Tratamento não Cirúrgico da Obesidade

O tratamento não cirúrgico da obesidade envolve alterações relacionados com o tipo de alimentos, a confeção das refeições, o padrão das refeições e a prática de atividade física, associadas com frequência a um competente acompanhamento psicológico; aos medicamentos é atribuído um papel complementar. As metodologias de tratamento endoscópico são uma área promissora, sendo atualmente realizada por rotina apenas a aplicação de um balão intragástrico.

  • Alimentação

    Gastar mais energia do que a ingerida

    Em termos gerais, o que se pretende com um programa alimentar delineado para perder de peso é que a dieta veicule os nutrientes essenciais mas não cubra as necessidades energéticas do organismo (dieta hipocalórica). Desta forma, é criada uma situação de balanço energético negativo (em que o organismo necessita de mais energia do que a que é ingerida) e serão mobilizados recursos armazenados (especialmente tecido adiposo) para fazer face a esse défice. Associando uma dieta hipocalórica à prática de atividade física, o consumo de energia será ainda maior, com a consequente maior mobilização das reservas energéticas e perda de peso.

    A dificuldade em perder peso

    Apesar da simplicidade aparente deste mecanismo, a perda de peso é um processo bastante lento. O organismo humano é uma máquina eficiente, com um funcionamento particularmente bem adaptado a situações difíceis: 

    • Poupa consideravelmente em épocas de abundância alimentar na perspetiva de ter que enfrentar épocas de escassez 
    • Gasta moderadamente em épocas de escassez, para não esgotar as reservas no caso esta se mantenha 

    Com efeito, perante uma situação de excesso de energia ou balanço energético positivo, a deposição de gordura e o aumento de peso acontecem facilmente. Já numa situação de balanço energético negativo, em que as necessidades excedem a ingestão, o organismo adapta-se reduzindo o metabolismo (e consequentemente as suas necessidades) e mobilizando lentamente o tecido adiposo para enfrentar o défice energético, o que torna a diminuição do peso bastante mais lenta.

    Alimentos e padrão das refeições

    De uma forma geral, é aconselhada uma dieta hipocalórica (800 a 1500 kcal/dia) balanceada em termos de matérias-primas e nutrientes e distribuída em 5 a 6 refeições diárias.

    É aconselhável, na grande maioria dos casos, um acompanhamento profissional na área da Nutrição, dado que a dieta ideal, tanto em termos de composição como de padrão de refeições, deve ser programada em função das especificidades de cada indivíduo (sexo, idade, altura, nível de atividade física, doenças simultâneas, disponibilidade de alimentos, necessidade de tomar refeições fora de casa, entre outras). Também o teor calórico dos vários alimentos e, assim, a sua contribuição em energia difere em função da sua composição nutricional, pelo que é imperiosa a escolha criteriosa dos alimentos a incluir na dieta quando se pretende seguir um programa de redução de peso.

    Por outro lado, nos casos de obesidade secundária a outras doenças, a avaliação e o tratamento devem ser dirigidos para a causa e orientados pelos médicos das especialidades adequadas.

  • Atividade Física

    A ideia de que a atividade física se limita à prática de modalidades desportivas e que deve ser forte e extenuante para ter benefícios, afasta muitas pessoas da sua prática. No entanto, qualquer atividade física que resulte em dispêndio de energia é útil, pelo que são sempre benéficos quaisquer movimentos, desde os associados às atividades domésticas comuns até à prática do exercício físico mais exigente.

    Uma atividade física regular, como andar a pé durante 30 a 60 minutos cinco a sete vezes por semana, quando a situação anterior era de inatividade, é um passo importante na mudança dos hábitos de vida.

    Além de contribuir para a redução do peso corporal, a prática regular de atividade física tem outros benefícios globais consideráveis para a saúde, nomeadamente através da diminuição do risco de cancro do cólon, de diabetes e de hipertensão arterial, contribuindo para manter os músculos, ossos e articulações saudáveis, diminuindo a incidência de quedas nos idosos e aliviando a dor associada a artrites.

    Nos casos de obesidade mais graves, muitas vezes com limitações ao desempenho de atividade física, torna-se necessário recorrer a programas de exercício específicos com acompanhamento profissional.

