Coordenadora do Centro de Cefaleias leva experiência de Portugal ao Parlamento Europeu

Raquel Gil-Gouveia, médica neurologista e coordenadora do Centro de Cefaleias do Hospital da Luz Lisboa, foi uma das oradoras convidadas numa conferência sobre esta doença realizada no Parlamento Europeu a 24 de janeiro. ‘Making visible the invisible on headache pain’ foi o mote da sessão, cuja organização foi promovida pela eurodeputada portuguesa Sofia Ribeiro, na sequência de solicitações de associações de doentes que têm alertado para a necessidade de as cefaleias passarem a ser uma das prioridades em termos de políticas públicas de saúde. 

As cefaleias (ou dores de cabeça) afetam cerca de 13% da população mundial e estão classificadas pela Organização Mundial de Saúde como a principal causa de incapacidade neurológica. Apesar de causar elevado absentismo, sobretudo laboral e escolar, com enormes custos económicos, é uma doença que tende a ser desvalorizada pela sociedade e que se sabe estar subdiagnosticada. «A maioria dos países nem sequer inclui as cefaleias nos seus relatórios de saúde», como salientou Raquel Gil-Gouveia (a terceira a contar da esquerda, na foto em cima). 

Membro da Comissão Científica da Sociedade Portuguesa de Cefaleias, a médica neurologista do Hospital da Luz participou no painel de discussão dedicado às experiências de sucesso em cuidados prestados nesta área em diversos países da Europa. Maria Teresa Flor de Lima (médica anestesiologista e fundadora da Associação dos Doentes de Dor crónica dos Açores), Elena Ruiz Barreda (presidente da Aliança Europeia de Cefaleias), Koen Paemeleire (Federação Europeia de Cefaleias) e Cristina Tassorelli (professora de Neurologia na Universidade de Pavia, Itália) foram outros oradores convidados.

A experiência no setor público e no privado

Focando-se na realidade portuguesa – em que a estimativa de doentes é de um milhão –, Raquel Gil-Gouveia afirmou que o país tem um bom rácio de neurologistas (4,5 por 100 mil habitantes), mas o Serviço Nacional de Saúde continua sem uma estratégia para esta área. E, tal como noutros países europeus, «a falta de formação na abordagem específica das cefaleias é o principal problema identificado pelos neurologistas», sendo que a Sociedade Portuguesa de Cefaleias tenta colmatar esta falha com a organização regular de cursos, congressos e bolsas de investigação.

Apesar de tudo, 17 hospitais, nos grandes centros populacionais, disponibilizam consultas de cefaleias – sendo inclusive desenvolvida atividade de investigação nos que estão ligados a universidades, como Coimbra, Porto e Lisboa (em que a consulta de cefaleias do Hospital de Santa Maria celebra este ano 40 anos). Outro aspeto positivo é o de não haver restrições à prescrição de medicamentos, cujo preço é em grande parte comparticipado pelo Estado. 

Raquel Gil-Gouveia reportou depois a experiência do Hospital da Luz Lisboa, que em 2012 criou o Centro de Cefaleias: «O aspeto positivo é que aqui é mais fácil implementar a mais adequada abordagem para o problema das cefaleias, que é através de uma equipa multidisciplinar que inclui desde o início médicos de família, fisioterapeutas, psiquiatras, ginecologistas, dentistas, e enfermeiros, permitindo uma articulação de cuidados». Desde finais de 2016, também, os doentes de cefaleias têm acesso ao Centro Clínico Digital do Hospital da Luz (dedicado à vigilância e acompanhamento das doenças crónicas): através de teleconsultas e da possibilidade de registo digital das crises de cefaleias e outros dados associados, os doentes beneficiam de um acompanhamento mais estreito por parte do seu médico neurologista.