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Enxaqueca

A enxaqueca é a cefaleia primária mais conhecida e incapacitante. Segundo a Organização Mundial de Saúde é a 8ª causa a nível mundial de anos vividos com incapacidade, quando consideradas todas as doenças conhecidas no mundo. Esta doença crónica é incurável e é um problema de saúde pública, que atinge uma percentagem significativa da população e tem um impacto importante na qualidade de vida de quem dela sofre. No entanto, muitas vezes, as pessoas com enxaqueca não procuram cuidados médicos, desconhecendo que existem tratamentos eficazes que podem minimizar as suas queixas e melhorar de um modo muito significativo a sua qualidade de vida.

A enxaqueca é um tipo especial de dor de cabeça, com crises que duram desde algumas horas até vários dias, que se repetem com uma cadência que pode ou não ser regular, desde uma ou duas vezes por ano até várias vezes por mês, e que têm uma intensidade variável.

A enxaqueca pode iniciar-se logo na infância mas é mais comum entre os 20 e os 30 anos, passando a ser mais rara a partir dos 40 anos de idade. Afeta as mulheres duas a três vezes mais do que os homens. Estima-se que um em cada dez adultos tenha enxaqueca.

  • Causas

    A enxaqueca é uma doença do cérebro, em que a dor se associa a uma dilatação dos vasos sanguíneos que pode ter diversas causas ainda mal conhecidas.

    A enxaqueca parece sofrer alguma influência genética e é hereditária, tendo os familiares de pessoas com enxaqueca uma maior probabilidade de também ter enxaqueca. Quando um dos pais tem enxaqueca, o risco de um filho ter a doença é de 50%, e se ambos os pais têm enxaqueca, o risco de um filho ter a doença é de 75%. Dado que a enxaqueca é mais frequente nas mulheres, se a mãe é pessoa afetada, as suas filhas tem cerca de 66% de probabilidade de desenvolver a doença.

    As pessoas com enxaqueca têm uma predisposição genética para ter dores de cabeça. Os estudos de investigação não identificam um gene único a causar a enxaqueca, mas sim várias variantes genéticas diferentes, que têm em comum conferir uma predisposição para ter dores de cabeça na presença de determinados fatores desencadeantes.

    Estão identificados diversos fatores que, embora não sejam a causa da enxaqueca, contribuem para desencadear as crises de enxaqueca ou para as agravar, ou seja, facilitam o aparecimento de uma crise de enxaqueca. Estes fatores desencadeantes das crises não são iguais para todas as pessoas com enxaqueca e vão variando ao longo da vida. Se for possível evitar a exposição a esse fatores conseguirá reduzir-se o número de vezes que se tem crises de enxaqueca, embora nem sempre isso seja possível. 

    Os fatores que mais frequentemente desencadeiam as crises de enxaqueca são: 

    • Fatores hormonais, nas mulheres, como a menstruação, a ovulação, tratamentos hormonais ou a toma de pílula anticoncetiva
    • Fatores emocionais tais como a ansiedade, o stress e relaxamento após stress e a depressão
    • Alterações do sono, como dormir de menos ou dormir demais 
    • Fatores ambientais tais como alterações meteorológicas, viagens prolongadas, ou exercício físico 
    • Exposição a estímulos olfativos, visuais ou sonoros, como cheiros intensos a perfumes, tintas, tabaco, exposição a luz ou ruídos intensos e fatores alimentares como jejum prolongado, ingestão de bebidas alcoólicas ou de excesso de cafeína

     

  • Sintomas

    As crises de enxaqueca podem dividir-se em quatro fases, embora numa crise possam não ocorrer todas.

    Assim, na fase inicial alguns doentes podem ter sintomas premonitórios de cefaleia, por exemplo, alterações do comportamento (ansiedade, irritação...), sintomas neurológicos (tonturas, perturbações da visão...), sintomas gerais (cansaço, dores musculares...), alterações alimentares (apetência por alimentos específicos, fome...). Cerca de 60% das pessoas que têm enxaqueca identificam estes sintomas, que, na mesma pessoa, são em geral semelhantes.

    Ainda antes da fase de cefaleia, pode ocorrer uma fase de aura, que se caracteriza por perturbações da visão (cintilação, manchas), dormências dos membros e dificuldade em falar. A aura manifesta-se em cerca de 15% das pessoas que têm enxaqueca, embora estas também possam ter crises de enxaqueca sem aura.

    A fase de cefaleia é a mais incomodativa. A dor de cabeça é, em geral, unilateral, intensa e, mais habitualmente, latejante. Acompanha-se mais frequentemente de enjoo (com ou sem vómitos), perda de apetite, intolerância à luz e ao ruído. A dor pode aumentar com os movimentos da cabeça, o esforço físico, a luz, os ruídos ou os odores e aliviar com o sono e o repouso. A capacidade de concentração e a memória também são afetadas. Podem ainda estar presentes outros sintomas.

