À procura da auto-suficiência de órgãos

A procura da auto-suficiência de órgãos

Valter vive há oito anos com um rim que esteve, antes, no corpo de outra pessoa. No dia em que foi operado pelo cirurgião Rui Maio e recebeu este rim, deixando para trás dois anos de hemodiálise, outro doente, no mesmo hospital, recebeu também um rim. Estiveram ambos internados, quase lado a lado, durante quase três semanas, a recuperar da cirurgia. Por um acaso, um mero acaso, descobriram que os dois rins tinham vindo do mesmo dador – uma mulher vítima de um acidente rodoviário na Ponte 25 de Abril, em Lisboa.

«Ele recebeu o rim direito, eu o esquerdo. E desde então tratamo-nos como irmãos», diz Valter. Como se algo mais forte que uma mera coincidência os tivesse ligado para sempre, a partir daí.

Ambos eram, claro, insuficientes renais: a doença de Valter revelara-se dois anos antes, a do seu ‘irmão’ há mais tempo. «Foi tudo muito de repente», recorda. «Fui fazer exames de rotina ao médico de família porque estava com a tensão muito alta, apesar de ter só 25 anos». E, de um dia para o outro, foi internado, colocaram-lhe o cateter e iniciou imediatamente o tratamento de hemodiálise. «Fiquei meio nas nuvens, era tudo muito estranho e novo para mim. Nem conseguia bem pensar no que me estava a acontecer».

Durante dois anos foi obrigado a abrandar o ritmo de trabalho, a conter-se na alimentação, a mudar quase radicalmente de vida. «O que vale é que trabalhava na empresa do meu pai…», desabafa. Hoje, diz, já praticamente voltou ao que tinha antes de tudo isto acontecer. «Tenho de fazer uma medicação várias vezes ao dia e de três em três meses faço análises e vou ao médico», diz. «Mas de resto é como se não tivesse nada», afirma, com evidente satisfação.

A transplantação é, definitivamente, a terapêutica «salva-vidas» nas doenças que provocam falência de órgãos. «É uma terapêutica bem definida, bem estabelecida, sobre a qual não existem dúvidas quanto aos respetivos benefícios», confirma Rui Maio, cirurgião especialista em transplantação, diretor clínico do Hospital Beatriz Ângelo (o hospital público gerido em regime de parceria público-privada pela Espirito Santo Saúde) e diretor do simpósio «Transplantation and Regenerative Medicine Slot», no Leaping Forward – Lisbon International Clinic Congress do Hospital da Luz.

Valter é um dos muitos exemplos do que representam esses benefícios: tem melhor qualidade de vida, as suas perspetivas de sobreviver à sua doença são praticamente cem por cento e os custos associados à vigilância da sua saúde são incomparavelmente menores que aqueles que seriam precisos para tratar a sua insuficiência renal.

Mas poderia dizer-se que é também um caso de sorte. Foi transplantado quando, no nosso país, os números da colheita de órgãos em dadores cadáveres e o ritmo de transplantes nos hospitais públicos começavam a crescer a tal ponto que acabariam por colocar Portugal, poucos anos depois, no primeiro lugar da Europa em número de órgãos disponíveis e em segundo lugar no número de transplantes realizados.

Este sucesso sofreu, porém, recentemente um forte revés. De um ano para o outro, o nosso país desceu para 12º lugar nestes rankings, tendo-se, por isso, agravado as listas de doentes à espera de um órgão, por motivos que muitos explicam dever-se à crise que se vive em Portugal. «O problema da escassez de órgãos, que entre nós voltou a ganhar um significado importante, é o debate mais importante e atual em todo o mundo, quando se fala de transplantação. É por isso que esse é o pano de fundo, o fio condutor do nosso simpósio, no Leaping Forward», diz Rui Maio.

