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Transfusão de sangue

Transfusão de sangue

Uma transfusão de sangue ou componentes sanguíneos é a administração a uma pessoa (o recetor), através de um cateter venoso, de componentes do sangue (glóbulos vermelhos, plaquetas, plasma) ou de substâncias que intervêm na formação e funções normais do sangue (fibrinogénio, fatores de coagulação, complexo protrombínico, crioprecipitado, cola de fibrina, albumina, imunoglobulinas), provenientes de outra pessoa (o dador).

Os produtos a transfundir são preparados a partir de dádivas de sangue de dadores voluntários. Depois de colhido, o sangue do dador é tipificado e testado relativamente a diversas doenças e depois é separado nos vários componentes que podem ser transfundidos, processado, embalado e armazenado em condições ótimas para a sua conservação, até ser necessário. 

Em que situações é realizada uma transfusão?

A decisão sobre a necessidade de realizar qualquer procedimento terapêutico é sempre tomada pelo médico, em função das características individuais de cada doente e da sua situação particular.

A maioria dos doentes nunca necessita de transfusões durante um episódio de doença, mesmo quando ocorre uma perda de sangue moderada, porque no prazo de algumas semanas são produzidas novas células do sangue que substituem as perdidas. No entanto, quando é perdida uma grande quantidade de sangue, a realização de uma transfusão de sangue ou componentes sanguíneos pode ser a única forma de conseguir uma substituição atempada.

Em termos gerais, pode ser necessário realizar uma transfusão de sangue ou componentes sanguíneos em situações em que ocorra uma perda grande de sangue, ou uma perda e/ou comprometimento das funções de um dos seus componentes, nomeadamente, durante ou depois de uma intervenção cirúrgica ou de um parto, em acidentes com perdas graves de sangue, ou em doentes tratados por doenças sanguíneas, anemia grave, cancro ou leucemia, entre outros. 

Sempre que a situação assim o permita, antes de um doente receber uma transfusão, é enviada uma amostra do seu sangue para tipificação. Só depois, é escolhido o lote de sangue ou componente do sangue compatível com o doente. O produto é então administrado numa veia através de um cateter, tal como se faz com o soro.

A maioria dos doentes não sente nada enquanto realiza uma transfusão. Em casos raros, podem ocorrer reações ligeiras e transitórias (por exemplo um aumento da temperatura corporal), que são resolvidas facilmente com tratamento médico ou diminuindo a velocidade da transfusão. As reações graves são muito raras. 

O que é a tipificação do sangue?

A tipificação do sangue é a determinação do tipo ou grupo de sangue e é realizada de acordo com a classificação ABO (sangue A, B, AB e O) e com a presença do fator rhesus (Rh+ e Rh-). Tendo em conta estes dois grupos de antigénios, os grupos de sangue podem ser:

A Rh+ (ou A+) 
A Rh- (ou A-)
B Rh+ (ou B+) 
B Rh- (ou B-)
AB Rh+ (ou AB+) 
AB Rh- (ou AB-)
O Rh+ (ou O+) 
O Rh- (ou O-)

A importância da tipificação do sangue nas transfusões deve-se ao facto de nem todos os tipos de sangue serem compatíveis entre si. Os tipos de sangue classificados de acordo com o sistema ABO têm as seguintes características:

  • Tipo A - possui antigénios A nos glóbulos vermelhos e anticorpos anti-B no plasma
  • Tipo B – possui antigénios B nos glóbulos vermelhos e anticorpos anti-A no plasma
  • Tipo AB – possui antigénios A e B nos glóbulos vermelhos e não possui anticorpos no plasma
  • Tipo O – não possui antigénios A ou B nos glóbulos vermelhos e possui anticorpos anti-A e anti-B no plasma

Tendo em consideração os grupos A, B, AB e O, existem as seguintes limitações nas transfusões:

• As pessoas com sangue do tipo A só podem receber sangue dos tipos A e O.
• As pessoas com sangue do tipo B só podem receber sangue dos tipos B e O.
• As pessoas com sangue do tipo AB podem receber sangue dos tipos A, B, AB e O.Como as pessoas que possuem sangue de tipo AB podem ser recetoras de qualquer um dos outros tipos, são chamadas recetoras universais.
• As pessoas com sangue do tipo O só podem receber sangue do tipo O. Como as pessoas que possuem sangue de tipo O podem ser dadoras para qualquer um dos outros tipos, são chamadas dadoras universais.