  • Acompanhamento Psicológico

    Nos doentes obesos são comuns problemas psicológicos que podem contribuir para a obesidade, ser secundários à mesma e/ou perpetuá-la.

    Nestes doentes, o acompanhamento psicológico torna-se assim fundamental para atingir os objetivos propostos permitindo:

    • Compreender as razões do problema e suas consequências 
    • Compreender e implementar todas as alterações necessárias dos hábitos de vida 
    • Manter a motivação em resolvê-lo

  • Tratamento Farmacológico

    No tratamento da obesidade são por vezes prescritos medicamentos para complementar um programa de perda de peso que já inclua uma dieta hipocalórica, uma prática regular de atividade física, alterações de outros hábitos de vida consideradas necessárias e acompanhamento psicológico.

    A utilização isolada de medicamentos para o tratamento da obesidade não é considerada uma opção adequada para perder peso e conseguir mantê-lo. 

    Os medicamentos sujeitos a prescrição médica atualmente disponíveis para inclusão num programa de tratamento da obesidade incluem compostos com ação sobre o sistema nervoso central queprovocam uma diminuição do apetite e compostos que interferem com a ação de enzimas digestivos inibindo a absorção a nível intestinal da gordura ingerida.

    Em ambos os casos são possíveis efeitos secundários importantes, nomeadamente aumento da pressão arterial, problemas cardíacos, dores de cabeça e insónias no caso dos medicamentos com ação no sistema nervoso central e flatulência, dor abdominal e aumento da frequência dos movimentos intestinais quando são utilizados medicamentos que inibem a absorção da gordura.

  • Tratamento Endoscópico

    O desenvolvimento com êxito que se tem registado nos últimos anos nas metodologias e instrumentos para os procedimentos endoscópicos, tornou esta forma de abordagem promissora também para o tratamento da obesidade.

    No entanto, o único método de tratamento endoscópico da obesidade praticado por rotina continua ainda hoje a ser a colocação de um balão intragástrico.

    Indicações do balão intragástrico

    Em regra, têm indicação para colocação de um balão intragástrico os doentes com indicação cirúrgica para tratamento da obesidade mas que:

    • Não pretendem, por qualquer razão, ser submetidos a uma intervenção desse tipo;
    • Sendo doentes super-obesos, os riscos associados a essa intervenção são elevados, dado o excesso de peso. Assim, numa primeira fase é feita a colocação do balão intragástrico com o objetivo de conseguir alguma perda de peso pré-operatória, diminuindo aqueles riscos; a intervenção cirúrgica para tratamento da obesidade será realizada numa fase posterior;
    • Doentes que pelo seu grau de obesidade não têm indicação cirúrgica, mas que seguem um programa alimentar para perder peso e pretendem acelerar esse efeito, continuando simultaneamente a cumprir as regras alimentares impostas.

    Características do balão intragástrico

    O balão intragástrico é um dispositivo esférico oco, de superfície exterior lisa e resistente à acidez gástrica, que depois de colocado no estômago e cheio com soro fisiológico atinge um volume de 400 a 700 mL. Desta forma, pelo espaço que ocupa, o balão diminui o volume gástrico disponível para os alimentos, o que tem um efeito de limitação da capacidade de ingestão.

    O balão intragástrico é colocado no estômago por via endoscópica, através da boca. É uma intervenção relativamente rápida e realizada sob sedação profunda, mas que não requer qualquer internamento. No final do período de tratamento e depois de vazio, o balão é retirado pela mesma via. O tempo máximo de permanência de um balão no estômago é de seis a sete meses, o que, em parte, é determinado pelo enfraquecimento da sua parede e pela possibilidade de formação de aderências, problemas associados a um risco acrescido de obstrução. Outros efeitos secundários e complicações mais comuns descritos para o balão intragástrico incluem náuseas, vómitos e desidratação.

    Perspetivas do tratamento

    O balão intragástrico permite uma perda de peso apreciável. Este efeito depende do cumprimento de regras alimentares rigorosas, já que o estômago tem uma capacidade de dilatação apreciável, adaptando-se assim à ingestão de quantidades crescentes de alimentos.

    Pela mesma razão, o sucesso a longo prazo deste tratamento é relativamente limitado se não continuarem a ser seguidas regras alimentares rigorosas depois do balão intragástrico ser retirado.