‘Um financiamento correto é a chave para termos melhor saúde’

Financiamento correto para melhor saúde

A procura de cuidados de saúde vai continuar a aumentar nos próximos anos e «um financiamento correto é a chave» para melhorar a gestão dos recursos e obterem-se melhores resultados para os doentes, defendeu Isabel Vaz durante um debate sobre o futuro do setor, transmitido ontem pela RTP3.

A CEO da Luz Saúde foi convidada do programa Fronteiras XXI, organizado pela RTP em parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos, juntamente com Francisco George (ex-diretor-geral de Saúde e atual presidente da Cruz Vermelha), Rui Vaz (diretor do Serviço de Neurocirurgia do Hospital de S. João, no Porto) e Tânia Bonifácio (especialista em Medicina Geral e Familiar e médica na Unidade de Saúde Familiar da Baixa, em Lisboa). 

‘Quem nos trata da Saúde?’ foi o mote para um debate de cerca de uma hora e meia, em que foram discutidos temas como a sustentabilidade financeira do Serviço Nacional de Saúde (SNS), organização, recursos humanos e políticas de saúde.

«O problema da sustentabilidade coloca-se hoje em todos os países com Estado social. Em Portugal, apesar de tanto o SNS como o setor privado produzirem cada vez mais, a procura é tão maior que a capacidade instalada não chega e, obviamente, os custos aumentam. Por outro lado, o envelhecimento e os estilos de vida não ajudam: os doentes são mais complexos e têm mais doenças simultaneamente, o que coloca uma enorme pressão sobre a prestação de cuidados», explicou Isabel Vaz.

Questionada sobre se é mais fácil a gestão no setor privado do que no setor público, a CEO da Luz Saúde salientou que o ponto-chave é a forma como se financia. «Há um consenso generalizado, da esquerda à direita, de que há algum subfinanciamento do SNS, que vai sendo gerido. Ou seja, na realidade, não é bem subfinanciamento do setor público porque em algum momento as verbas aparecem, o que gera uma certa desresponsabilização do ponto de vista dos gestores hospitalares, que sabem que estão a gerir com orçamentos impossíveis», disse, acrescentando: «Isto é, desde logo, desmotivador. Mas eles também sabem que em algum momento o dinheiro vai ter de aparecer – e isto, na minha opinião, é uma forma errada de gerir, que não se verifica nos privados». 

«Espera-se um aumento brutal da procura de cuidados de saúde e, seguramente, um financiamento correto é a chave para promover melhores comportamentos e resultados», afirmou ainda. 

Quanto às negociações que ainda decorrem sobre a revisão das tabelas da ADSE para comparticipação de cuidados prestados pelo setor privado aos funcionários públicos, a CEO da Luz Saúde salientou que o problema, na sua opinião, é saber «se a forma como pagamos esses serviços é eficaz ou não, no sentido de incentivar melhores resultados na perspetiva dos doentes».

«A rede privada tem hoje igual capacidade de atender qualquer estado de gravidade e com a melhor tecnologia» referiu ainda Isabel Vaz, defendendo que, no futuro, «a medição dos resultados que se obtêm serão fundamentais». E deu como exemplo os registos nacionais (como o das doenças oncológicas), que considerou «fundamentais para todos aprendermos e sabermos onde estão as melhores práticas».

‘Portugal na linha da frente’

Já Francisco George fez questão de salientar que «a saúde dos portugueses melhorou muito ao longo dos últimos 25 anos». «Há a ideia de que no SNS não temos saída e não é verdade, Portugal está na linha da frente», afirmou, dando exemplos: «Tivemos uma recuperação de 25% naquilo que se refere à mortalidade prematura e há cada vez há mais portugueses que festejam 70 anos». O ex-diretor-geral de Saúde reconheceu que «há problemas de gestão e tem de se melhorar a qualidade da formação dos gestores», mas defendeu que «o futuro está assegurado»: «Enquanto houver Estado, teremos SNS. Este tem é de ser afinado. Com o setor privado como complementar e com atividade importante, mas que não pode de forma alguma colocar o SNS como um serviço para os pobres. As vocações são distintas».

Já na opinião de Rui Vaz, «mais do que o subfinanciamento, os pontos-chave são a falta de autonomia» das unidades do SNS (que as impede de contratar diretamente para suprir carências de recursos, por exemplo) e «a responsabilização dos gestores na despesa». Mas concordou que «o nosso SNS, com os defeitos que tem, é bom e é uma referência, dando segurança às pessoas». Entre as vantagens do SNS, o diretor do Serviço de Neurocirurgia do Hospital de S. João deu como exemplo a criação dos centros de referência e, entre os «defeitos», «o atraso no financiamento da inovação tecnológica, que tem feito com que os privados vão à frente dos públicos» em várias áreas, como é o caso da robótica

A médica Tânia Bonifácio reclamou que se olhe de forma prioritária para os cuidados de saúde primários, que «são a base de tudo»: «Temos de começar a planear a médio e longo prazo, ao nível de temas como o tabaco, a alimentação, o sedentarismo e perturbações do sono», em vez de se olhar «só para as urgências e os serviços lotados».