os pólipos apresentam-se como elevações ou projeções do revestimento interno da parede abdominal. À medida que cresce, um pólipo pode transformar-se em cancro; isto é, passa a ter a capacidade para invadir tecidos vizinhos através da parede intestinal ou para se disseminar à distância, para outros locais do corpo, através da circulação linfática e/ou sanguínea. A transformação de um pólipo benigno num tumor maligno (ou cancro) parece dever-se a alterações ou mutações, hereditárias ou espontâneas, dos genes que controlam as células. A deteção precoce e a remoção dos pólipos permite diminuir substancialmente a probabilidade de ocorrência da doença.

 Quem está em risco?

A idade é um dos principais fatores de risco do cancro colorretal. Mais de 90% destes tumores ocorrem em pessoas com mais de 40 anos, sendo a maioria diagnosticada entre os 50 e os 70 anos.

Além da idade, outros fatores associados a um risco acrescido de cancro colorretal são uma história pessoal de cancro da mama, útero ou ovário; doença inflamatória intestinal (colite ulcerosa ou doença de Crohn); história familiar ou pessoal de pólipos ou de cancro colorretal; consumo de tabaco.

As dietas com teor elevado de gordura animal e teor baixo de fibra também têm sido associadas a uma maior probabilidade de cancro colorretal, embora existam referências contraditórias.

Quais são os sintomas?

Os sintomas mais comuns associados ao cancro colorretal são:

  • alteração dos hábitos intestinais (obstipação, diarreia ou, mais frequentemente, uma alternância das duas);
  • dor abdominal, constante ou em cólica (neste caso, a dor pode acompanhar-se de sensação de distensão abdominal, náuseas e vómitos);
  • perda de sangue pelo ânus, misturado ou não com as fezes e de cor vermelho vivo, castanho escuro ou, mesmo, preto (neste caso, as fezes podem adquirir o aspeto característico de “borra de café”);
  • emissão de muco pelo ânus misturado ou não com as fezes;
  • perda de peso sem razão aparente, cansaço constante e náuseas ou vómitos.

Existem, no entanto, muitas outras doenças que podem provocar sintomas semelhantes, pelo que se torna importante a sua avaliação médica. Por outro lado, deve sublinhar-se que muitos pólipos e cancros do cólon e reto não produzem sintomas antes de serem excessivamente grandes.

Como se dissemina o cancro coloretal?

O cancro pode disseminar-se de duas formas: por invasão direta de estruturas adjacentes por crescimento local ou por disseminação de células cancerosas à distância (metástases) através da circulação linfática e/ou sanguínea.

Invasão direta: Estes tumores podem crescer para dentro ou em torno do intestino. Contudo, podem, também, invadir a parede do intestinal e estender-se a estruturas adjacentes, como sejam, outras ansas intestinais, a parede abdominal, a bexiga, o útero, ou outras.

Metástases: Grupos de células podem separar-se do tumor primário e disseminar-se para outras partes do corpo através da circulação sanguínea ou linfática. Estas células podem, então, instalar-se e crescer em outros locais, como sejam, os gânglios linfáticos na proximidade do intestino, o fígado ou os pulmões. Quando um cancro coloretal é removido cirurgicamente, os gânglios linfáticos na proximidade do tumor também são removidos. Estes gânglios serão observados ao microscópio para verificar se contêm células tumorais. Se não estiverem presentes células tumorais nos gânglios linfáticos, a probabilidade de cura será maior.

Como se trata o cancro coloretal?

As doenças oncológicas são tratadas com tratamentos locais - cirurgia e radioterapia -, e com tratamentos sistémicos (ou seja, que atingem todo o corpo) – quimioterapia, hormonas, anticorpos, entre outros.

O tratamento do cancro colorretal envolve quase sempre cirurgia. Quando necessários, os tratamentos de radioterapia e/ou a quimioterapia podem ser feitos antes ou depois da cirurgia ou, em alguns casos muito raros, como alternativa à mesma.

No tratamento do cancro coloretal a intervenção cirúrgica consiste na secção do intestino com remoção da região que contém o cancro, junto com os vasos sanguíneos e gânglios linfáticos respetivos. Na maioria dos casos, procede-se depois à anastomose (ligação) das extremidades intestinais livres de doença para restaurar o trânsito intestinal normal.

