Endometriose: Ter dor não é normal

Endometriose: Ter dor não é normal

O 17.º curso de ginecologia endoscópica, surge este ano integrado no Leaping Forward. O destaque vai para a endometriose, uma doença subdiagnosticada e que afeta um grande número de mulheres, mesmo em idades jovens.

 

Entre os primeiros sintomas (dor) e um diagnóstico correto decorrem, em média, entre sete a 12 anos. De caminho, surge infertilidade e, até mesmo, problemas oncológicos. Este simpósio vai mostrar o estado da arte no tratamento desta doença.

Para António Setubal, diretor do simpósio 17th Course in Gynecological Endoscopy e ginecologista-obstetra do Hospital da Luz, a endometriose é uma doença pouco conhecida e abordada de forma incorreta, não só a nível nacional, mas também a nível internacional. “Em países acima da Bélgica, casos da Holanda e Finlândia, entre outros, não existem centros específicos de tratamento da endometriose. Nos EUA, só se encontram em alguns estados; na Alemanha, não existe, sendo a procura drenada para a Áustria, mas em Itália, há dois centros”, afirma este médico.

A endometriose é uma doença que só pode tratar-se através de cirurgia e, dentro da cirurgia, a melhor que se pode realizar é a laparoscópica. “Mesmo considerando ‘somente’ a cirurgia laparoscópica, a endometriose é a intervenção que apresenta maior grau de dificuldade para o cirurgião”, afirma António Setúbal, que explica: “a endometriose representa um desafio muito grande para o cirurgião, pois tem de conseguir tratar uma mulher, muitas vezes jovem, sem a deixar com um saco de colostomia. Por isso, são os poucos os cirurgiões treinados para executar bem este tipo de cirurgia, que pode envolver outros órgãos como o intestino, a bexiga, ovários, diafragma, reto, pulmão”.

Ter dor não é normal

O sintoma da endometriose é a dor, algo que é culturalmente aceite como ‘normal’ na mulher, devido aos ciclos menstruais e, por isso, pouco valorizado, refere António Setúbal. “Ter dor durante o ciclo menstrual não é normal, acarreta perda de qualidade de vida”, diz. A dor menstrual, nas relações sexuais, ao evacuar ou, com menos frequência, na micção podem ser sintomas de endometriose.

Com o passar do tempo e assumindo erradamente a ‘normalidade’ da dor, a doença alastra a outros órgãos e, finalmente, traz problemas de fertilidade às mulheres. Muitas vezes, é nesta fase que as doentes encontram quem as diagnostica com endometriose ou então, se diagnosticadas, já passaram por algumas cirurgias. “É óbvio que nessa fase já é difícil encontrar quem queira tratar a endometriose”, diz este médico.

Segundo António Setúbal, em Portugal, mais de 10% da população em idade fértil sofre de endometriose, um número muito elevado: “na consulta surgem mulheres cada vez mais novas, com 18-20 anos, com formas de endometriose cada vez mais graves e, por vezes, com recidivas também complexas e graves”.

António Setúbal destaca ainda os estudos que concluíram que o tempo médio que medeia entre os primeiros sintomas e um diagnóstico de endometriose varia entre sete a 12 anos, dependendo do país; relevante é o número de ginecologistas que as mulheres, em média, procuraram ao longo desse tempo para ter uma resposta: sete! Nos EUA, o número de mulheres internadas com endometriose é superior ao número de mulheres internadas por cancro da mama.

Gravidez não evita endometriose

No Hospital da Luz, diz o mesmo ginecologista, não se fazem laparoscopias diagnósticas. “Existe neste hospital uma equipa muito diferenciada, a nível nacional. Repare que, no Hospital da Luz, quando avançamos para laparoscopia é para fazer cirurgia. Observamos as doentes em contexto de consulta e desenvolvemos protocolos complementares de ressonância magnética para ter uma ideia muito precisa do que vamos discutir com a doente sobre o que pode esperar na cirurgia”.

António Setúbal refere ainda que parece existir uma correlação da endometriose com o cancro, nomeadamente do ovário e alerta que aquela doença pode mesmo ser fatal, pois se a endometriose perfurar o intestino e fizer uma peritonite, pode obrigar a uma cirurgia de urgência, ou seja, há risco de vida.

Outra ideia feita àcerca da endometriose – a de que a gravidez protege as mulheres da doença – é rebatida por este médico, que o vai demonstrar num artigo científico prestes a publicar a nível internacional e que tem por base a sua experiência no Hospital da Luz.

Quanto às causas da endometriose, existem várias teorias que vão ser discutidas justamente no simpósio que hoje se inicia no Leaping Forward. No auditório 2, vão estar os dois maiores teorizadores da endometriose do Mundo, os professores Jacques Donnez e Philippe Koninckx, que defendem, por um lado, uma teoria de base tumoral, semelhante a um transtorno genético que, em determinada altura da vida, é ‘disparado’, discutindo-se qual é fator ou fatores que fazem disparar esse transtorno. A outra, é a teoria da metaplasia celómica, segundo a qual, existe já uma predisposição para a doença aquando do desenvolvimento do embrião.

 

Special Report publicado no âmbito do Leaping Forward - Lisbon International Clinical Congress, que decorre no Hospital da Luz de 13 a 19 de fevereiro.