    As crises de enxaqueca são autolimitadas, ou seja, passado algum tempo a dor de cabeça desaparece sozinha. No entanto, nesta fase de resolução, o doente pode ainda manifestar alguns sintomas, como sensibilidade à luz e aos movimentos da cabeça, cansaço e dificuldade de concentração.

  • Diagnóstico

    Quando há sintomas típicos de enxaqueca e existe história familiar desta doença, o diagnóstico baseia-se essencialmente na história e no exame clínico do doente.

    Em muitos doentes com enxaqueca, esta nunca foi diagnosticada e tratada adequadamente. Assim, todas as pessoas que habitualmente têm dores de cabeça devem procurar manter um registo da sua ocorrência, características e forma como as trataram. Estas informações podem ser uma ajuda valiosa para determinar o melhor plano de tratamento.

     

  • Tratamento

    Embora a enxaqueca seja uma doença incurável, tem tratamento. Este visa eliminar a dor e os restantes sintomas durante as crises, bem como diminuir a frequência das crises e melhorar a qualidade de vida dos doentes.

    O tratamento da enxaqueca inclui medicamentos (tratamento farmacológico) e a implementação de medidas não farmacológicas que ajudem a controlar os fatores que desencadeiam ou agravam as crises.

    O tratamento farmacológico da enxaqueca pode ser de dois tipos:

    • Tratamento de crise ou tratamento sintomático - este tratamento é realizado durante uma crise de enxaqueca e os medicamentos usados têm como objetivo reduzir ou abolir a dor e outros sintomas e assim encurtar e interromper essa crise, para que os doentes recuperem a sua funcionalidade normal o mais rapidamente possível 
    • Tratamento profilático - este tratamento é realizado durante períodos prolongados, muitas vezes diariamente, e tem como objetivo diminuir a frequência, duração ou intensidade das crises e aumentar a eficácia dos tratamentos de crise. É mais usado quando as crises são frequentes e acompanhadas de aura, entorpecimento ou incapacidade marcada.

    Uma vez que as crises de enxaqueca podem ser desencadeadas e agravadas por diversos fatores, a adoção de medidas que ajudem a identificar e controlar esses fatores contribuem decisivamente para melhorar a qualidade de vida dos doentes.

    De um modo geral as pessoas com enxaqueca devem implementar no seu dia a dia uma série de medidas simples, que poderão contribuir para diminuir as vezes que têm crises de enxaqueca:

    • Adotar um estilo de vida saudável
    • Praticar exercício físico com regularidade
    • Evitar a fadiga e o cansaço
    • Ingerir a quantidade suficiente de água
    • Manter horários regulares de sono, evitando a privação de sono (dormir menos horas que o necessário) mas também evitar dormir demais
    • Cumprir um padrão e horário regular de refeições;
    • Identificar e evitar a utilização de medicamentos que podem agravar a enxaqueca (p. ex. contracetivos hormonais);
    • Identificar fatores de stress e ansiedade e tentar controlá-los usando, por exemplo, técnicas de relaxamento, psicoterapia, acupunctura ou outras.

    É referido frequentemente que a alimentação e alguns alimentos podem desencadear crises de enxaqueca; no entanto isto apenas sucede numa pequena percentagem de pessoas. Os alimentos mais frequentemente apontados como desencadeantes de crises são as bebidas alcoólicas (e entre elas o vinho tinto), a cafeína em excesso, os produtos curados (bacon por exemplo), a comida chinesa, os citrinos (laranjas, limões, tomate), as gorduras, os lacticínios e os condimentos. O chocolate também é frequentemente referido.

    Este é, no entanto, é um assunto controverso. Nas pessoas com enxaqueca que fizeram dietas restritivas (deixaram de comer alimentos ou grupos de alimentos que se pensava poderem provocar crises de enxaqueca) os resultados obtidos foram contraditórios, ou seja, algumas pessoas melhoraram, mas outras ficaram na mesma ou até pioraram. Nesse sentido, deve ser usado bom senso e apenas retirar um alimento se notar que cada vez que o alimento aparece uma crise de enxaqueca e apenas nessas situações.

    A alimentação dos indivíduos com enxaqueca deve ser uma alimentação saudável, evitando os excessos, não consumindo chá ou café em excesso. Verificou-se que quem ingeria pouca água tinha mais crises de enxaqueca, pelo que é aconselhável beber muita água. É muito importante evitar o jejum prolongado, comendo regularmente, pelo menos de três em três horas. O jejum prolongado e o não tomar o pequeno-almoço é um desencadeante frequente das crises de enxaqueca sobretudo nas crianças e jovens, situação que facilmente se pode evitar.