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Rastreio oftalmológico infantil

Rastreio oftalmológico infantil

As crianças devem fazer rastreios oftalmológicos em três períodos: antes dos seis meses e aos três e cinco anos de idade. 

Todo o sistema visual, onde está incluído o globo ocular e estruturas cerebrais, está aparentemente formado à nascença. No entanto, é durante os primeiros anos de vida que ocorrem transformações profundas que originam a visão que o ser humano possui.

Apesar de existirem cada vez mais evidências de que este processo pode perdurar durante a adolescência e a juventude, reconhece-se que as principais transformações ocorrem até aos 10 anos de idade.

Qualquer pequeno acidente que surja até esta idade como, por exemplo, as doenças oculares, mesmo que transitórias, podem comprometer o desenvolvimento adequado, deixando lesões irreversíveis se não forem tratadas a tempo.

Depois dos 10 anos de idade, o sistema visual comporta-se como adulto e este risco de diminuição da visão por doença ocular é praticamente inexistente.

Um exemplo típico é o da resposta à cirurgia de extração da catarata. Enquanto um adulto recupera integralmente a visão após a cirurgia, na criança, a perda de transparência originada pela catarata compromete de tal forma o desenvolvimento adequado do sistema visual, que origina uma baixa de visão por vezes impossível de recuperar. Esta diminuição da visão que permanece mesmo depois de tratada a doença ocular que a originou é designada de ambliopia ou “olho preguiçoso”.

A ambliopia tem outras causas como o estrabismo (“olho torto”) porque o cérebro deixa de conseguir sobrepor as imagens de cada olho e apaga uma delas (supressão).

Também os erros refrativos como a hipermetropia, a miopia e o astigmatismo (que não são considerados doenças oculares) podem originar ambliopia, caso não sejam corrigidos.

Em resumo, a ambliopia é uma doença em que os olhos aparentemente estão normais, mas não veem. Por isso é tão difícil de detetar.

Doença ocular e sua deteção

Na infância existem três formas de manifestação de doença ocular:

  • Leucocória: a pupila (“menina do olho”) em vez da cor negra habitual aparece branca;
  • Estrabismo: perda do alinhamento ocular ou desvio ocular;
  • Ambliopia: visão dos dois olhos é menor ou igual a 6/10 ou a diferença entre os dois olhos é maior ou igual 2/10.

Enquanto a leucocória ou os estrabismos com desvios marcados são manifestações habitualmente reconhecidas pelos pais, os estrabismos com desvios pequenos ou a ambliopia são mais difíceis de identificar.

Nesse contexto, os rastreios oftalmológicos são uma ajuda valiosa na deteção destas situações, que passam despercebidas aos pais e às crianças.

Assim, nos rastreios oftalmológicos deverão estar presentes, pelo menos, os seguintes testes:

  • avaliação do aspeto macroscópico dos olhos;
  • acuidade visual em escala adaptada à idade da criança (quantificação da visão, habitualmente em escala decimal /10);
  • alinhamento ocular (teste onde é tapado cada olho isoladamente e medido o desvio);
  • função binocular: teste de estereopsia, de acordo com o qual se avalia a capacidade da visão descriminar objetos a três dimensões;

É recomendada a realização de rastreios a todas as crianças em três períodos da infância: antes dos 6 meses de idade, aos três e aos cinco anos de idade. Estes testes devem ser realizados por um oftalmologista ou um técnico de ortóptica, este um profissional habilitado nesta área.

Caso o desempenho nos testes seja perfeito não existe necessidade de uma consulta no oftalmologista.

No entanto, o rastreio não deve substituir a consulta de oftalmologia se existirem dúvidas ou desempenho nos testes for inferior ao esperado para a idade.

Alerta se…

Em qualquer ocasião e independentemente dos rastreios, deverão ser orientadas para uma consulta de oftalmologia pediátrica as crianças que apresentarem os seguintes sinais:

  • leucocória ou pupila branca;
  • estrabismo: antes dos seis meses de idade - caso aconteça na maior parte do tempo em que a criança está acordada; depois dos seis meses de idade – caso se verifique qualquer desvio ocular constante ou intermitente ou a adoção de postura incorreta da cabeça quando a criança olha para longe;
  • qualquer diminuição da visão de um ou dos dois olhos;
  • história familiar de doença ocular.

De referir que não se considera sinal de alarme a adoção de postura incorreta na visão para perto.

O prazo de recuperação das doenças oculares na infância termina aos 10 anos de idade. Quanto mais cedo é detetada a doença ou o erro refrativo, mais fácil é o tratamento e melhor será o resultado final.

Os rastreios são, de facto, uma arma poderosa na deteção destas alterações que são frequentemente silenciosas e que prejudicam o desenvolvimento visual de forma irreversível. Por isso, devem os mesmos ser estendidos a toda a população infantil.
Uma consulta efetuada numa loja de óptica não é suficiente para excluir uma doença ocular ou um erro refrativo. Não se esqueça que da saúde dos olhos do seu filho quem realmente sabe, é o oftalmologista.

Texto:

Rita Dinis da Gama

Oftalmologista, Hospital da Luz

 

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