Mas como é que ficámos assim tão velhos?

Mas como é que ficámos assim tão velhos?

As pessoas idosas hoje foram apanhadas de surpresa: chegaram a velhas e não estavam à espera disso. Mas o envelhecimento não deve ser uma ameaça. Exige de todos nós, enquanto sociedade, uma resposta adequada e inovadora, a que devem estar atentos, antes de mais, os profissionais de saúde. Nos cuidados paliativos e nas demências, também se fala de inovação. Um tema que o Leaping Forward do Hospital da Luz não podia deixar de debater.

 

Os Rolling Stones vão iniciar, este mês, mais uma tournée mundial, a «14 On Fire», que passará por Abu Dhabi, Japão, China, Singapura, Austrália e Nova Zelândia, depois de correr a Europa e os Estados Unidos. Mick Jagger, como sempre, será o homem no centro das atenções. Afinal, 50 anos depois de ter começado a carreira, Jagger não parece ter perdido nenhuma das suas qualidades artísticas, mentais e muito menos as físicas.

Sob os focos de luz do palco, o vocalista da banda rock ainda em atividade mais famosa do mundo, vai, como é seu costume, correr, pular, ajoelhar-se, levantar-se logo de seguida… E ninguém, entre todos aqueles que conseguirem assistir ao vivo a um dos concertos desta tournée, vai lembrar-se de um facto incontornável da vida deste músico: Mick Jagger tem 71 anos.

«Com esta idade, tal como todas as pessoas da mesma faixa etária, ele corre sérios riscos de partir o colo do fémur ou de ter um AVC. Ainda por cima a fazer o que ele faz em cima do palco. E se isso acontecer? Aquilo que ele vai pedir aos seus médicos não é, apenas, que lhe resolvam aquele problema de saúde. O que ele vai querer é estar de volta aos palcos, seis meses depois! E isso significa muito mais do que fazer-lhe uma operação ou prescrever-lhe fisioterapia».

O exemplo dado por Manuel Caldas de Almeida, médico, diretor clínico do Hospital do Mar – a unidade dedicada aos cuidados continuados e paliativos e às doenças neurodegenerativas da Espirito Santo Saúde – e um dos diretores do simpósio «Palliative and dementia care module» do Leaping Forward, no Hospital da Luz, não é meramente académico.

Aos 70 anos, e apesar de continuar a sentir-se e a comportar-se como qualquer jovem vocalista de uma banda rock, Jagger é «uma pessoa idosa! Só que não é como as pessoas idosas de há meio século, a quem bastava ser tratado para ficar a andar de bengala. Nada disso! As pessoas idosas de hoje têm expectativas e necessidades completamente diferentes. Até porque nós hoje, culturalmente, deixámos de sentir-nos velhos», diz Caldas de Almeida, realçando: «Isto significa que nós, como médicos, não podemos continuar a chamar velhos a pessoas que não se sentem velhas. E temos de perceber que essas pessoas procuram, nos profissionais e nos serviços de saúde, respostas que nada têm a ver com aquilo que a maior parte de nós pensa dar-lhes».

A ideia parece simples, óbvia mesmo, diz Isabel Galriça Neto - também responsável pelo simpósio sobre cuidados paliativos e nas demências do Leaping Forward e coordenadora da Unidade de Cuidados Paliativos e Continuados do Hospital da Luz.

Mas «ainda estamos longe de encarar as coisas assim», diz. «Continua a pensar-se que o envelhecimento é uma ameaça. Mas ameaça é não perceber que as necessidades dos mais velhos, dos doentes crónicos ou irreversíveis não podem continuar a ter as respostas que os sistemas de saúde lhes estão a dar neste momento», afirma a médica, acrescentando: «O envelhecimento é um facto. E essa ideia exige uma mudança de atitude, que deve partir, antes de mais, dos próprios profissionais de saúde».

De facto, quando se fala de novas necessidades, fala-se, explica Caldas de Almeida, de mais do que prescrever a fisioterapia para por a trabalhar determinado músculo ou operar a anca partida, por exemplo. «Temos efetivamente de por de lado essa conceção simplista e parcial do tratamento. E o exemplo do Mick Jagger diz-nos isso mesmo. O que as pessoas querem é voltar a ter autonomia, o que exige muito mais dos profissionais de saúde do que simplesmente fazer o diagnóstico e prescrever uma terapêutica», diz, acrescentando: «E quando falamos de repor a autonomia do nosso doente, falamos de ajudá-lo a regressar à sua vida normal numa perspetiva muito abrangente e multidisciplinar, até mesmo em termos financeiros, legais, arquiteturais e ambientais… Por exemplo, diante de um doente com uma doença reumática, se calhar, enquanto ele ainda tem dinheiro e ainda está a ganhar o seu ordenado, eu devo ajudá-lo a tornar a sua casa mais amigável, a preparar-se para um futuro em que não consiga movimentar-se com facilidade. Isso fará com que ele viva mais feliz e mais confortável com a sua doença, quando ela se agravar».

