Memórias do Hospital da Luz

Memórias do Hospital da Luz

«Em meio hospitalar é muito fácil os doentes, precisamente pela sua condição, perderem o controlo sobre si próprios, que à luz da razão, da emoção e, para mim, também da fé, tem de ser nosso. O poder dos profissionais de saúde, o poder da instituição, é arrasador. Senti, contudo, que no hospital onde fui tratada, se procura esse difícil equilíbrio de poderes».

É nas suas «Memórias e outras histórias» - o livro que a activista católica e defensora dos direitos da mulher, Ana Vicente, lançou esta semana no Centro Cultural de Belém, em Lisboa – recorda a sua passagem pelo Hospital da Luz.

Relatando, de forma desassombrada, a forma como está a viver a sua doença, - «tal como milhares de portugueses, tenho uma doença oncológica, vulgo cancro», escreve -, Ana Vicente faz questão de afirmar que teve «ou continuo a ter, ainda, a ventura de ser tratada por excelentes profissionais». «Todo o pessoal faz um esforço para ouvir os doentes e seus familiares, com cordialidade e paciência, o que em situações de fragilidade tem uma importância extraordinária para o físico e o psíquico», acrescenta ainda.

Esta é, no entanto, uma pequena parte das muitas «Memórias» que Ana Vicente acabou de publicar. O livro, editado pelo Circulo de Leitores, relata, na primeira pessoa, a história desta militante católica desde os primeiros anos de vida, recordando, com pormenor e elegância, o trabalho político-religioso, profissional e voluntário da antiga presidente da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres, que é também autora de mais de 15 obras literárias. Filha de mãe inglesa e pai português, Ana Vicente é casada, mãe de dois filhos e avó de quatro netos.

Esta sua mais recente publicação não é, ao contrário do que poderia parecer, uma despedida. «Cheguei agora a uma fase da vida, repleta de boas e más memórias, com uma plêiade de expectativas no horizonte, desfrutando da autoconfiança trazida pela idade. Na certeza que chegou a altura de ser e de fazer apenas aquilo de que sou capaz», escreve na última páginas destas «Memórias».