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Hepatite

Eliminar as hepatites: um objetivo realista

Hepatite significa ‘inflamação do fígado’. As hepatites provocadas por vírus são um subtipo das doenças que atingem o fígado e que correspondem à principal causa mundial de doença hepática, devido à sua elevada prevalência, nomeadamente, nos países em desenvolvimento.

Existem vários tipos de vírus que podem afetar o fígado, sendo as hepatites B e C as mais conhecidas por permitirem a progressão para infeção crónica (que acontece quando o nosso organismo não é capaz de eliminar esses vírus de forma espontânea).

As hepatites A e E são, geralmente, causadas por ingestão de água ou alimentos contaminados, causando infeções agudas com resolução espontânea, enquanto as hepatites B e C derivam do contacto com fluidos corporais infetados.

Se não forem devidamente tratadas, as hepatites crónicas produzem inflamação persistente do fígado - o que se pode verificar quando existem alteração nas análises conhecidas como ‘provas hepáticas’. Qualquer inflamação do fígado pode induzir a presença de cicatrizes (as chamadas ‘fibroses’), que são o substrato da cirrose hepática. A cirrose é o principal fator de risco e de predisposição de cancro do fígado.

A hepatite representa um elevado risco para a saúde pública, a nível nacional mas também mundial. Os números oficiais sobre a prevalência da doença dão bem a ideia da sua importância hoje em dia e são úteis como alerta à população para o que ela representa:

  • Cerca de 4% da população mundial está infetada por hepatite B ou C. Existem cerca de 240 milhões de pessoas infetadas cronicamente por hepatite B e cerca de 130 a 150 milhões de pessoas infetadas pelo vírus da hepatite C. A maioria da população infetada vive em países em vias de desenvolvimento (principalmente, no continente africano), onde a prevalência destas infeções assume níveis alarmantes, com taxas muito elevadas de contágio.
  • A hepatite é uma das principais causas de morte a nível mundial – cerca de 1,34 milhões de mortes por ano. Este valor é comparável ao número de mortes por HIV/SIDA, tuberculose ou malária no Mundo.
  • Cerca 90% das pessoas infetadas com hepatite B e 80% dos infetados com hepatite C desconhece a sua doença. O fígado é um órgão ‘silencioso’ e as doenças do fígado, geralmente, só manifestam sintomas já num estado avançado.
  • Apesar dos recentes avanços no diagnóstico e tratamento destas doenças, menos de 10% dos doentes infetados tem acesso a tratamento eficaz.
  • Em países desenvolvidos, como Portugal, muitos dos casos de hepatite B crónica foram adquiridos por transmissão vertical - transmissão de mãe infetada para filho durante o parto -, na época em que não existia ainda uma vacina eficaz para a prevenção da doença. Por esse motivo existem famílias inteiras afetadas.

Quanto à hepatite C, muitas vezes é adquirida pelo contacto do sangue com produtos contaminados por gotículas de sangue infetado - utilização de drogas com partilha de seringas, tatuagens, utilização de seringas/agulhas com fim médico (na época em que não se conhecia o vírus e as técnicas de desinfeção não eram tão eficazes como hoje) e por transfusão de sangue realizada antes de 1990 (altura em que o vírus foi descoberto e as unidades de sangue começaram a ser testadas para detetar a sua presença). Por este motivo, estima-se que uma grande parte dos infetados com o vírus da hepatite C em Portugal nasceu entre 1945 e 1965.

Apesar de ainda ser necessário fazer muito no que respeita a um diagnóstico populacional eficaz, alguns passos muito importantes foram já dados no tratamento destas doenças.

Para a hepatite B, dispomos hoje de medicamentos capazes de suprimir o vírus de uma forma eficaz, impedindo-o de manter a inflamação do fígado ou reequilibrando a sua presença no organismo de modo a evitar o reaparecimento da doença.

Para a hepatite C assistimos, nos últimos anos, ao desenvolvimento de diversos medicamentos que permitem a cura da doença – precisamente isso: a cura, com a eliminação completa do vírus do organismo! A 6 de fevereiro de 2015, foi assinado um protocolo de cooperação entre o Ministério da Saúde e a indústria farmacêutica, que permitiu o acesso de todos os portugueses infetados com o vírus da hepatite C a estes novos medicamentos, altamente eficazes. Até à data, foram iniciados em Portugal 15 mil tratamentos, de acordo com dados oficiais, com uma taxa de cura acima dos 96%.

Este é, sem dúvida, um passo de gigante na história do combate a esta doença - que foi, para muitos, a condenação a um futuro imprevisível, assistindo de forma impotente à presença continuada de agressão a um órgão vital para a sua sobrevivência.
Finalmente, temos hoje uma forma de travar esta epidemia, permitindo reduzir de forma eficaz e sustentável os custos globais em saúde associados à hepatite.

Se, com esperança, nos congratulamos com estes resultados, a verdade é que, por outro lado, a atenção dos médicos não pode deixar de continuar a focar-se na enorme quantidade de portugueses estão infetados e desconhecem a sua condição.
É necessário e urgente pensar numa estratégia de rastreio eficaz dentro da população, que permita a rápida identificação destes indivíduos e o seu tratamento, numa fase em que a doença ainda é silenciosa. Este será, sem dúvida, o passo a dar para que, em 2030, possamos assistir à completa erradicação deste problema de saúde pública.
É este o grande objetivo no qual devem estar unidos, de forma empenhada, a população, a comunidade médica e as autoridades de saúde: a eliminação das hepatites virais crónicas.

A Rede Hospital da Luz possui, nas suas principais unidades, especialistas dedicados ao diagnóstico e tratamento destas doenças. Testes simples e baratos permitem hoje identificar as causas verdadeiras, por vezes obscuras, das doenças hepáticas e definir tratamentos eficazes e adequados a cada caso.

É isso que acontece no Hospital da Luz Arrábida, onde, além da consulta de gastrenterologia geral, estão disponíveis consultas diferenciadas e especificas de hepatologia e de infecciologia.

Também no Hospital da Luz Póvoa de Varzim, os médicos especialistas nesta área, além do acompanhamento preventivo, fazem a abordagem integral destas doenças e asseguram o tratamento mais adequado e eficaz nas consultas de gastrenterologia geral e de hepatologia.


Texto
Prof. Guilherme Macedo
Gastrenterologista, Hospital da Luz

 

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