12 de abril de 2023 Autor : António Setúbal O que é a adenomiose uterina? A adenomiose uterina é uma forma de endometriose . Em todas as formas de endometriose, desenvolve-se tecido do endométrio ectópico, ou seja, fora da sua localização normal. Na adenomiose, o endométrio, que é a camada de revestimento interno da parede do útero, invade a camada intermédia muscular dessa parede; Nas restantes formas de endometriose, há desenvolvimento de endométrio extra-uterino, ou seja, fora do útero, em órgãos do aparelho reprodutor ou não, por exemplo, ovários, ureteres, intestino, entre outros. Quando está fora da sua localização normal, seja intra ou extra-uterina, o endométrio continua a ter as mesmas alterações associadas ao ciclo menstrual. (A menstruação é a eliminação vaginal da descamação do endométrio acompanhada de hemorragia.) Adenomioma, adenomiose e endometriose As primeiras referências a lesões da parede do útero contendo tecido ectópico foram feitas por Rokitansky no final da primeira metade do século XIX, a que se seguiu a atividade de investigação nesta área com publicações relevantes de muitos autores. Cerca de três décadas depois começou a ser usado o termo ‘ adenomioma ’ para referir lesões que incluíam tecido epitelial (como é o do endométrio) fora da sua localização normal , havendo já várias hipóteses para justificar a sua ocorrência, por exemplo menstruação retrógrada, disseminação de células por via sanguínea ou linfática e desenvolvimento de resíduos embrionários. Em 1920 já era conhecido que nas lesões com tecido epitelial ectópico este era endométrio. A partir dos anos seguintes passaram a ser usados os termos ‘ adenomiose ’ e ‘ endometriose ’ para distinguir a presença de endométrio ectópico dentro do útero ou fora deste, respetivamente . Sintomas e complicações da adenomiose Estima-se que mais de 40% das mulheres possam ter adenomiose, que, dependendo da gravidade pode ou não provocar sintomas. Os sintomas habituais de adenomiose são: Menstruações abundantes; Dores menstruais fortes (dismenorreia); Dor a defecar (disquesia); Dor a urinar (disúria); Anemia; Infertilidade / subfertilidade, espontânea ou por técnicas de procriação medicamente assistida (PMA) (41% a 50%); Dor pélvica crónica e durante as relações sexuais (dispareunia) podem também estar associadas a adenomiose. Entre as complicações possíveis da endometriose estão: Abortos precoces; Parto prematuro; Rutura prematura de membranas; Hemorragia durante o parto. A adenomiose é mais comum nas mulheres com 40-50 anos de idade e que já tiveram filhos, mas há cada vez mais casos reportados entre as jovens e adolescestes Diagnóstico e tratamento da adenomiose Perante queixas sugestivas de adenomiose, podem ser necessários exames de imagem (habitualmente ecografia e/ou ressonância magnética), além de um exame médico detalhado e da avaliação da história, para excluir outras causas e decidir qual é o melhor tratamento para cada mulher. A única forma de eliminar definitivamente a adenomiose é fazer uma histerectomia , ou seja, remover o útero cirurgicamente, o que induz menopausa e impossibilita uma gravidez. Por isso, a abordagem de tratamento a adotar depende dos sintomas e da sua gravidade, da idade, do desejo da mulher de vir a engravidar e de outras particularidades de cada caso , com os objetivos de: Reduzir o volume de sangue perdido nas menstruações; Aliviar a dor; Eliminar ou aliviar outros sintomas que possam estar relacionados com a doença. O tratamento da adenomiose pode envolver : Terapêutica médica , analgésica (para a dor) e hormonal com contracetivos orais ou em dispositivo intrauterino (DIU); Nos casos mais graves e quando não há desejo de ter mais filhos, pode ser considerada uma histerectomia (remoção cirúrgica do útero); A embolização da artéria uterina (que diminui a vascularização do útero) é outra opção que pode ser considerada quando já não se pretende engravidar, há contraindicações para uma histerectomia ou o tratamento hormonal não tem os resultados pretendidos; A cirurgia conservadora (tipo plastia do útero) é a opção em casos de persistência de sintomas, falhas das técnicas de PMA, em mulheres que pretendam engravidar. São cirurgias complexas, a maioria descritas pela escola japonesa, com melhoria de todos sintomas e aumento da probabilidade de gravidez. Fontes Habiba A. Lippi D, Benagiano G. The history of the discovery of ectopic epithelial cells in lower peritoneal organs: the so-called mucosal invasion. Reprod Med 2021;2:68-84 Stewart EA. Uterine adenomyosis. www.uptodate.com. Conheça a equipa clínica de ginecologia-obstetrícia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.