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Imunoterapia e cancro

Imunoterapia e cancro: uma conversa entre especialistas

A imunoterapia é uma forma inovadora de tratamento para o cancro, através da qual se ativa o sistema imunitário, se estimulam as células do nosso organismo que habitualmente o defendem das agressões, para que o defendam também contra o cancro. Isso faz com que, quando as células de determinado órgão do organismo se transformam em células tumorais, elas vão ser reconhecidas pelos linfócitos, os ‘soldados’ do sistema imunitário (glóbulos brancos), que terão assim a capacidade de as reconhecer e de as destruir eficazmente.

No Leaping Forward Oncology, organizado pelo Hospital da Luz Lisboa (HLL) em maio de 2017, o professor José Luís Passos Coelho, diretor do Centro de Oncologia do HLL, e o investigador Bruno Silva-Santos, do Instituto de Medicina Molecular de Lisboa, tiveram uma curta conversa sobre este tema.

José Luís Passos Coelho – Há muitos anos que falamos em imunoterapia com promessas ainda por cumprir. O que permitiu esta revolução recente, que se aplica a quase todas as doenças oncológicas?

Bruno Silva-Santos – Foi preciso perceber que havia mecanismos muito claros em ação dentro do ambiente tumoral, que impediam o sistema imunitário de agir como desejávamos. Em particular, que as células do sistema imunitários, os linfócitos – que são os nossos soldados capazes de destruir células tumorais – estavam demasiado inibidos para desencadear esta ação. Foi pois necessário desinibi-los. Foi necessário, neste caso, termos anticorpos que impedem que o tumor esteja ativamente a impedir a ação dos linfócitos. O que estamos a fazer, portanto, é a ativar os linfócitos e a permitir a sua função no ambiente tumoral.

José Luís Passos Coelho – A imunoterapia parece ser mais ativa em tumores que têm mais mutações, que são mais agressivos. Então, é ‘bom’ ter tumores mais agressivos, porque esses é que têm boas hipóteses de responder a este tipo de tratamento, eventualmente menos tóxico e de eficácia mais duradoura?

Bruno Silva-Santos – Esse é o paradoxo atual: parecer que este tipo de imunoterapia, que se baseia em retirar os travões (aos linfócitos), é muito mais eficaz quando se tem sinais claros de transformação, quando se tem maior carga mutacional presente no tumor. Mas, sem dúvidas, que a comunidade cientifica está a trabalhar noutras formas de imunoterapia, que vão tomar conta dos tumores com menor carga tumoral e que têm de ser mais dirigidas a antigénios tumorais muito bem definidos molecularmente. Há, pois, uma perspetiva, sobretudo com alguma engenharia genética, de virmos também a ter os linfócitos programados para detetar antígenos individuais e abundantes à superfície do tumor, que permitam a destruição dessas células – as quais não têm grande carga mutacional mas têm alguns antigénios que as distinguem das células saudáveis. É essa a esperança para estes tais tumores menos agressivos e que escapam, atualmente, à ação dos linfócitos muito eficazes a identificar as células mais aberrantes, as que têm com alta carga mutacional, mas não as que são mais invisíveis por serem mais parecidas com as nossas células saudáveis.