A maioria dos cancros que atinge o reto (últimos 15 cm do intestino grosso, ou primeiros 15 cm a partir do ânus) é igualmente tratada por via cirúrgica. Em alguns casos, os pólipos benignos grandes e alguns cancros em fase precoce podem ser removidos através do ânus; contudo, a maior parte dos cancros do reto são removidos por via abdominal. Embora, em regra, se faça a anastomose do intestino seccionado, quando o cancro se situa muito próximo do ânus pode ser necessária a remoção não só de todo o reto mas, também, do ânus. Nesta situação, é necessário criar uma colostomia (abertura do intestino através da pele da parede abdominal) permanente. Há circunstâncias em que também pode ser necessária uma ostomia (colostomia ou ileostomia), mas temporária; os casos mais frequente são:

  • O cancro do reto baixo, muito próximo do ânus, pode, com uma técnica cirúrgica adequada e com recurso à tecnologia mais recente, ser removido com preservação do ânus -  contudo, na maioria destes casos, será deixada uma ileostomia temporária (aproximadamente dois meses) para proteção da anastomose.
  • Quando o cancro condicionou uma obstrução ou uma perfuração do intestino pode ser necessária uma ostomia temporária.

No entanto, atualmente, a maioria dos cancros colorretais é tratável sem necessidade de uma ostomia.

No cancro colorretal, a quimioterapia desempenha um papel fundamental no controlo da doença sistémica, podendo prolongar a sobrevivência.

No cancro do reto (últimos 15 cm), a radioterapia (mais frequentemente administrada antes da cirurgia), tem muitas vezes um papel importante no controlo local da doença, assim reforçando o efeito da cirurgia.  

A chave para a prevenção ou cura do cancro colorretal está num rastreio adequado, que permita a remoção dos pólipos encontrados, ou a deteção precoce do cancro.

A deteção precoce e o tratamento atempado dos cancros colorretais resultam numa percentagem de cura elevada.

O que é e qual é a importância do estadiamento?

O estadiamento é a inclusão de um cancro numa de várias fases de evolução (estadios) previamente definidas. O seu objetivo é predizer a probabilidade de cura depois da remoção do cancro e contribuir para a definição da necessidade de tratamentos adicionais.

Dado que, ao contrário de outros tumores, o tamanho de um cancro coloretal tem pouca influência nas possibilidades de cura, a definição das fases de evolução baseia-se:

  • Na progressão do tumor através da parede do intestino (está confinado à parede? já ultrapassou a parede?...);
  • Na disseminação do tumor para os gânglios linfáticos regionais;
  • Na disseminação do tumor para outros órgãos ou tecidos mais distantes.

Tendo em consideração estes aspetos os tumores são classificados como de estadio I, II, III ou IV.

Habitualmente as recidivas de um cancro coloretal ocorrem nos primeiros dois anos após a cirurgia e quase todos os que recidivam (95%), fazem-no até aos cinco anos. A maior probabilidade de cura, ou o melhor prognóstico, está associado aos cancros em estadio I, em que mais de 90% dos doentes sobrevivem mais de cinco anos após a cirurgia.

Para o estadiamento podem ser necessários vários exames, incluindo testes sanguíneos para pesquisa de compostos específicos, colonoscopia, ecografia endoretal, radiografia torácica, tomografia computorizada, tomografia de emissão de positrões (PET e PET-CT) entre outros.

A aparência microscópica das células tumorais também é importante na determinação do tratamento. Esta aparência, designada “diferenciação” permite classificar genericamente os tumores em bem, moderadamente ou mal diferenciados. Os doentes com tumores bem diferenciados têm melhor prognóstico do que aqueles que têm tumores mal diferenciados.

Assim, o estadiamento e a diferenciação ajudam o médico a decidir se é ou não recomendável, como complemento da cirurgia, a radioterapia e/ou a quimioterapia. 

 

A cirurgia do cancro colorretal é realizada por cirurgiões gerais. Conheça os médicos especialistas em cirurgia geral desta unidade da rede Hospital da Luz.