Factores que contribuem para o desenvolvimento de obesidade

Um excesso de energia disponível no organismo, ou balanço energético positivo, que potencialmente pode levar a uma situação de obesidade, pode dever-se a:

  • Um excesso de energia ingerida em relação às necessidades
  • Um défice de energia dispendida em relação às necessidades

Não é possível afirmar que a causa da obesidade é simplesmente um excesso alimentar. Na realidade, para que se desenvolva a obesidade contribuem:

  • Fatores associados à própria (genéticos e outros)
  • Fatores inerentes ao ambiente que o rodeia
  • Interações entre os diversos fatores intervenientes

A multiplicidade e a complexidade dos fatores que, em atuação isolada ou sinérgica, podem resultar no desenvolvimento da obesidade e as suas interações possíveis, justificam a abordagem pluridisciplinar e integrada que deve ser adotada na sua avaliação.

Só dessa forma será possível determinar com rigor a estratégia de tratamento mais adequada a cada caso.

  • Predisposição genética

    O facto de existirem diversos casos de obesidade numa família, sugere que possa existir alguma predisposição genética para esta doença. No entanto, o facto dos membros de uma família partilharem culturas, hábitos e estilos de vida não permite muitas vezes distinguir um verdadeiro efeito genético. Estudos realizados com gémeos verdadeiros criados em ambientes diferentes e com indivíduos adotados têm contribuído de alguma forma para esclarecer estes efeitos genéticos.

    Atualmente estão já identificados alguns genes ligados à obesidade. No entanto, estes genes não determinam, por si só, a ocorrência da doença. A sua presença aumenta a tendência individual para a obesidade, mas é necessária a existência de estímulos ambientais para que a doença se manifeste, como por exemplo uma ingestão abundante ou uma situação de inatividade física.

    Existem também algumas doenças genéticas raras, como a síndrome de Bardet-Biedl e a síndrome de Prader-Willi, que se caracterizam, entre outros aspetos, por obesidade.

    A genética na obesidade é atualmente uma área de investigação de grande importância e cujos progressos têm sido substanciais; no entanto, o seu verdadeiro papel encontra-se longe de estar completamente esclarecido.

  • Idade e sexo

    A incidência de obesidade parece aumentar com a idade. O aumento da idade está relacionado com uma diminuição da massa muscular e do metabolismo, reduzindo as necessidades energéticas. assim, se não se verificar uma redução correspondente na ingestão, a probabilidade de desenvolvimento de obesidade aumenta. Contudo, a contribuição de fatores extrínsecos à idade mas a ela associados, tornam pouco claro o seu verdadeiro papel no desenvolvimento da obesidade. A redução da atividade física que normalmente acontece com o avanço da idade e uma vida profissional absorvente que conduz ao sedentarismo e impede as boas práticas alimentares, são disso bom exemplo. 

    Existe uma relação entre o sexo e a incidência de obesidade: a obesidade é mais frequente nas mulheres do que nos homens. Uma das explicações para este facto é a diferença na massa muscular, que é mais elevada nos homens, pela sua relação com as necessidades energéticas.

  • Desequilíbrios alimentares

    Os desequilíbrios alimentares passíveis de contribuir para a obesidade são basicamente de dois tipos:

    • Constituição desequilibrada das refeições 
    • Padrão incorreto de distribuição das refeições.

    As alterações sociais, em que na maioria dos casos todos os adultos da família contribuem para o rendimento, com redução do tempo disponível para a preparação de refeições e a evolução dos métodos e técnicas de obtenção e processamento de muitos produtos alimentares, introduziram mudanças profundas na disponibilidade de alimentos e nos hábitos de consumo. Com efeito, a variedade de alimentos disponíveis aumentou, em muitos casos associada a menores custos; foram desenvolvidas novas formas de conservação, processamento e apresentação de muitos alimentos, muitas associadas a uma facilidade acrescida de confeção doméstica; multiplicaram-se os restaurantes que servem refeições rápidas; foi desenvolvida uma vasta gama de sobremesas prontas a consumir, guloseimas, refrigerantes e outras bebidas. Embora todos estes desenvolvimentos tenham facilitado significativamente a vida das famílias, muitos dos alimentos de preparação simples e rápida tendem a possuir teores mais elevados de gordura, de hidratos de carbono e, naturalmente, de energia.

    Torna-se assim simples antever a facilidade com que podem ocorrer desequilíbrios alimentares, um dos principais fatores que concorre para o desenvolvimento da obesidade.

  • Problemas de comportamento

    Para os desequilíbrios alimentares podem também contribuir problemas de comportamento específicos. Por exemplo, muitas pessoas aumentam a ingestão, desviam-na para um determinado tipo de alimentos ou adotam um padrão de refeições incorreto perante situações de stress ou face a problemas emocionais. É também frequente a associação de estados depressivos ou de situações de stress com a obesidade, seja por alterações do comportamento, seja em virtude de efeitos secundários de medicamentos.

  • Atividade física

    A atividade física refere-se a qualquer movimento corporal que resulte em gasto energético. Este termo engloba assim uma vasta gama de ações, desde as atividades de rotina mais comuns, até à prática de qualquer modalidade desportiva.

    A inatividade física contribui de uma forma substancial para o desenvolvimento da obesidade, já que não é despendida a energia ingerida eventualmente disponível. Múltiplos fatores contribuem hoje para a inatividade física:

    • Opções pessoais 
    • Problemas de saúde que contraindiquem a prática do exercício físico 
    • Falta de tempo 
    • Falta de um local agradável para a prática do exercício físico 

    A evolução tecnológica que alterou os hábitos de vida, (por exemplo máquinas que auxiliam as atividades domésticas, elevadores e veículos motorizados), bem como meios de entretenimento (por exemplo, televisão e jogos de vídeo), considerados por muitos bem mais atrativos do que a prática de qualquer atividade física.

  • Tabaco e bebidas alcoólicas

    O abandono do consumo de tabaco também tem sido associado ao aumento do peso corporal. Três mecanismos são usados para tentar explicar este efeito:

    • A nicotina aumenta o metabolismo e, portanto, o dispêndio de energia, pelo que a sua ausência teria o efeito oposto 
    • A substituição comum do tabaco pelo aumento da ingestão de alimentos 
    • O tabaco tem um efeito negativo no paladar, que deixaria de se verificar com o seu abandono 

    No entanto, a importância destes efeitos a longo prazo não é clara. Por outro lado, e mais importante, os benefícios associados ao abandono do consumo de tabaco excedem largamente o risco associado de desenvolvimento de obesidade, que nestes casos pode ser minimizado reduzindo a ingestão calórica e aumentando o exercício físico.

    O consumo de bebidas alcoólicas inclui-se também entre os fatores que podem contribuir para a obesidade. Estas bebidas são ricas em calorias e, frequentemente, estimulam o apetite.

  • Medicamentos e doenças

    Alguns medicamentos, como certos antidepressivos, antipsicóticos e tratamentos prolongados com corticosteróides e algumas situações de doença, como o hipotiroidismo (em que o nível do metabolismo diminui, com a consequente redução das necessidades energéticas), a síndrome de Cushing (em que ocorre um excesso de produção de cortisol) e a síndrome do ovário poliquístico, parecem também predispor para obesidade.

    Também as artrites e outras doenças que interferem com a atividade física podem contribuir para a obesidade, tal como as lesões neurológicas que atinjam os centros hipotalâmicos de regulação da fome e da saciedade.