Orbitoparia da doença de Graves

A doença de Graves é uma doença autoimune, caracterizada pela produção de auto-anticorpos com ação estimuladora sobre a tiroide. Calcula-se que a sua prevalência seja de cerca de 1 a 2% nas mulheres e de 0,1 a 0,2% nos homens.

O período pós-parto e as fases da vida emocionalmente difíceis estão associadas a um risco acrescido de desenvolvimento da doença.

O quadro clínico típico resulta da produção e secreção excessiva das hormonas tiroideias T3 e T4, situação designada por hipertiroidismo. O hipertiroidismo, na doença de Graves, é frequentemente acompanhado por um aumento difuso da glândula tiroideia, tecnicamente denominado bócio difuso. Tipicamente o hipertiroidismo traduz-se por perda de peso, aumento da frequência cardíaca, tremor, intolerância ao calor, diarreia e ansiedade, resultado do estado de hiperatividade metabólica associado à doença.

A médio/longo prazo, quando o controlo é insuficiente ou o diagnóstico é tardio, podem surgir alterações cardíacas graves, fraqueza muscular incapacitante ou perda da massa óssea, com aumento do risco de fratura. Trata-se, por isso, de uma situação clínica que requer tratamento eficaz e especializado.

Além de hipertiroidismo e bócio difuso, cerca de 25% das pessoas com doença de Graves apresentam sinais ou sintomas de orbitopatia.

A orbitopatia da doença de Graves é consequência da inflamação, de causa autoimune, dos tecidos moles intraorbitários. A primeira fase da doença, em que o processo inflamatório está muito ativo, é designada por fase ativa da orbitopatia. Em alguns casos, com o passar do tempo e consequente atenuação da inflamação, vão-se formando cicatrizes nos tecidos afetados, das quais resultam sequelas que tendem a ser crónicas.

A probabilidade de ter orbitopatia e desta evoluir negativamente, aumenta de forma significativa com o consumo de tabaco. 

Na maioria dos casos, ambas as órbitas estão afetadas e a orbitopatia é considerada ligeira. Nestas situações a retração da pálpebra superior, sensação de corpo estranho ocular, vermelhidão do olho, inchaço das pálpebras ou protusão ligeira do globo ocular dominam o quadro clínico. Existem, no entanto, casos em que ocorre compromisso funcional importante, de que são exemplo a visão dupla, perturbação da perceção da cor ou a diminuição da acuidade visual, geralmente associado a protusão importante do globo ocular.

È importante referir que a ausência de hipertiroidismo não torna impossível o desenvolvimento de orbitopatia. De facto, cerca de 15% destes doentes estão em eutiroidismo ou hipotirodismo, na altura do diagnóstico.

Por se tratar de uma patologia pouco frequente, a avaliação clínica, dirigida à identificação da fase da doença e sua gravidade, necessária ao estabelecimento de um plano terapêutica adequado, torna indispensável a intervenção de oftalmologistas especialmente dedicados à patologia da órbita.

É hoje indiscutível que a evolução da orbitopatia da doença de Graves depende, de forma determinante, não só do controlo atempado da função da tiroide mas também da adequação das medidas terapêuticas instituídas com este objetivoà situação oftalmológica de cada doente. É por isso de extrema importância que exista uma boa articulação entre os oftalmologistas e endocrinologistas que abordam esta patologia, tal como acontece no Hospital da Luz.