21 de agosto de 2023 Autor : José Ferreira Santos É cada vez mais comum nas consultas médicas ser posta a questão sobre a necessidade ou os benefícios de tomar aspirina para prevenir um enfarte ou outro evento cardiovascular. A resposta nem sempre é simples, há multiplos fatores a considerar, por exemplo: A história de doença cardiovascular, a história geral de saúde, os antecedentes familiares e outras características individuais de cada pessoa; Medicamentos alternativos e mecanismos de ação respetivos; Recomendações internacionais, baseadas no conhecimento científico e na história de utilização. O nome Aspirina Aspirina é a designação comercial (ou marca) que a farmacêutica Bayer deu , no final do século XIX, ao seu medicamento contendo ácido acetilsalicílico como ingrediente ativo. O ácido acetilsalicílico foi descoberto em 1853; Alguns anos depois, começou a ser comercializado pela Bayer o medicamento com o nome de Aspirina, para controlo da dor (efeito analgésico) e da inflamação (efeito anti-inflamatório). A grande popularidade que a Aspirina alcançou fez com que o nome da marca passasse a ser usado de uma forma generalizada para referir medicamentos com ácido acetilsalicílico, mesmo quando já existiam medicamentos contendo o mesmo ingrediente ativo, de outros laboratórios e com outras marcas. Efeitos cardiovasculares da aspirina Já na década de 1950, depois de anos de uso da Aspirina para alívio da dor e controlo da inflamação, percebeu-se que esta podia ter outros efeitos , nomeadamente no tratamento do enfarte do miocárdio e de outros eventos relacionados com a formação e circulação de coágulos de sangue. Numa dose diferente da que tem efeitos analgésicos e anti-inflamatórios – a chamada baixa dose e que varia entre 75-150 mg/dia - a aspirina passou a ser usada como medicamento com efeitos antiagregantes plaquetários : As plaquetas são um dos tipos de células do sangue; A agregação (aglomeração) das plaquetas faz parte do mecanismo normal de coagulação do sangue em caso de hemorragia; Alguns eventos cardíacos, como o enfarte agudo do miocárdio e o AVC (acidente vascular cerebral) devem-se à formação e circulação de coágulos de sangue, obstruindo as artérias. O efeito antiagregante plaquetário da aspirina evita a formação de coágulos sanguíneos e é por isso que esta pode estar indicada para proteger e reduzir o risco de eventos cardíacos, em doses baixas e a sua toma por pessoas com doença cardiovascular estabelecida generalizou-se. Resultados da utilização de aspirina na doença cardiovascular estabelecida Ao longo dos anos foram realizados múltiplos estudos que demonstraram o que hoje são benefícios estabelecidos da aspirina: Quando é administrada na fase aguda do enfarte agudo do miocárdio ou do acidente vascular cerebral, a aspirina reduz o risco de mortalidade consequente a estas doenças: Por exemplo, num dos primeiros estudos com aspirina em doentes com enfarte do miocárdio, o ISIS-2, verificou-se que a administração de aspirina durante um mês, reduziu em 23% a probabilidade de morte! Quando administrada de forma prolongada em doentes que têm doença cardiovascular estabelecida, a aspirina reduz o risco e aumenta a probabilidade de sobrevivência sem eventos: Em média, um doente que tome uma dose baixa de aspirina reduz o risco de ter um novo evento em cerca de 20%! Quando são realizados procedimentos de revascularização arterial (por exemplo cirurgia de bypass coronário, angioplastia carotídea ou coronária, entre outros), a aspirina é um complemento obrigatório do tratamento e pode até ser combinada com outros medicamentos antiagregantes A resposta SIM Esta é a resposta mais simples à questão de tomar aspirina, quando se trata de prevenção secundária. Na generalidade dos casos seguintes, a toma de aspirina (ou outro antiagregante plaquetário) faz parte do tratamento obrigatório nas seguintes situações : Enfarte agudo do miocárdio; Acidente vascular cerebral isquémico; Doença arterial periférica, Angina de peito; Antecedentes de angioplastia; Cirurgia de bypass coronário; Outra doença cardiovascular relacionada com a aterosclerose! Naturalmente, entre as pessoas que tenham estes problemas podem existir exceções e, portanto, a decisão deve sempre ser tomada por um médico . Aspirina na prevenção primária de eventos cardiovasculares Os excelentes