Atualização | 31 de março de 2020 O que é a alergia alimentar? A alergia alimentar é uma reação exagerada do sistema imunitário contra proteínas dos alimentos . Esta reação alérgica alimentar pode acontecer na sequência da exposição ao alimento por diferentes vias: Ingestão, Contacto com a pele ou mucosas, Vapores da confeção culinária dos alimentos. Como acontece a alergia alimentar? A alergia alimentar pode envolver diferentes mecanismos imunológicos, o que determina apresentações bastante diferentes. Alergia alimentar mediada por imunoglobulina (Ig) E ou IgE-mediada Esta é a forma mais comum, que resulta da produção de anticorpos de tipo IgE contra o alimento. A reação é imediata , os sintomas surgem nos primeiros 30 minutos ou até 2 horas após o contacto com o alimento, e pode ser muito grave, até mesmo fatal, mesmo para quantidades mínimas do alimento. Alergia alimentar não IgE-mediada Estão envolvidos outros mecanismos imunológicos, células ou outros anticorpos. Trata-se geralmente de uma reação tardia , com início mais de 2 horas após a ingestão do alimento, o que pode dificultar a suspeita diagnóstica. Quais são os sintomas de alergia alimentar? Os sintomas de alergia alimentar podem envolver vários órgãos ou sistemas corporais. Pele e mucosas Independentemente dos alergénios envolvidos, os sintomas mais frequentes envolvem a pele e/ou mucosas, e incluem urticária, angioedema, prurido (comichão) orofaríngeo / síndrome de alergia oral, edema da glote. Urticária e angioedema: caracteriza-se pelo aparecimento de lesões cutâneas avermelhadas e pruriginosas (que provocam comichão) e às quais se associa frequentemente o angioedema (inchaço), quando são atingidas camadas mais profundas da pele ou mucosas. O angioedema envolve frequentemente as pálpebras, os lábios, mucosas e extremidades, sendo a resolução mais lenta comparativamente à da urticária. Síndrome de alergia oral: É caracterizada por edema (inchaço), prurido e/ou formigueiro dos lábios, língua, orofaringe ou toda a cavidade oral e surge quando o alimento, habitualmente um alimento vegetal, contacta com a mucosa oral. Aparelho digestivo As reações alérgicas podem também envolver o aparelho digestivo, com vómitos, diarreia, cólica abdominal. Aparelho respiratório e cardiovascular Os sintomas de alergia podem ainda envolver o aparelho respiratório - rinite, tosse, pieira e dificuldade respiratória - e/ou o aparelho cardiovascular - taquicardia, hipotensão, lipotímia. • Anafilaxia A anafilaxia é a forma mais grave de uma reação alérgica. Caracteriza-se pela ocorrência de sintomas que envolvem dois ou mais órgãos ou sistemas . Habitualmente esta reação sistémica desenvolve-se rapidamente após exposição ao alergénio e coloca em risco a vida do doente quando não é tratada de forma imediata e adequada. As reações alérgicas tardias (ou seja, não IgE-mediados e/ou mistos) podem traduzir-se por vómitos, eczema, sangue nas fezes, diarreia com muco, episódios de impacto alimentar ou atraso de crescimento. Quais são os alimentos envolvidos na alergia alimentar? Qualquer alimento poderá desencadear alergia alimentar . No entanto, o alimento implicado varia com a idade dos doentes e os hábitos alimentares de cada família, que estão muito relacionados com o país onde se vive. Tal como na generalidade dos países desenvolvidos, em Portugal, as alergias alimentares são cada vez mais frequentes e graves , com especial incidência na idade pediátrica. Rastreios nacionais revelam que a alergia alimentar afeta 5%-10% das crianças , com predomínio das alergias ao leite de vaca e ao ovo . São também frequentes as alergias alimentares a: Trigo, Peixe, Mariscos (crustáceos e moluscos), Frutos secos, sementes, amendoim, Leguminosas, Frutos frescos, Alguns legumes. A gravidade das reações alérgicas alimentares está muitas vezes associada ao alimento implicado. Por outro lado, o mesmo alimento pode conter uma grande variedade de alergénios e a gravidade das reações pode variar consoante o tipo de alergénios a que estamos sensibilizados. O que é a intolerância alimentar? A intolerância alimentar também é a uma reação exagerada do organismo a um determinado alimento, mas não resulta de mecanismos imunológicos . A intolerância alimentar está relacionada, por exemplo, com a digestão ou transformação dos alimentos no organismo. Uma das intolerâncias alimentares mais comuns é a intolerância à lactose , que ocorre em indivíduos com défice parcial ou total de lactase (a enzima que digere a lactose). A composição química do alimento, no que respeita por exemplo ao teor de salicilatos ou aminas também pode gerar reação em indivíduos mais sensíveis. Geralmente as reações de intolerância alimentar são dose-dependente s e não têm um mau prognóstico embora possam ter um impacto negativo significativo na qualidade de vida do indivíduo. Na intolerância alimentar é habitual estarem presentes: Queixas digestivas, como distensão abdominal, flatulência, cólon irritável, dor abdominal recorrente; Cefaleias; Dores nas articulações; Fadiga e mal-estar geral. Como é feito o diagnóstico de alergia alimentar e intolerância alimentar? Se suspeita ser alérgico ou intolerante a um determinado alimento deve consultar um médico especialista em imunoalergologi a. O diagnóstico da alergia alimentar baseia-se antes de tudo numa boa história clínica . Os exames complementares de diagnóstico estarão indicados de acordo com o tipo de alergia que se suspeita que esteja envolvida e podem ser: Testes cutâneos, Análises sanguíneas, Exames endoscópicos (no caso das doenças alérgicas do aparelho digestivo), Prova de provocação oral alimentar para identificar qual o alimento implicado. A abordagem diagnóstica da intolerância alimentar deverá passar por um processo faseado de "tentativa e erro". Como se tratam a alergia alimentar e a intolerância alimentar? Após a confirmação de alergia ou intolerância alimentar, torna-se necessário, em qualquer dos casos, excluir o alimento da dieta alimentar ( evicção alimentar ). Esta tarefa nem sempre é fácil. Obriga a ler atentamente os rótulos de produtos alimentares pré-preparados, no sentido de identificar potenciais alergénios ocultos. Torna-se também importante evitar défices nutricionai s que possam acontecer devido à exclusão do alimento em causa. É fundamental programar o tratamento de eventuais reações alérgicas acidentais por exposição inadvertida ao alimento. Nos quadros graves de anafilaxia, o doente e, no caso da criança, a sua família, devem ter disponíveis dispositivos para auto-administração de adrenalina . A escola / infantário deve estar na posse de informação detalhada sobre a situação clínica da criança e o tratamento de urgência deverá estar disponível. Surgiram mais recentemente estratégias terapêuticas inovadoras, de que é exemplo a indução de tolerância ou dessensibilização alimentar oral , um procedimento a ser criteriosamente utilizado, sempre com a supervisão de imunoalergologistas experientes, em centros especializados. Os autores deste texto são os seguintes médicos imunoalergologistas da rede Hospital da Luz: Luís Miguel Borrego, Ana Morais Mendes, Ana Reis Ferreira, Andreia Ferrão, Carlos Braga, Cristina Lopes, Diana Pereira da Silva, Filipa Semedo, Isabel Costa Silva, João Gaspar Marques, Pedro Carreiro Martins, Marta Salgado, Nuno Sousa, Rosa Anita Fernandes, Susana Piedade Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.