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Rastreio auditivo infantil

Rastreio auditivo infantil

Há crianças que falam alto, levantam o som da televisão ou não respondem de imediato. Tais gestos são, por vezes, confundidos com distração, mas podem esconder problemas de audição. O diagnóstico em consulta deve ser tão precoce quanto possível.

Estima-se que a incidência da surdez infantil seja de um a três por cada 1000 recém-nascidos saudáveis e de 20 a 40 por cada 1.000 recém-nascidos de risco, sendo muito superior à de outras patologias neo-natais inseridas no programa nacional de rastreio precoce sistemático (hipotiroidismo e fenilcetonúria).

Daí a necessidade de se proceder ao rastreio auditivo dos recém-nascidos e não apenas aos de risco, que representam apenas 50% dos casos de surdez.

Os grandes objetivos de uma consulta de surdez infantil são o diagnóstico tão precoce quanto possível da deficiência auditiva antes dos três meses de idade e o início da reabilitação da criança em todas as suas vertentes até aos seis meses, pois convém ter presente que a surdez pode ser congénita ou adquirida.

Nas últimas décadas tem-se assistido a uma diminuição significativa dos casos de surdez relacionados com patologia pré, peri e pós-natal permanecendo, no entanto, inalterados os de causa genética ou os ainda considerados de causa desconhecida.

Despistar na consulta

Como reflexo das deficiências socioeconómicas e assistenciais do nosso país, as causas infeciosas de surdez neurossensorial tais como a rubéola, a infeção por citomegalovírus, a toxoplasmose e a sífilis continuam a ter grande expressão.

A surdez pós-natal é a mais frequente na idade adulta, apesar de poder surgir em crianças, em virtude de infeções bacterianas, víricas ou parasitárias, traumatismos, corpos estranhos, trauma sonoro, entre outros.

Na consulta tentamos despistar as etiologias possíveis da surdez, com a recolha de informação, nomeadamente os antecedentes farmacológicos, infecciosos e traumáticos, bem como os antecedentes familiares de surdez, consanguinidade e malformações congénitas.

No exame objetivo valorizamos particularmente o exame otológico e a pesquisa de malformações da cabeça e pescoço, bem como de outros órgãos e sistemas, complementando-o sempre com exames audiométricos e, quando necessários, com exames de imagem, nomeadamente TAC e ressonância magnética.

Como avaliar

Para se proceder à avaliação auditiva recorremos a testes comportamentais e de testes objetivos dos quais se podem salientar o reflexo de orientação condicionada (ROC test), a audiometria condicionada por jogo (Block test), a impedaciometria, os potenciais evocados auditivos do tronco cerebral (PEATC) e as otoemissões acústicas (OEA).
A escolha destes exames é condicionada pela idade e pelo desenvolvimento psicomotor da criança, pelo seu nível auditivo e pelo compromisso de outros órgãos.
A nossa preocupação começa no pós-parto onde, por norma, são avaliadas as otoemissões acústicas, um pequeno teste não invasivo para obter o registo da existência ou ausência da função efetiva das células auditivas no ouvido interno.

Caso o teste seja negativo, dever ser repetido 30 dias depois. Se voltar a ser negativo, deverão ser realizados potenciais evocados auditivos aos três meses e esses, sim, determinarão o grau efetivo de audição da criança.

No caso de se tratar de uma surdez severa ou profunda, o encaminhamento precoce para uma adaptação protésica e acompanhamento por uma equipa multidisciplinar com terapia da fala e apoio de ensino especial (linguagem gestual, treino auditivo e leitura labial), são as opções corretas.

No caso de se tratar de uma surdez total, a orientação para implante coclear é a opção, devendo este fazer-se o mais cedo possível depois do primeiro ano de vida.

Detetar antes da escola

O rastreio auditivo pré-escolar é fundamental e deverá ser feito de modo sistemático nas crianças sem queixas aos três e aos seis anos de idade.

Os fatores alérgicos e infecciosos da nasofaringe na criança condicionam alterações no ouvido médio que provocam o seu mau funcionamento, dando origem a uma surdez de transmissão com derrame seroso no ouvido médio.

Os sinais de alerta em casa são, por vezes, falar alto, estar próximo da televisão ou não responder de imediato aos pais, gestos que são muitas vezes encarados como distração e na realidade não o são. Esta situação tem tratamento médico e quando este não resulta, a aplicação de drenos (tubos) transtimpânicos acaba por resolver a situação.

A surdez infantil exige, como já referimos, um diagnóstico e reabilitação precoces, sendo essencial o papel do otorrinolaringologista neste processo, designadamente na coordenação e na dinamização de todos os profissionais nele envolvidos.

Texto: 

João Pitorra Monteiro

Otorrinolaringologia, Hospital da Luz

 

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