Endoscopia caminha para a área cirúrgica

Endoscopia caminha para a área cirúrgica

Para David Serra, diretor do simpósio de endoscopia digestiva e do Leaping Forward e coordenador do Centro de Gastrenterologia e Endoscopia Digestiva do Hospital da Luz, a reunião que marca o primeiro dia de trabalhos do congresso vai mostrar o estado da arte da especialidade através de procedimentos inovadores, sem esquecer a importância da endoscopia no diagnóstico de doenças muito prevalentes, como o cancro colorretal.

“O cancro colorretal, que atinge ambos os sexos, é uma das poucas doenças oncológicas onde o diagnóstico precoce é eficaz”, diz David Serra, que identifica ainda os cancros da mama, na mulher, e o da próstata, no homem, como os outros em que a deteção atempada pode evitar males maiores.

Segundo este médico, a colonoscopia de diagnóstico precoce deve começar aos 50 anos de idade na população sem fatores de risco pessoal ou familiar. Já quem tiver um familiar direto, que tenha sofrido de doença oncológica do cólon ou do reto, deve fazer uma colonoscopia 10 anos antes (aos 40 anos).

Um terceiro grupo que deve procurar despistar o cancro colorretal é aquele que, antes dos 50 anos, apresenta sintomas tais como: perda de sangue pelo reto (o mais facilmente identificável), ou a alteração súbita e prolongada dos hábitos intestinais – obstipação que passa a diarreia crónica ou um funcionamento regular que passa a obstipação ou diarreia crónica – podem levar a antecipar a realização de uma colonoscopia.

David Serra lembra que este exame é eficaz na prevenção, ao detetar lesões percursoras pré-malignas (pólipos), mas também no tratamento: “é possível remover, ao mesmo tempo, mais de 95% das lesões pré-malignas. Evita-se a evolução para tumor maligno e o acompanhamento dos doentes acaba por mostra taxas de recidiva e de complicações pós-exame de 0%”, diz.

Aliás, hoje em dia, dada a possibilidade de realizar uma colonoscopia com anestesia geral, este exame deixou de ser desconfortável ou até mesmo, doloroso, o que tem contribuído para que haja menos receio por parte da população, permitindo maior sucesso na deteção precoce da doença oncológica.

Juntar gastrenterologia e cirurgia-geral

Relativamente ao que vai poder ser visto, ao vivo, no simpósio de endoscopia digestiva do Leaping Forward, David Serra refere a mucosectomia endoscópica de pólipos do colón com apoio laparoscópico, um procedimento híbrido, onde colaboram um gastrenterologista e um cirurgião-geral, e que é realizada no bloco operatório, com apoio de anestesista e equipas de enfermagem de gastrenterologia e cirurgia-geral.

O procedimento permite remover, de forma segura e mantendo o intestino integro, pólipos de grandes dimensões: “Trata-se de uma situação relativamente recente, que fazemos desde 2009 e onde só há experiência em mais cinco centros em todo o Mundo. Neste momento, o Hospital da Luz é o segundo centro a nível mundial neste tratamento, com largas dezenas de doentes tratados e a apresentação de um artigo científico para breve”, afirma David Serra.

Ainda em relação a novas técnicas endoscópicas, este médico refere a estreia, em Portugal, de um procedimento para tratar uma doença chamada acalásia e que vai ser executado pelo professor Paul Fockens.

“Basicamente, consiste numa cirurgia endoscópica para tratar a acalásia, uma perturbação motora do esófago, na qual o esfíncter que separa o esófago do estômago não relaxa e funciona como uma válvula, impedido que os alimentos cheguem ao estômago”, diz David Serra.

Para o doente, as grandes vantagens começam pelo facto de evitar uma cirurgia transtorácica pesada, com um tempo de internamento superior a uma semana e resultados inferiores aos agora alcançados pelo endoscopista, que consegue realizar um procedimento com uma taxa de sucesso muito mais elevada e com o doente a ter alta 24horas após a intervenção.

Outro dos temas que vai estar em foco no simpósio é a deteção de cancro do pâncreas, uma doença para a qual ainda não existe um método de diagnóstico precoce fiável e onde começam a surgir algumas soluções, que vão ser abordadas e debatidas durante o simpósio.

 

Special Report publicado no âmbito do Leaping Forward - Lisbon International Clinical Congress, que decorre no Hospital da Luz de 13 a 19 de fevereiro.