Manutenção dos Resultados do Tratamento Cirúrgico da Obesidade

A decisão de ser submetido a um tratamento da obesidade, bem como a sua realização, são passos de inestimável importância para tentar resolver todos os problemas associados a esta doença. No entanto, nenhum tratamento da obesidade, cirúrgico ou outro, é por si só garantia de resultados duradouros. É imprescindível ainda a adoção de novos hábitos de vida, no que se refere particularmente à alimentação e à prática de atividade física, para tentar garantir que são atingidos e mantidos os objetivos do tratamento.

Assim, depois de ultrapassada a fase da operação e do período pós-operatório imediato, há ainda um caminho longo e árduo a percorrer, já que o preço da perda de peso, com os seus benefícios numerosos, é um investimento vitalício na manutenção dos resultados atingidos.

No Centro de Tratamento da Obesidade do Hospital da Luz o seguimento dos doentes submetidos a tratamentos cirúrgicos da obesidade reveste-se, naturalmente, de grande importância. Também nesta fase, é feita uma abordagem multidisciplinar e integrada e uma intervenção eficaz, adaptada às especificidades de cada doente, nomeadamente nas áreas da Dieta e Nutrição, Medicina Física e Reabilitação e Cirurgia Plástica e Reconstrutiva, em que as equipas disponíveis possuem uma vasta experiência.

Os obstáculos a ultrapassar para conseguir atingir os objetivos propostos do tratamento da obesidade e para os manter são numerosos. Torna-se assim imprescindível, além de dispor de um programa alimentar e de atividade física rigoroso, ter força de vontade, paciência, aprender com a experiência e com os erros e não desistir.

  • Alterações e Problemas Imediatos

    Perda de peso

    A perda de peso tem início logo após a intervenção cirúrgica e continua posteriormente. Em regra, estabiliza passados 12 a 24 meses. O nível de perda de peso e a ocasião em que esta deixa de acontecer, dependem de diversos fatores entre os quais se incluem o regime alimentar e a prática de atividade física.

    Dieta equilibrada e hábitos alimentares corretos

    Atingida a fase em que a dieta passa a incluir alimentos na sua forma normal, inicia-se um período de adaptação a um novo regime e a novos hábitos alimentares. O novo regime de refeições pequenas e repetidas (5 a 6 por dia), iniciado depois da operação, deve manter-se. A mastigação deve ser completa, isto é, deve mastigar-se muito e bem; consequentemente, as refeições serão demoradas. Entre estas não é permitida a ingestão de quaisquer alimentos.

    Naturalmente, a quantidade, a qualidade e a proporção dos alimentos que integram cada refeição serão muito diferentes daquilo que acontecia antes da operação. Em primeiro lugar, a quantidade de alimentos ingerida será substancialmente menor, o que é imposto pelo próprio procedimento cirúrgico e não uma escolha do doente. Este facto, associado à redução da absorção nos procedimentos mistos ou indutores de malabsorção, favorece eventuais desequilíbrios e carências alimentares, se a alimentação não for correta e equilibrada. Assim, será fundamental a administração de uma dieta rigorosamente equilibrada e completa do ponto de vista nutricional, que veicule os nutrientes essenciais para as diversas funções vitais, de forma a evitar desequilíbrios e carências alimentares.

    Alimentos permitidos e alimentos proibidos

    Em linhas gerais, a dieta passará a incluir uma percentagem importante de frutos e vegetais frescos, cereais integrais, carne magra e peixe, associada a uma redução substancial, ou mesmo à eliminação, de doces, frutos secos, enchidos, conservas, queijos gordos e numerosos outros alimentos com teores elevados de gordura.

    Preparação culinária

    Relativamente ao processamento culinário dos alimentos, nos casos em que é necessário, deverá optar-se pelo cozer, grelhar, ou outros métodos que não impliquem a adição de gorduras.

    Bebidas

    Deverá ser evitado o consumo de líquidos durante as refeições, pois estes facilitam o esvaziamento gástrico, o que diminui a sensação de saciedade e contribui para a ingestão de maiores quantidades diárias. Naturalmente, o consumo de água é importante e não poderá ser descurado, devendo ser da ordem de um litro a um litro e meio por dia, distribuído em pequenas quantidades. Devem ainda ser evitadas as bebidas muito calóricas, como refrigerantes e bebidas alcoólicas, bem como as bebidas gaseificadas, que contribuem substancialmente para o aumento do volume da bolsa gástrica, contrariando o efeito pretendido de limitação física das quantidades ingeridas.

