Um bilhete de identidade para o cancro

Um bilhete de identidade para o cancro

Quais serão os tratamentos do cancro no futuro? No simpósio sobre Oncologia do Leaping Forward/Hospital da Luz, organizado pelo professor José Luis Passos Coelho, debate-se a epidemiologia do cancro, os tratamentos personalizados, a imunoterapia e o que se antecipa para o tratamento do cancro da mama, por exemplo. Mas no centro das atenções está uma linha de investigação em particular: a que usa o bilhete de identidade de cada cancro para tratar esta doença.

 

Imagine que cada uma das nossas células é uma fábrica, com diversas linhas de montagem. A célula está saudável quando estas linhas de montagem funcionam sem atritos. Mas se elas começam a ficar disfuncionais, então esse é um sinal de que a célula está doente. As células cancerosas são estas, as que têm algumas das suas linhas de montagem avariadas. E esta descrição de uma das doenças mais temíveis do mundo é tão recente que os investigadores e os médicos olham para ela como se estivessem diante da imensidão do universo.

«O tratamento médico, farmacológico, do cancro é muito recente. O primeiro medicamento de quimioterapia foi descoberto a seguir à II Grande Guerra, quando não havia ainda oncologia médica e se sabia muito pouco sobre o cancro. E as primeiras associações terapêuticas são da década de 60 e 70. Desde então, como é conhecido, avançámos imenso. E hoje sabemos muito mais. Estamos, aliás, numa fase do conhecimento do cancro que nos abre, todos os dias, cada vez mais possibilidades de tratamento», diz José Luis Passos Coelho, coordenador do Centro de Oncologia do Hospital da Luz e professor de Oncologia Médica na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.

«Ora, esta abordagem do cancro, que nos fala das ‘linhas de montagem’ das células, é uma das mais recentes linhas da investigação do tratamento desta patologia. Ela diz-nos que não é propriamente o órgão A ou B que está doente – e, por isso, o tratamento não deve ser para o cancro da mama ou para o cancro do pulmão -, mas, antes, que o tratamento deve ser dirigido às ‘linhas de montagem’ das células dos tumores da pessoa A ou da pessoa B que estão bloqueadas, avariadas ou a funcionar mal, de modo a torná-las funcionais novamente», explica o médico.

Este é, segundo Passos Coelho, um dos avanços mais significativos da investigação desta patologia: «Para determinar o tratamento do cancro de cada pessoa, o que se procura é identificar quais as ‘linhas de montagem’ que estão avariadas nas células desse tumor concreto. É como se procurássemos definir o bilhete de identidade do tumor, a sua impressão digital. E isso é algo que hoje, com as técnicas laboratoriais moleculares e genéticas, conseguimos obter com maior rapidez e facilidade. E com custos cada vez mais baixos», realça, acrescentando: «Por isso, já estamos a antecipar algo de novo, na forma como encaramos esta doença: é que, com esse bilhete de identidade de cada tumor, vamos deixar de tratar o cancro da mama ou o cancro do ovário; vamos, antes, tratar um cancro que tem determinadas vias avariadas».

A verdade é que esta nova abordagem do tratamento do cancro abre um mundo quase infinito de possibilidades e combinações terapêuticas. «De facto, o que percebemos com isto é que pode haver vias ou linhas de montagem avariadas nas células de um determinado tumor de um órgão que sejam comuns a outros tipos de tumores de outros órgãos. Percebemos também que vamos ter duas pessoas com cancro de mama, que até aqui tratávamos da mesma forma, a serem medicadas com fármacos diferentes, porque uma tem alterações das vias A, B e C e a outra das vias E, F e G», adianta o médico. «Teremos, afinal, 50, 60, 100 cocktails terapêuticos diferentes. E esse é outros dos grandes desafios desta descoberta».

Uma prioridade para o Hospital da Luz

Passos Coelho não esconde, porém, que esta é também uma das grandes dificuldades desta abordagem do tratamento do cancro. «Porque tornará os estudos clínicos mais difíceis de fazer», explica. «Será que vai ser possível continuarmos a reunir grandes grupos de doentes com o mesmo bilhete de identidade de célula tumoral, para fazermos ensaios clínicos de medicamentos que nos dêem resultados confiáveis? Talvez não», admite, acrescentando: «Esses estudos terão dez, 15, 20 doentes cada. Precisamente porque a variabilidade vai ser tão grande e as associações terapêuticas tão específicas, que, no final, teremos de aceitar que o número de doentes que estarão a ser tratados de forma exatamente igual será sempre muito pequeno».

Numa abordagem de tratamento destas, é inevitável que passará a ser rotina o estudo genético dos doentes oncológicos. «É para aí que se caminha», confirma o oncologista do Hospital da Luz. Mas esse estudo só será feito quando a doença se manifesta, ou seja, «só se faz o bilhete de identidade do tumor quando ele aparece. E a tecnologia evoluiu de tal maneira que, dentro de muito pouco tempo, será possível fazer a sequência exata do código genético de cada tumor em apenas alguns dias e por um preço perfeitamente acessível».

A única exceção terá de ser a dos casos de predisposição familiar para determinado tipo de cancro. «Nesses casos, ao estudar as células normais dos membros da família, poderemos perceber se são ou não doentes de risco. Isto porque as células do cancro partilham algumas alterações que o resto das células têm e que facilitam o aparecimento do tumor», explica Passos Coelho, reforçando: «Na maioria dos casos de cancro não é isso que se passa. As células são normais até o cancro surgir. E o que acontece nas células do cancro é que acumularam uma série de erros que fazem com que fiquem, a certa altura, diferentes das restantes. Ou seja, na maioria dos casos, estudar as células normais não nos vai levar a parte nenhuma», conclui.

O oncologista não esconde o entusiasmo em relação a esta abordagem do tratamento do cancro e «ao manancial de informação» que ela pode transmitir à investigação da patologia e às opções terapêuticas. Por isso, é um dos temas obrigatórios no debate que traz a Lisboa, no âmbito do Leaping Forward – International Clinic Congress do Hospital da Luz, um conjunto de especialistas nas várias áreas da Oncologia.

«A verdade é que, como já expliquei, o conhecimento que hoje temos desta doença tem-nos feito estudar diversas maneiras de tratar o cancro. Há várias estratégias a ser estudadas e testadas. E já há fármacos para todas. As hipóteses terapêuticas já são imensas. E é de tudo isso que vamos falar no Leaping Forward», afirma Passos Coelho, explicando: «Tradicionalmente, as reuniões científicas em Oncologia, ainda que falem do futuro, dão maior importância aos resultados dos estudos mais recentes, à informação sobre o que está a fazer-se no momento. No Leaping Forward, queremos algo diferente: queremos olhar mais para o futuro, queremos antecipar o que vai acontecer, quer em termos epidemiológicos, quer em termos de estratégias e armas de tratamento, ou seja, queremos perceber quais serão os tratamentos do futuro com base no que estamos agora a aprender sobre a doença».

«Este é um compromisso da própria organização responsável por este congresso internacional – a Espirito Santo Saúde», termina José Luis Passos Coelho, acrescentando: «A Oncologia é, pois, uma área prioritária para nós, aqui no Hospital da Luz. Uma área que faz parte do nosso presente e, claramente, do nosso futuro». G.R.

 

Special Report publicado no âmbito do Leaping Forward - Lisbon International Clinical Congress, que decorre no Hospital da Luz de 13 a 19 de fevereiro.