Mudar comportamentos para reduzir as infeções

Mudar comportamentos para reduzir as infeções

O controlo das infeções associadas aos cuidados de saúde e da prescrição e consumo dos antibióticos foi um dos principais temas debatidos no simpósio «Internal medicine - the power of faith in the age of wonder», do Leaping Forward.

 


«A mudança é necessária. Absolutamente necessária». As palavras de José Artur Paiva, no simpósio «Internal medicine – the power of faith and science in the age of wonder» do Leaping Forward, fizeram o consenso entre todos os presentes no Auditório 2 do Hospital da Luz.

O diretor do Programa Nacional de Prevenção e Controlo de Infeção e de Resistência Anti-microbiana apelava, assim, a todos os profissionais de saúde, perante uma plateia sobretudo dominada por médicos, para que assumissem este problema como uma prioridade e lhe dedicassem parte das suas horas de trabalho.

Afinal, a prevalência das infeções hospitalares nos hospitais portugueses tem vindo a piorar a cada ano que passa, continuando o nosso país num dos piores lugares do ranking europeu, denunciou José Artur Paiva. Mas não só. A prescrição e o consumo de antibióticos e, em consequência, as resistências a este tipo de medicamentos são «um problema grave entre nós, que também temos de combater», disse ainda.

A «mudança necessária» começa nos comportamentos dos próprios profissionais de saúde, disse, mas também no envolvimento das instituições de saúde, que devem participar ativamente nos sistemas de vigilância das infeções associadas aos cuidados de saúde e das resistências aos antibióticos, disse ainda. «Esse é um dos objetivos do nosso Programa Nacional até 2015», revelou.

A seguir, Carlos Palos, diretor da Urgência Geral do Hospital Beatriz Ângelo (o hospital público gerido em regime de parceria público-privado pela Espírito Santo Saúde) e presidente da comissão de infeção hospitalar do mesmo hospital, falou do sistema de registo para o uso adequado de antibióticos do HBA, que impede a prescrição destes medicamentos que não seja respeitado o protocolo do Hospital. E apresentou também o sistema de alerta de infeções existente nos registos de triagem da urgência do HBA, um modelo inovador de controlo destas patologias dentro do hospital.

Maria Mota, investigadora do Instituto de Medicina Molecular (IMM) da Faculdade de Medicina de Lisboa, esteve também neste simpósio do Leaping Forward para apresentar alguns dos dados da sua investigação sobre malária. Maria Mota, que foi recentemente premiada precisamente por causa das suas descobertas nesta área, lembrou que a malária mata três mil crianças por dia e mais de um milhão de adultos por ano. Todos os anos são infetados cerca de 400 milhões de pessoas em todo o mundo.

«Esta é uma doença limpa, transmite-se por mosquitos. Não é uma doença de pobres, mas causa pobreza porque compromete a capacidade produtiva dos adultos que sofrem da doença e compromete o futuro das crianças que são infetadas», disse.

Maria Mota explicou qual o sentido da sua investigação e falou das expectativas relativamente à descoberta de uma vacina que proteja contra a doença. «Vai ser aprovada uma, provavelmente daqui a um ano, mas tem apenas 30% de eficácia. Não acredito que apareça uma vacina verdadeiramente eficaz nos próximos dez anos», confessou.

A cientista Maria do Carmo Fonseca falou, depois, sobre como a ciência pode ajudar a medicina interna e João Sá, diretor da medicina interna e da unidade de cuidados intensivos do Hospital da Luz e diretor deste simpósio, referiu-se à mudança no papel do internista dentro do hospital.