André Casado, intensivista do Hospital da Luz, explica na SIC os ‘bebés-milagre’

O caso da jovem que deu à luz em morte cerebral no Centro Hospitalar Universitário São João, no Porto, na última semana de março, foi o pretexto da conversa no Programa da Cristina, na SIC, para que foi convidado o internista e especialista em Medicina Intensiva do Hospital da Luz Lisboa, André Casado.

O médico explicou ao público do Programa de Cristina Ferreira que «a evolução científica e técnica dos últimos 60 anos permitiu aos médicos reconhecer a morte cerebral como ‘a morte do cérebro’, ou seja, como a perda total da função do cérebro, e em simultâneo deu-nos as condições para sustentar os restantes órgãos de modo a manter o equilíbrio do organismo». 

A apresentadora tinha questionado André Casado sobre como é que se conseguia «manter um bebé dentro da barriga de uma mãe morta», tendo o especialista explicado que estes são casos raros, sobre os quais ainda há pouco conhecimento e experiência a nível mundial e para os quais se pretendem criar as condições técnicas que permitam ao organismo continuar a cumprir as suas funções básicas e em equilíbrio, «sem esse grande maestro do nosso corpo que é o cérebro».

Cristina Ferreira perguntou ainda de quem era a decisão de «manter a gravidez, quando estas situações acontecem». «Antes de mais, há uma componente da decisão que é clínica: se consideramos que há viabilidade do feto nas circunstâncias em que a mãe, a gestante, se encontra, mesmo estando ela em morte cerebral propomos sempre à família que a gravidez possa prosseguir. É lógico e desejável que se faça assim», respondeu, acrescentando: «Mas não há propriamente leis nem orientações éticas especificas para estes casos, como acontece na colheita de órgãos em pessoas em morte cerebral».

Seja como for, acrescentou André Casado, estando tomada a decisão de avançar com a gravidez, «nestas situações, vale tudo o que possa ser benéfico do ponto de vista intrauterina do feto», a propósito da relação de proximidade estabelecida com a equipa que acompanhou a jovem durante o período em que esteve internada no Hospital. 

Por outro lado, «numa equipa que envolve muitos profissionais de saúde e a própria família, há aqui uma dinâmica emocional muito complexa. Há dias de grande tristeza porque estamos a lidar com um cadáver. O próprio dia do nascimento é também um misto de tristeza e alegria. E o desafio agora continua, mas de outra forma». O bebé nasceu prematuro e terá ainda de ser acompanhado com a mesma exigência que foi necessária durante a gestação.

Salvador foi o nome escolhido pela família da jovem de 26 anos, que há três meses deu entrada no Centro Hospitalar Universitário São João, do Porto, com um ataque de asma fatal. A jovem, que estava grávida apenas de 12 semanas, ficou em morte cerebral, tendo o desenvolvimento do feto sido acompanhado nos cuidados intensivos daquele hospital por uma equipa multidisciplinar. A morte da jovem foi declarada apenas depois de o Salvador nascer. Com apenas 24 semanas, o bebé vai continuar internado no Serviço de Neonatologia do Centro Hospitalar Universitário São João.

 

Veja a entrevista de André Casado no Programa de Cristina Ferreira aqui