Tendo em consideração a presença do fator rhesus, existem as seguintes limitações nas transfusões:

• As pessoas com sangue Rh+ só podem receber sangue Rh+
• As pessoas com sangue Rh- só podem receber sangue Rh-

Que tipos de transfusões de sangue existem?

As transfusões de sangue e componentes sanguíneos podem ser de vários tipos, sendo prescritas em função das características individuais de cada doente e da sua situação particular. Relativamente aos componentes do sangue, existem transfusões de glóbulos vermelhos, de plaquetas e de plasma.Não existem transfusões isoladas de glóbulos brancos. 

• As transfusões de glóbulos vermelhos são usadas em doentes que não têm glóbulos vermelhos suficientes. Sem estas células, o sangue não tem capacidade para transportar oxigénio em quantidade adequada para a manutenção das funções dos vários órgãos. Pode acontecer uma perda substancial de glóbulos vermelhos em acidentes, durante ou após as cirurgias, ou por qualquer hemorragia abundante. Também, em algumas doenças, ocorre destruição glóbulos vermelhos. A transfusão de glóbulos vermelhos pode assim ser necessária durante ou após uma cirurgia ou um parto, em vítimas de acidentes ou no tratamento de anemias de causas diversas ou outras doenças que interfiram com o número e/ou a função destas células.

• As transfusões de plaquetas são usadas em doentes com hemorragia ativa ou perigo de hemorragia, seja porque têm poucas plaquetas ou porque a função destas células está comprometida. 

• As transfusões de plasma permitem fornecer proteínas importantes para a coagulação, pelo que também podem ser necessárias em situação de hemorragia. Assim, a transfusão de plasma é usada para ajudar a controlar hemorragias e para tratamento de doenças autoimunes.

Existem alternativas às transfusões?

Existem. Estas alternativas são, por exemplo, a administração de minerais ou de hormonas que estimulam a medula óssea a produzir células ou, em alguns casos, o tratamento da causa do problema que justifica a necessidade de uma transfusão. No entanto, os efeitos assim conseguidos não são imediatos, podem levar semanas a meses, pelo que estas alternativas não constituem uma boa opção em situações súbitas de perda de sangue. Também, em situações de cirurgias programadas a médio prazo (pelo menos quatro a seis semanas), é possível realizar uma transfusão autóloga, ou autotransfusão, procedimento em que o doente recebe o seu próprio sangue ou componente do sangue. Nestes casos é realizada uma colheita de sangue ao doente que, depois de adequadamente processada e conservada, poderá ser usada durante ou depois da sua cirurgia, caso venha a ser necessário. O sangue colhido para transfusões autólogas não pode ser usado noutros doentes. Assim, se não vier a ser necessário, será eliminado.

Riscos e complicações

Receber sangue em Portugal é seguro e está associado a um índice de riscos ou complicações baixo. 

Os riscos da transfusão são: infeção por HIV (1 em cada 4.700.000 transfusões), hepatite C (1 em cada 82.000 transfusões), desenvolvimento de anticorpos e reações imunes, contaminação por bactérias, dificuldade respiratória relacionada com anticorpos no sangue dador, redução temporária da imunidade natural. 

As reações às transfusões podem acontecer. Normalmente são ligeiras e transitórias, devem-se a reação de anticorpos do doente ao produto sanguíneo e têm tratamento específico. Muito raramente (1 em cada 250.000 casos de reações) podem ser fatais.