Demências: uma questão de imagem

Demências: uma questão de imagem

Quanto mais cedo for o diagnóstico, melhor o prognóstico das neurodemências. Para que tal aconteça, são necessárias novas modalidades de imagem avançada para a gestão de doenças como a de Alzheimer.


Portugal, como todos países desenvolvidos, enfrenta uma mudança demográfica, segundo a qual o número de pessoas idosas vai ultrapassar as mais jovens.
Para o Professor José Ferro, neurologista do Hospital da Luz e diretor do simpósio “Mind, Cognition and Neurodegeneration”, as pessoas idosos não só vão adoecer menos de AVC ou de doenças infeciosas, cardíacas e oncológicas, como tal vai suceder mais tarde. “Fruto da melhoria das condições de vida, da prevenção e da melhoria da medicina, vai ser possível chegar aos 80-90 anos de idade relativamente bem de saúde, até sofrer uma doença neurodegenerativa, que pode atingir a parte cognitiva, como a doença de Alzheimer, ou a do movimento, como a doença de Parkinson”, diz.

A epidemia silenciosa de doenças neurodegenerativas está a alastrar-se pelas regiões mais desenvolvidas, pressionando os sistemas sociais e de saúde.

O simpósio “Mind, Cognition and Neurodegeneration” destaca, sobretudo, os aspectos da imagem avançada (quantificação de ressonância magnética, ressonância magética de campos muito elevados, PET-CT), a que se recorre para diagnosticar as doenças de neurodegenerativas que afectam a cognição, tal como a doença de Alzheimer, na sua fase inicial.

“Com efeito, há hoje a noção a doença já está instalada no cérebro há muitos anos, antes de aparecerem sintomas clínicos, como o esquecimento ou comportamentos que nos parecem mais bizarros”, alerta José Ferro.

No campo das doenças neurodegenerativas há métodos de imagiológicos que permitem dizer que uma pessoa tem uma elevada probabilidade de estar a evoluir no sentido de vir a sofrer, daí a quatro ou cinco anos, de doença de Alzheimer. “Os métodos de imagem funcional permitem-nos ver quais as zonas do cérebro que estão a ser activadas para fazer determinadas funções. Isso pode originar comportamentos que parecem estranhos, mas são os que são possíveis ao doente com a parte do seu cérebro que não está afetada...”, diz José Ferro.

Assim, além da importância do da imagem no diagnóstico pré-clinico da pessoa que ainda não estão doente, mas já tem a doença, há também a da imagem como uma maneira de monitorizar o efeito dos medicamentos e das técnicas de reabilitação, como forma de avaliar o doente.

Esquecer nomes é Alzheimer?

Frequentemente, as pessoas tendem a esquecer nomes, algo que sucede a partir dos 50 anos de idade.

Porém, diz José Ferro, tal não deve ser associado à doença de Alzheimer: “o esquecimento de factos marcadamente temporais, como não se lembrar da refeição que tomaram no dia anterior, pode, sim, ser indicativo de uma neurodemência”.

Naturalmente, o diagnóstico precoce da doença possibilita o começo da terapêutica numa fase inicial, além de ser ainda possível dar informação e formação aos familiares e às pessoas mais significativas sobre como evitar alterações de comportamento que agravam o curso clínico da doença.

“Muito do que fazemos passa por tratar os sintomas, mas há medida que vamos avançado para um diagnóstico por imagem pré-clinico, abrem-se grandes perspectivas com fármacos novos, com a possibilidade de atuar antes dos sintomas aparecerem”, destaca José Ferro.

A terapêutica hoje disponível, aponta na linha do tratamento de sintomas, estando a ser desenvolvidos medicamentos para conseguir a remoção do amilóide, a substância que se deposita e que se considera ter acção tóxica sobre as células cerebrais.

No departamento de neurologia do Hospital da Luz são acompanhados doentes com neurodemências na faixa etária dos 70 anos de idade, mas José Ferro refere que, cada vez mais, dado o referido aumento da esperança média de vida, começam a aparecer pessoas com 80 e 90 anos de idade. “Em breve, não será estranho que comecem a surgir centenários...”, conclui. J.P.G.

 

Special Report publicado no âmbito do Leaping Forward - Lisbon International Clinical Congress, que decorre no Hospital da Luz de 13 a 19 de fevereiro.