A questão da falta de órgãos explica-se de forma simples. Por um lado, refere o médico, «as doenças que provocam falência de órgãos têm uma prevalência muito maior, como é o caso da diabetes ou da hipertensão. Por outro lado, como a transplantação é uma terapêutica cada vez mais eficaz à custa dos avanços da Medicina, os critérios de aceitação de doentes na lista de espera para transplante são cada vez mais liberais. Ora, isto faz com que haja cada vez mais doentes a necessitar de um órgão, mas o número de órgãos disponíveis mantém-se constante. O ‘gap’ entre a procura e a oferta aumenta todos os anos e de forma exponencial. Para se ter uma ideia da situação, hoje morrem diariamente na Europa 12 pessoas por não terem sido transplantadas a tempo», conclui.

Medidas à escala planetária

E é previsível que algum dia consigamos atingir um ponto de equilíbrio?

A resposta é tudo menos óbvia. «Depende dos avanços da Medicina», responde o cirurgião. «Mas há medidas que podem ser tomadas já e que podem contribuir profundamente para irmos combatendo esse ‘gap’». Até porque já não se trata só de evitar que morram mais doentes à espera de um órgão. «Há outros problemas associados, como o comércio ilegal de órgãos, o turismo de transplantação, em que as pessoas vão dos países ricos para os mais pobres para serem transplantados e correndo muito riscos, uma exploração dos mais pobres pelos mais ricos, sempre através de processos pouco transparentes e às vezes clandestinos, em que os recetores correm grandes riscos, porque os dadores são menos selecionados, porque os move apenas o incentivo do dinheiro, por exemplo. As questões éticas e mesmo legais em torno deste problema são imensas e exigem medidas a uma escala, provavelmente, planetária», reforça Rui Maio.

A questão da escassez de órgãos tem por isso sido, diz o médico, o tema central do debate sobre transplantação em todo o Mundo. «Nos últimos anos, começou a falar-se de um novo conceito – a necessidade de os países serem auto-suficientes -, objetivo para que se deve caminhar, adianta ainda, prosseguindo diferentes estratégias.

«São essas alternativas que estão hoje em discussão mundialmente e que queremos também debater no Leaping Forward», diz Rui Maio.

Estratégias que passam, antes de mais, por intensificar as medidas de saúde pública que previnam as doenças que levam à falência de órgãos. Mas também por expandir os critérios de doação, considerando dadores aqueles que até agora não o eram por razões de idade, por exemplo, aproveitando mais e melhor os dadores de coração parado e aperfeiçoando as redes locais e regionais de alocação de órgãos. Por trabalhar de forma mais consistente o dador vivo. E, finalmente, por aumentar a sobrevivência dos órgãos transplantados, de modo a alargar o prazo de reentrada na lista de espera de um doente transplantado.

«Este é um debate absolutamente essencial em Portugal também. Por isso, trouxemos a Lisboa, ao Hospital da Luz, os especialistas que têm estado na frente destas propostas, como é o caso de Francis Delmonico, assim como outros que lideram projetos inovadores nesta área, com resultados muito positivos», refere Rui Maio, exemplificando: «Vamos conhecer o trabalho da Euro Transplante na Holanda e na Alemanha, por exemplo, que usa critérios inovadores de seleção de dadores».

Nada disto se faz, porém, adianta o médico, sem o contributo e o compromisso dos Governos e dos decisores políticos em políticas de saúde que permitam implementar estas estratégias. Por isso, no simpósio «Transplantation and Regenerative Medicine Slot» deste Leaping Forward, estará presente o secretário de Estado português da Saúde, Fernando Leal da Costa. «As medidas que foram tomadas recentemente acabarão por ter alguns resultados» na situação da transplantação em Portugal, admite Rui Maio. A verdade é que será ainda preciso fazer muito mais.

 

G.R. Special Report publicado no âmbito do Leaping Forward - Lisbon International Clinical Congress, que decorre no Hospital da Luz de 13 a 19 de fevereiro.