    Terminar as refeições

    É também importante que as refeições sejam terminadas quando é percetível o início da sensação de saciedade, não continuando a comer até estar presente um estado evidente de repleção, que favorecerá a dilatação da bolsa gástrica e conduzirá a um aumento das quantidades ingeridas.

    Atividade física

    A probabilidade de conseguir atingir uma perda de peso elevada mais rapidamente e de a conseguir manter ao longo do tempo aumenta significativamente quando é seguido um programa regular de atividade física. Além de contribuir para aumentar os gastos energéticos, a atividade física tem também a vantagem de favorecer a firmeza dos tecidos, de ajudar a controlar o stress e de reduzir o risco de ocorrência de várias doenças.

    Assim, será ótimo que se consiga realizar pelo menos 30 minutos diários de qualquer atividade física além da inerente às atividades diárias normais.

  • Alterações e Problemas a Mais Longo Prazo

    Problemas com a manutenção do peso corporal

    A partir dos dois anos depois da intervenção cirúrgica para tratamento da obesidade ocorre, com alguma frequência, um aumento do peso corporal. Este aumento de peso possível acontece simplesmente porque os doentes deixam de seguir com rigor o programa que lhes foi estabelecido, nomeadamente porque, voluntária ou involuntariamente, passaram a ingerir quantidades excessivas e/ou alimentos que lhe estão interditos, ou ainda porque diminuíram de uma forma importante o nível de atividade física praticado habitualmente.

    Estas situações, totalmente dependentes dos doentes, não devem no entanto assumir uma importância injustificada, que associada à força de vontade necessária para manter os objetivos e à disponibilidade sempre presente de alimentos tentadores e altamente calóricos, pode tornar o tratamento da obesidade ainda mais difícil e conduzir eventualmente a sentimentos de frustração e desencorajamento.

    Com efeito, desde que detetados e controlados precocemente, os aumentos ligeiros do peso corporal que podem ocorrer nesta altura não comprometem o investimento dos doentes no tratamento da obesidade. Também, o cumprimento por parte dos doentes do seguimento que lhes deve ser proposto no centro de tratamento da obesidade que escolheram, pode desempenhar um papel fundamental na deteção de variações indesejáveis do peso e na contribuição para a resolução desses problemas.

    Problemas com o comportamento alimentar

    Não sendo em regra possível nem razoável adotar um comportamento vitalício irrepreensível, uma quebra ocasional da rotina necessária num programa de controlo do peso, particularmente frequente em ocasiões festivas, deverá ser encarada como um erro e não como um fracasso. O importante é ter consciência desses erros e implementar as medidas necessárias para os ultrapassar.

    Neste contexto, o acompanhamento individual por um dietista pode assumir um papel fundamental. Com efeito, são estes os profissionais mais indicados não só para delinear e acompanhar, em função das especificidades de cada doente, o programa alimentar que se torna necessário cumprir depois de uma operação para tratamento da obesidade, como também para esclarecer todas as dúvidas relativas às quebras desse programa, às eventuais consequências dessas quebras e à forma de as resolver, antes ou depois de acontecerem.

    Na realidade, muitas vezes são conseguidos resultados a longo prazo mais duradouros e favoráveis, nomeadamente em termos psicológicos, quando são permitidas pequenas transgressões ocasionais. A interdição completa e a longo prazo de alimentos que na generalidade são muito apreciados, é com frequência um fator de stress adicional que pode ser contraproducente.

    Novos problemas estéticos

    Quando, tal como é desejável, ocorre uma perda de peso corporal importante na sequência de uma operação para tratamento da obesidade os doentes têm frequentemente que enfrentar a dificuldade associada à presença de uma quantidade de pele em excesso no corpo (normalmente mais acentuada na região abdominal, região posterior dos braços e coxas).

    A incidência deste problema aumenta com o nível de perda de peso e com a idade dos doentes associada à perda de elasticidade da pele.

    Além do incómodo que causa, a presença de pele em excesso tem consequências estéticas importantes, que muitas vezes não é possível resolver apenas com um programa de atividade física. Assim, depois da perda de peso estar estabilizada, estes doentes poderão ser submetidos a cirurgias plásticas para remover as áreas de pele em excesso.

    A avaliação destas situações e a determinação da necessidade da sua resolução cirúrgica também deve fazer parte do programa de acompanhamento disponibilizado aos doentes submetidos a um tratamento cirúrgico da obesidade.