Sobrinho Simões abre Congresso de Oncologia do Hospital da Luz

“Este é o maior erro do Século: como conseguimos descodificar o genoma humano, pensamos que vamos resolver tudo e encontrar a solução para o cancro. Errado! Deixem os genes em paz e nunca esqueçam os doentes”. O aviso é de Manuel Sobrinho Simões, fundador e diretor do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular e Celular da Universidade do Porto (IPATIMUP), e foi feito hoje na cerimónia de abertura do Congresso Internacional de Oncologia - Hospital da Luz Leaping Forward.

Considerado o patologista mais influente do mundo, Sobrinho Simões fez uma intervenção sobre ‘Diagnóstico e tratamento em oncologia: à procura da conciliação entre medicina narrativa e de precisão’. Começou por dar a sua “definição” de célula tumoral”, prevenindo que “é controversa”: “Altamente organizada, eficaz e um clone invasivo dos nossos próprios tecidos”. Explicou depois como geneticamente as células tumorais nascem e progridem, invadindo os tecidos e revelando neste processo “um funcionamento complexo, muito semelhante ao do ser humano”: “As células tumorais precisam de progredir, sair do seu local primitivo, para sobreviverem. Começa aí o processo de invasão e de metastização”, razão pela qual é tão difícil tratar e eliminar o cancro.

O cientista analisou a evolução e as relações entre medicina baseada na experiência, medicina personalizada e medicina de precisão. E foi aí que apontou o erro aos que pensam que tudo ficou resolvido depois da descodificação do genoma humano, residindo neste ponto “o falhanço da chamada medicina de precisão”: “É impossível concluir que um gene, dois ou 100 mil são os invasores. Podemos dizer que, ‘se’ estes genes estiverem alterados, é muito provável que a invasão seja desencadeada a partir deles. De resto, é preciso depois integrar os dados moleculares no contexto clínico-laboratorial. Por isso, eu digo: quando estamos a tratar um doente, temos de ter em conta as características específicas desse doente e não apenas a média dos 100 mil doentes em condições semelhantes às dele”.

Um compromisso do Hospital da Luz com a medicina moderna

Sobrinho Simões elogiou o programa do Leapping Forward Oncology, que se iniciou hoje no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e decorre até ao próximo sábado. É o maior congresso médico-científico sobre oncologia realizado até hoje em Portugal, com a participação de 140 especialistas estrangeiros e 40 nacionais que vão apresentar e discutir as mais recentes descobertas e técnicas para o tratamento das diferentes doenças oncológicas, que são a segunda causa de morte em Portugal.

Coube a José Luís Passos Coelho, coordenador dos centros de Oncologia do Hospital da Luz e do Hospital Beatriz Ângelo e diretor do Leaping Forward Oncology, dar as boas-vindas aos participantes, na cerimónia de abertura: “Este é o terceiro congresso organizado pelo Hospital da Luz Lisboa e será apenas sobre doenças do cancro. O desafio de realizar um congresso apenas sobre oncologia tem que ver com três aspetos: a incidência cada vez maior do cancro, o compromisso desta instituição com a busca dos melhores e mais modernos tratamentos e o impacto social da doença. É um programa ambicioso”.

Isabel Vaz, CEO da Luz Saúde, agradeceu a presença de todos os oradores e participantes e salientou que as questões que vão tratar são “muito desafiantes”. “Investigação e tecnologia estão no ADN do Hospital da Luz”, concluiu.

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