Doença de Crohn

A doença de Crohn é uma inflamação crónica que pode atingir qualquer região do tubo digestivo, desde a boca até ao ânus, embora se localize, mais frequentemente, no último segmento do intestino delgado (íleon) e no intestino grosso. A inflamação pode estender-se a todas as camadas da parede digestiva, com formação de úlceras, e pode não ser contínua, ou seja, podem intercalar-se áreas inflamadas com áreas saudáveis.

Nas pessoas com doença de Crohn alternam-se períodos de doença ativa com períodos em que não estão presentes quaisquer sintomas, que podem durar meses ou anos. Não é possível prever a ocorrência de nenhuma destas fases nem a sua duração. Os períodos de remissão dos sintomas podem ser consequentes ao tratamento farmacológico, a uma intervenção cirúrgica ou, mais raramente, podem ser espontâneos.

A inflamação associada a novos episódios de doença pode ocorrer no mesmo local ou próximo das anteriores, mas pode também atingir outras regiões.

Embora possa afetar pessoas de qualquer idade, na maioria dos casos a doença de Crohn é diagnosticada nos adultos jovens. A sua incidência é semelhante nos homens e nas mulheres, é superior nos fumadores e é possível que exista alguma predisposição genética associada à sua manifestação.

 

  • Causas

    A causa da doença de Crohn não é conhecida. São identificadas como causas possíveis alterações do sistema imunitário, uma infeção por um microrganismo desconhecido ou uma reação a certos produtos alimentares. Dado que nas pessoas com doença de Crohn as alterações imunitárias são comuns, embora não esteja completamente esclarecido se são causa ou consequência da doença, considera-se mais provável que esta seja provocada por essas disfunções, associadas a efeitos ambientais. Desta forma, a doença de Crohn é considerada uma doença autoimune. Independentemente da sua causa, na doença de Crohn é induzida uma reação incorreta e exagerada do organismo, através de um processo inflamatório crónico, a compostos de origem alimentar ou outra que estejam presentes no tubo digestivo e que, embora inócuos, não são reconhecidos como tal.

  • Sintomas e diagnóstico

    Dado que a doença de Crohn pode atingir qualquer porção do tubo digestivo, os sintomas são variáveis e estão relacionados com a localização da doença. São mais comuns a diarreia, dor abdominal, febre, perda de apetite e perda de peso. No entanto, em virtude das complicações possíveis e comuns da doença de Crohn, tanto a nível digestivo (estenose, fístulas, abcessos, fissuras anais) como noutras localizações, podem estar presentes diversos sintomas como obstipação, fadiga, dor anal, hemorragia retal, sintomas de obstrução intestinal, fezes contaminadas com sangue, deficiências nutricionais, dores articulares, lesões da pele, sintomas associados à presença de cálculos renais e de cálculos biliares, alterações oculares, entre outros. Nas crianças com doença de Crohn, podem também ser evidentes atrasos do crescimento. Os sintomas presentes, bem como a sua gravidade, podem variar nos episódios sucessivos da doença.

    O diagnóstico da doença de Crohn é feito com base na história clínica, nos sintomas presentes, no exame do doente e em exames adicionais que se considerem necessários. Entre estes, poderá ser aconselhada, por exemplo, a realização de análises de sangue, que podem sugerir a existência de uma inflamação; análises de fezes, que podem revelar perdas de sangue; radiografias com contraste, para localizar zonas de inflamação, úlceras ou estenoses e ajudar a determinar a sua gravidade; colonoscopia para visualizar o interior do cólon, verificar a distribuição e gravidade da inflamação e das lesões, detetar complicações possíveis e eventualmente obter amostras que permitam confirmar o diagnóstico. Mais recentemente, a videoenteroscopia por cápsula, também tem sido usada como exame auxiliar de diagnóstico na doença de Crohn.

  • Tratamento

    Não existe um tratamento curativo para a doença de Crohn. Assim, o tratamento desta doença tem como objetivo melhorar a qualidade de vida dos doentes através do tratamento dos sintomas, mantendo e tentando prolongar os períodos em que estes não se manifestam.

    O tratamento da doença de Crohn varia com a localização e gravidade das lesões, com a existência de complicações (fístulas, estenoses, obstruções, entre outras), com a presença de manifestações extraintestinais e, nos casos pertinentes, com a resposta a tratamentos anteriores. Nos casos mais ligeiros e nos períodos de remissão dos sintomas, pode mesmo não ser necessário qualquer tratamento.

    Em regra, a abordagem de tratamento da doença de Crohn é feita com medicamentos, procurando combater os sintomas e, simultaneamente, evitar efeitos secundários que possam estar associados a tratamentos a longo prazo.

    Quando o tratamento farmacológico não é eficaz, nos casos mais avançados ou graves da doença e, especialmente, quando estejam presentes complicações, poderá ser necessário um tratamento cirúrgico que, no caso de uma localização intestinal da doença, pode envolver a remoção das áreas de intestino afetadas e a anastomose (junção) das extremidades saudáveis ou, nos casos em que esta não é possível, a ligação da extremidade saudável do intestino a uma abertura na parede abdominal (ostomia) para remoção das fezes.

    Estima-se que cerca de 75% das pessoas com doença de Crohn necessitem de uma intervenção cirúrgica em alguma fase da doença; no entanto, trata-se, na maioria dos casos, de intervenções para resolver complicações, já que a localização possível da doença de Crohn ao longo de todo o tubo digestivo e o facto de as lesões nos episódios subsequentes não terem sempre a mesma localização das anteriores, impedem que o tratamento cirúrgico seja curativo.

    Assim, embora na doença de Crohn a cirurgia permita uma melhoria significativa da qualidade de vida dos doentes, normalmente associada a um período prolongado de remissão dos sintomas, na maioria dos casos voltam a manifestar-se episódios da doença passado algum tempo.

    Não existem efeitos diretos de um tipo de dieta na inflamação associada à doença de Crohn. No entanto, no tratamento desta doença são em regra adotadas algumas medidas relativas à alimentação, que visam essencialmente ajudar a controlar os sintomas. Aconselha-se normalmente uma dieta de baixo teor de fibra ou, eventualmente, uma dieta líquida nos casos mais graves. Poderá também ser necessária uma suplementação mineral, vitamínica ou de outros nutrientes, quando existam problemas associados à absorção destes elementos.