Complicações agudas da diabetes

Complicações agudas da diabetes

A diabetes é uma doença silenciosa pois raras vezes apresenta sintomas. No entanto, as complicações a que dá origem podem ser devastadoras.

Estas complicações podem ser classificadas em:

  • Agudas, que resultam de alterações muito marcadas dos valores de glicemia
  • Crónicas, que resultam do impacto a médio-longo prazo nos órgãos alvo (aparelho cardiovascular, olhos, rins, sistema nervoso)
  • Infeções, que resultam do défice imunitário que acontece na diabetes

As complicações agudas mais frequentes são:

  • Coma com cetoacidose

    Quando há um défice de insulina, as células do organismo não conseguem utilizar a glucose existente em circulação. Como consequência, os níveis de glucose no sangue (glicemia) aumentam e as células recorrem a fontes alternativas de energia: a gordura e o músculo.

    A utilização da gordura e do músculo como fontes de energia para as células conduz à acumulação de corpos cetónicos no sangue. Este processo culmina num quadro clínico de emagrecimento, poliúria (urinar em grande quantidade por níveis aumentados de glucose na urina), polidipsia (muita sede por desidratação) e polifagia (muita fome por a glucose não entrar nas células).

    A acumulação de corpos cetónicos acaba por acidificar o sangue (diminui o pH do sangue) e, se o processo não for invertido, conduz ao estado de coma.

    As causas mais frequentes de cetoacidose são a não administração de insulina (que pode acontecer por problemas na caneta ou no sistema de perfusão contínua de insulina) em pessoas com diabetes tipo 1 ou em situações “inaugurais”, em que o diagnóstico de diabetes é efetuado após um episódio de cetoacidose. A cetoacidose também pode ocorrer em pessoas com diabetes tipo 2, geralmente em situações em que coexiste obesidade e resistência marcada à insulina.

    O coma com cetoacidose é uma situação em que é necessário recorrer a uma abordagem hospitalar.

  • Coma hiperosmolar sem cetoacidose

    O coma hiperosmolar com cetoacidose é um processo em que não há carência de insulina e portanto não se formamcorpos cetónicos.

    Predomina a desidratação que acaba por agravar a hiperglicemia, numa espiral de agravamento de valores que pode terminar em coma, com valores muito elevados de glicemia e com parâmetros acentuados de desidratação.

    Ocorre mais frequentemente em pessoas idosas (cujo reflexo de sede está diminuído) e em pessoas com episódios agudos (p. ex. acidentes vasculares cerebrais, infeções respiratórias) que podem conduzir à descompensa.

    O coma hiperosmolar sem cetoacidose é uma situação com abordagem obrigatória em contexto hospitalar.

  • Hipoglicemia

    As hipoglicemias ocorrem como efeito indesejado da medicação, da insulina ou de alguns fármacos orais.

    Podem ocorrer por atraso de uma refeição, por administração de uma dose excessiva, por troca de insulina (insulina de ação rápida em vez de ação mais lenta), por erros de técnica de administração ou por se ter realizado mais exercício do que programado.

    Geralmente, a hipoglicemia é sentida como algo muito desagradável: transpira-se muito, perde-se a lucidez, a sensação de fome é intensa, podendo mesmo conduzir à perda do estado de consciência.

    Como consequência, podem acontecer acidentes (p. ex. quedas ou acidentes de viação) ou ser desencadeados episódios agudos de doença cardiovascular (acidentes vasculares cerebrais, alterações da condução elétrica do coração).

    A longo prazo, os episódios frequentes de hipoglicemia podem representar morte neuronal significativa, com alterações a nível cognitivo. Assim, os diabéticos devem conhecer bem os riscos das hipoglicemias e os seus efeitos prejudiciais.

    Quando as hipoglicemias não têm sintomas, tal deve ser interpretado como um sinal de alerta, pois significa que o doente tem tido muitos episódios de hipoglicemia e o limiar de deteção diminuiu. Nestes casos, o risco de ocorrer uma hipoglicemia grave é alto. 

    É muito importante saber corrigir as hipoglicemias.

    Há hipoglicemias graves, em que o doente perde capacidade de reação e devem ser os acompanhantes a reverter o quadro.

    Nas hipoglicemias moderadas, o doente mantém a lucidez e reage perante a situação.

    Os diabéticos devem ter sempre consigo alguns pacotes de açúcar. A correção de hipoglicemias deve ser feita com açúcar e não com outro alimento rico em açúcar, como bolos, doces ou chocolates pois estes contêm gordura que atrasa a absorção do açúcar e o que se pretende é que esta absorção seja imediata.

    Hipoglicemia moderada

    Quando surgem sintomas de hipoglicemia, a primeira atitude deverá ser confirmar a situação, através de uma pesquisa de glicemia capilar. Perante valores inferiores a 70 mg/dL devem ser seguidos os seguintes passos:

    • Ingerir açúcar (cerca de um a dois pacotes) diluído num copo de água ou um copo de sumo
    • Repetir a determinação de glicemia cerca de cinco minutos depois
    • Se os valores ainda não estiverem normalizados, repetir a ingestão de açúcar ou de sumo, até os valores normalizarem
    • Após a normalização dos valores, ingerir hidratos de carbono de absorção lenta, como pão, bolachas, tostas ou massa. Esta refeição não deve ultrapassar um carcaça de pão ou três a quatro bolachas 
    • Reavaliar os valores de glicemia capilar cerca de uma hora depois
    • Se os valores não melhorarem apesar das várias tentativas, contactar o INEM (através do número 112) ou dirigir-se a um serviço de urgência hospitalar

    Hipoglicemia grave

    Se o doente está inconsciente ou com alteração do estado de consciência, têm que ser os acompanhantes a atuar:

    • Deitar a pessoa em hipoglicemia de lado, em segurança
    • Colocar no interior da bochecha uma papa de açúcar
    • Se estiver disponível, administrar glucagon, 1 mg por via intramuscular
      Contactar o INEM (112)

    O glucagon é uma hormona que contraria os efeitos da insulina, aumentando o valor da glicemia. É administrado por injeção intramuscular, também conhecida como glicagina.