Enxaqueca

A enxaqueca é a cefaleia primária mais conhecida e incapacitante. Em 2000, a enxaqueca foi reconhecida pela Organização Mundial de Saúde como a 19ª causa mundial de anos vividos com incapacidade, tendo em conta todas as doenças conhecidas no mundo. Esta doença crónica é incurável e é um problema de saúde público reconhecido, que atinge uma percentagem significativa da população, tem um impacto importante na incapacidade e na qualidade de vida e que, apesar disso, muitas vezes não leva os doentes a procurar cuidados médicos, estando por isso medicamente mal controlada. 

A enxaqueca é um tipo especial de dor de cabeça, com crises que duram desde algumas horas até vários dias, que se repetem com uma cadência que pode ou não ser regular, desde uma ou duas vezes por ano até várias vezes por mês, e que têm uma intensidade variável. 

A enxaqueca pode iniciar-se logo na infância mas é mais comum entre os 20 e os 30 anos, passando a ser mais rara a partir dos 40 anos de idade. Afeta as mulheres duas a três vezes mais do que os homens. Estima-se que um em cada dez adultos tenha enxaqueca.

  • Causas

    A enxaqueca é uma doença do cérebro, em que a dor se associa a uma dilatação dos vasos sanguíneos que pode ter diversas causas ainda mal conhecidas. A enxaqueca parece sofrer alguma influência genética; foram já identificados genes associados à ocorrência de enxaqueca e a probabilidade de ter enxaqueca é superior nas famílias em que existem elementos já afetados pela doença.

    Estão também identificados fatores que, embora não sejam causa da enxaqueca, contribuem para desencadear as crises ou para as agravar:

    • Fatores emocionais (p. ex. stress, relaxamento após período de stress, ansiedade, agitação, irritabilidade, tristeza)
    • Alterações do padrão do sono (p. ex. dormir mais ou menos que o habitual)
    • Fatores hormonais (p. ex. fase menstrual, contracetivos hormonais, tratamentos hormonais da fertilidade, terapêutica de substituição)
    • Alterações ambientais (p. ex. viagens prolongadas, luzes intensas, alterações climáticas, exercício físico)
    • Alterações alimentares (p. ex. fome, saltar refeições, alterar a ingestão de cafeína, ingestão de álcool, chocolate, queijo e citrinos)

  • Sintomas

    As crises de enxaqueca podem dividir-se em quatro fases, embora numa crise possam não ocorrer todas.

    Assim, na fase inicial alguns doentes podem ter sintomas premonitórios de cefaleia, por exemplo, alterações do comportamento (ansiedade, irritação...), sintomas neurológicos (tonturas, perturbações da visão...), sintomas gerais (cansaço, dores musculares...), alterações alimentares (apetência por alimentos específicos, fome...). Cerca de 60% das pessoas que têm enxaqueca identificam estes sintomas, que, na mesma pessoa, são em geral semelhantes.

    Ainda antes da fase de cefaleia, pode ocorrer uma fase de aura, que se caracteriza por perturbações da visão (cintilação, manchas), dormências dos membros e dificuldade em falar. A aura manifesta-se em cerca de 15% das pessoas que têm enxaqueca, embora estas também possam ter crises de enxaqueca sem aura.

    A fase de cefaleia é a mais incomodativa. A dor de cabeça é, em geral, unilateral, intensa e, mais habitualmente, latejante. Acompanha-se mais frequentemente de enjoo (com ou sem vómitos), perda de apetite, intolerância à luz e ao ruído. A dor pode aumentar com os movimentos da cabeça, o esforço físico, a luz, os ruídos ou os odores e aliviar com o sono e o repouso. A capacidade de concentração e a memória também são afetadas. Podem ainda estar presentes outros sintomas.

    As crises de enxaqueca são autolimitadas, ou seja, passado algum tempo a dor de cabeça desaparece sozinha. No entanto, nesta fase de resolução, o doente pode ainda manifestar alguns sintomas, como sensibilidade à luz e aos movimentos da cabeça, cansaço e dificuldade de concentração.

    Durante as crises de enxaqueca, os doentes sentem-se mais confortáveis mantendo-se quietos, sentados ou deitados, num local isolado, sossegado, escuro e fresco. A sua capacidade de realização das tarefas habituais é muito comprometida; estas requerem mais tempo e mais esforço e ocorrem erros que só são identificados posteriormente.

  • Diagnóstico

    Quando há sintomas típicos de enxaqueca e existe história familiar desta doença, o diagnóstico baseia-se essencialmente na história e no exame clínico do doente. 

    Em muitos doentes com enxaqueca, esta nunca  foi diagnosticada e tratada adequadamente. Assim, todas as pessoas que habitualmente têm dores de cabeça devem procurar manter um registo da sua ocorrência, características e forma como as trataram. Estas informações podem ser uma ajuda valiosa para determinar o melhor plano de tratamento.

  • Tratamento

    Embora a enxaqueca seja uma doença incurável, tem tratamento. Este visa eliminar a dor e os restantes sintomas durante as crises, bem como diminuir a frequência das crises e melhorar a qualidade de vida dos doentes.

    O tratamento da enxaqueca inclui medicamentos (tratamento farmacológico) e a implementação de medidas não farmacológicas que ajudem a controlar os fatores que desencadeiam ou agravam as crises.

    O tratamento farmacológico da enxaqueca pode ser de dois tipos:

    • Tratamento de crise ou tratamento sintomático - este tratamento é realizado durante uma crise de enxaqueca e os medicamentos usados têm como objetivo interromper essa crise, para que os doentes recuperem a sua funcionalidade normal. 
    • Tratamento profilático - este tratamento é realizado durante períodos prolongados, muitas vezes diariamente, e tem como objetivo diminuir a frequência, duração ou intensidade das crises e aumentar a eficácia dos tratamentos de crise. É mais usado quando as crises são frequentes e acompanhadas de aura, entorpecimento ou incapacidade marcada.

    O tratamento farmacológico mais adequado depende da frequência e gravidade das crises de enxaqueca, bem como das especificidades de cada doente.

    Uma vez que as crises de enxaqueca podem ser desencadeadas e agravadas por diversos fatores, a adoção de medidas que ajudem a identificar e controlar esses fatores contribuem decisivamente para melhorar a qualidade de vida dos doentes. Dependendo dos fatores que influenciam a crise de enxaqueca em cada doente, estas medidas podem ser, por exemplo, as seguintes:

    • Evitar bebidas alcoólicas, substâncias estimulantes (p. ex. cafeína) ou determinados alimentos; 
    • Cumprir um padrão e horário regular de refeições;
    • Fazer noites de sono regulares (para conhecer algumas medidas que o podem ajudar a dormir melhor clique aqui);
    • Identificar e evitar a utilização de medicamentos relacionados com a enxaqueca (p. ex. contracetivos hormonais);
    • Identificar fatores de stress e tentar controlá-los usando, por exemplo, técnicas de relaxamento, psicoterapia, acupunctura ou outras.