Morte súbita nos atletas: nem tudo é prevenível

Morte súbita nos atletas: nem tudo é prevenível

O rastreio de problemas cardíacos nos desportistas podem não detectar todos os problemas. Outros surgem por causa da intensidade da prática e outros ainda potenciados por substância dopantes. No fim, os colapsos em campo só evitam tragédias se existirem desfrilhadores.

O simpósio “Sudden death in athletes: one step beyond”, versou sobre a ‘morte súbita’ cardíaca no atleta, um tema muito mediatizado por envolver desportos de massas.

Martin Maron, director do Centro de Cardiomiopatia Hipertrófica do Tufts Medical Center, de Boston, defendeu que o electrocardiograma muitas vezes visto, nos EUA, como caro para os resultados obtidos.

Segudo o mesmo palestrante, não existem provas irrefutáveis de que o electrocardiograma diminui o número de casos e recordou falsos negativos, que levaram a episódios como o de jogador profissional Muamba – sofreu uma paragem cardíaca em campo (jogo do campeonato inglês) e só não morreu, por existir um desfibrilhador – ou os falsos positivos, que impedem atletas saudáveis de continuar a praticar desporto. “Nos EUA, se electrocardiograma fosse obrigatório no desporto, teria de abranger 75 milhões de crianças com menos de 18 anos”.

Esta posição foi, porém, rebatida por Domenico Corrado, professor associado de Medicina Cardiovascular e diretor da Unidade de Cardiomiopatia Arritmogénica Congénita do Departamento de Ciência Cardíaca, Torácica e Vascular da Universidade de Pádua, defende a obrigatoriedade do exame.

Para o italiano, o electrocardiograma é muito sensível para identificar casos, pois 2/3 das causas de morte súbita em jovens podem ser detetadas com o exame. No entanto, recordou, o milhão de atletas rastreados obrigou a um investimento de 36 milhões de euros, mas a proporção de casos de morte súbita em não atletas e atletas passou de 40 para quatro.

As substâncias ‘dopantes’ foram o tema da palestra do grego Asterios Deligiannis, director do laboratório de Medicina Desportiva de Salónica, pois a sua utilização pode acabar em morte súbita cardíaca, ao provocar modificações estruturais no músculo cardíaco, que potenciam o aparecimento de arritmias e hipertensão arterial. Este especialista afirmou ainda que o ‘doping’ genético pode estar prestes a surgir.

Ir longe demais

O cardiologista australiano Andre La Gerche falou sobre a capacidade do exercício físico poder levar ao aparecimento de cardiomiopatias ou arritmias cardíacas, dando o exemplo de um triatleta campeão do Mundo (1990), Greg Welch, que afirmou em 2006: "Talvez tenha puxado demasiado por mim..."

Luis Serratosa, ex-médico do departamento clínico do Real Madrid, discursou na mesma linha, numa palestra em que perguntava se demasiado exercício poderia ser prejudicial para a saúde. Exemplificou com os casos de atletas saudáveis e assintomáticos nos testes, que acabaram por morrer em campo e outros, com sintomas que fizeram grandes carreiras desportivas, sendo monitorizados com frequência. Concluiu ainda que os ex-atletas de alta competição apresentam menor propensão para problemas cardíacos, oncológicos, endócrinos, articulares e musculares, entre outros.

Mas os directores do simpósio, Pedro Granate, coordenador do Centro de Patologia Desportiva do Hospital da Luz e o professor Nuno Cardim, cardiologista do mesmo, quiseram trazer a perspectiva dos actores desportivos e trouxeram ao congresso dois protagonistas: Fernando Santos, selecionador da Grécia, e Nuno Gomes, ex-jogador do Benfica.

O técnico abordou a metodologia do treino, bem como a colaboração estreita com os departamentos médicos na vigilância e acompanhamento dos jogadores.

Por sua vez, Nuno Gomes, citou o caso do ex-colega Miklos Fehér, que faleceu em campo a 25 de Janeiro de 2004, durante um jogo e admitiu que, não só a morte do húngaro afectou o plantel, como lhe trouxe maior sensibilidade para o tema.