Mas os cuidados destinados aos mais velhos têm uma outra faceta. Porque, afinal, há um momento em que, como diz Isabel Neto, o envelhecimento se torna um facto incontornável – por causa de uma doença irreversível, demencial, incurável. Nessa altura, as necessidades de cuidados são também algo mais do que «aquilo que estamos a fazer». E neste ponto, realça, é a organização dos cuidados de saúde que está em causa. «Porque não é em contexto hospitalar de agudos, como tantas vezes acontece, que as necessidades destes doentes são devidamente respondidas».

Aqui deve falar-se em «manutenção e conforto». E nas competências exigidas aos profissionais de saúde que têm de acompanhar alguém que tem uma doença incurável e está no final da sua vida. «Trata-se de competências farmacológicas, éticas, espirituais, de decisão clínica», exemplifica Caldas de Almeida, enquanto Isabel Neto reforça: «E da obrigação que temos, enquanto sociedade, de repensarmos a organização dos cuidados de saúde em função do aumento das doenças crónicas e irreversíveis, das doenças demenciais e do facto de todos esses doentes precisarem de cuidados paliativos».

Os números apontados pela médica do Hospital da Luz não deixam margem para dúvidas: «Temos, em Portugal, mais de 200 mil pessoas a necessitar de cuidados paliativos (números que incluem as famílias dos doentes), dos quais 120 mil são pessoas com demência. Destes, 90 mil são doentes com Alzheimer», diz, continuando: «Dez a 20% dos doentes que estão em cuidados agudos deviam, antes, estar cuidados continuados e paliativos. Por outro lado, 80% dos cuidados prestados a esses doentes são feitos por cuidadores informais, os quais representam uma despesa, por cada doente, de 11 mil euros por ano. Isto significa que estes cuidadores são quase profissionais». E que se esgotam emocional e fisicamente demasiado depressa. «É isto que queremos, como sociedade?», pergunta Isabel Neto.

Espirito Santo Saúde, um exemplo de inovação

Quando se fala em inovação em Medicina, como acontece no congresso médico internacional Leaping Forward, a decorrer no Hospital da Luz, em Lisboa, parece estranho que se fale também de cuidados continuados e paliativos e de cuidados nas demências.

«Nada disso. É mais que justo dizer que há inovação também nesta área», afirma Isabel Neto. «Aqui, inovação é pensar a organização dos serviços de saúde em face da realidade que estivemos a descrever de uma forma completamente diferente – em termos de organização, de eficiência e de governação clínica. É pensar o sistema de saúde mais de acordo com as necessidades dos doentes crónicos e irreversíveis e menos em função dos interesses do próprio sistema». É, afinal, dar as respostas mais adequadas a esta nova realidade, «que teimamos em não querer enfrentar», confessa a médica.

É com este enquadramento que especialistas nacionais e estrangeiros vão debater a inovação em cuidados paliativos e nas demências no Hospital da Luz, no âmbito do congresso internacional médico Leaping Forward, organizado pela Espírito Santo Saúde (ESS).

O momento não podia ser mais atual para o fazer, dado o envelhecimento crescente da população portuguesa. E o local, o mais apropriado. Afinal, «é justo que o afirmemos: nós somos um exemplo nesta área», afirma Caldas de Almeida, explicando: «Na Espírito Santo Saúde, não nos focámos apenas em dar respostas à necessidade A ou à necessidade B. Decidimos organizar os nossos serviços de saúde de modo a dar uma resposta estruturada às necessidades das pessoas mais velhas, dos doentes crónicos e irreversíveis. Tenho de dizer que nós somos, nesta área, muito inovadores em Portugal».

O modelo de cuidados funciona de modo integrado, explica o diretor do Hospital do Mar. «Trata-se de uma resposta de eficiência, não havendo qualquer outro hospital em Portugal que tenha as suas respostas organizadas deste modo», confirma Isabel Neto. E, de facto, nas unidades da ESS é possível dar à pessoa idosa a resposta de que ela precisa, seja qual for a sua necessidade de cuidados de saúde - seja a urgência hospitalar (que tem capacidade para dar resposta a problemas de pessoas idosas), o internamento de agudos (que tem também competências específicas para esta população), o hospital geriátrico especializado e a residência sénior, agora com cuidados nas demências, também.

Deste exemplo de inovação, que é a Espírito Santo Saúde, vai também falar-se no Leaping Forward. «O objetivo é refletirmos sobre o modo como devemos preparar-nos para o futuro», diz Isabel Neto. E, nesta matéria, tal como em tantas outras, o futuro já começou aqui. G.R.

 

Special Report publicado no âmbito do Leaping Forward - Lisbon International Clinical Congress, que decorre no Hospital da Luz de 13 a 19 de fevereiro.