resultados obtidos e pela experiência da utilização da aspirina, durante vários anos, em doentes com doença cardiovascular estabelecida, fez com que médicos e cientistas começassem a estudar o impacto na prevenção primária de eventos cardiovasculares, ou seja, em pessoas que nunca tiveram um evento cardiovascular. Enquanto isso, foi-se estabelecendo o conceito de que a aspirina protege o coração. A verdade é que reduz o risco de enfarte do miocárdio e, como tal pode até ser tomada mesmo por pessoas saudáveis para aumentar a possibilidade de sobreviver sem eventos cardiovasculares. Em muitos países a aspirina passou a ser de venda livre, desde há muitos anos e cada um pode escolher livremente se toma ou não aspirina! Por seu lado, os médicos levados pela moda da aspirina e convencidos do seu papel protetor do coração, passaram a prescrever aspirina de forma mais liberal! De uma certa forma, a aspirina passou a ser um fármaco da longevidade, cujo papel se tornou difícil de questionar. O conhecimento acumulado, tanto da investigação como da utilização de aspirina por milhões de pessoas, permite responder com rigor à questão se devemos ou não tomar aspirina para prevenir eventos cardiovasculares, mas não da mesma forma para todos, particularmente no caso da prevenção primária . A resposta DEPENDE, PODE NÃO SER A MELHOR OPÇÃO Esta é a resposta no caso da prevenção primária , ou seja para quem não teve eventos cardiovasculares e não tem diagnosticada nenhuma doença cardíaca, o que significa que queremos prevenir algo em alguém potencialmente saudável. O que nos dizem os três estudos mais recentes, sobre a utilização da aspirina em prevenção primária, isto é, em pessoas que nunca tiveram um evento cardiovascular: Em doentes mais idosos, com mais de 70 anos, sem doença cardiovascular, a medicação com aspirina (resultados principais do ASPREE): Não reduziu o risco de eventos cardiovasculares, nem aumentou os anos de vida; Aumentou o risco de hemorragia em 38%. Em doentes de meia idade, com mais de 55 anos e com fatores de risco cardiovascular (por exemplo uso de tabaco, hipertensão arterial e colesterol elevado), mas sem doença cardiovascular estabelecida, a medicação com aspirina (resultados principais do ARRIVE): Não reduziu o risco de eventos cardiovasculares; Aumentou o risco de hemorragia em cerca de duas vezes. Em diabéticos, com mais de 40 anos e sem doença cardiovascular, a medicação com aspirina (resultados principais do ASCEND): Reduziu o risco de eventos em 12%; Aumentou o risco de hemorragia 29%, anulando o benefício conseguido. Quando utilizada em prevenção primária, o resumo de 13 ensaios clínicos, com 164.225 participantes, indicam que a medicação preventiva com aspirina produz os seguintes resultados: Redução absoluta de 0,41% no risco de ter um evento cardiovascular grave (incluindo morte, enfarte do miocárdio ou acidente vascular cerebral); Aumento absoluto de 0,47% no risco de ter uma hemorragia grave ; Ou seja, na prática, o benefício na redução do risco de eventos cardiovasculares, anula-se pelo risco de hemorragia grave. Estes estudos não contam toda a história da aspirina e mesmo em prevenção primária, podem existir doentes que beneficiam da medicação. Estes são os doentes que têm muitos fatores de risco e elevada probabilidade de virem a ter um enfarte do miocárdio ou acidente vascular cerebral, apesar de ainda não terem tido um evento; São o que os médicos chamam de doentes com elevado risco cardiovascular e que podem beneficiar da terapêutica preventiva com aspirina. Concluindo Tomar aspirina para prevenir enfartes e outros eventos cardiovasculares? Fale com o seu médico, mas na generalidade dos casos : Sim , se tem ou teve: Enfarte agudo do miocárdio Acidente vascular cerebral isquémico Doença arterial periférica Antecedentes de angioplastia Antecedentes de cirurgia de bypass coronário Outra doença cardiovascular relacionada com a aterosclerose Não, se: É saudável (não teve nenhum dos problemas atrás referidos); Tem mais de 70 anos ou menos de 40 anos; Tem um risco aumentado de hemorragias, devido a alguma doença concomitante. Talvez, o seu médico decidirá, se: Tem um risco cardiovascular elevado. E, ainda, lembre-se sempre que no que toca à prevenção cardiovascular as medidas associadas ao estilo de vida são tão ou mais importantes do que a a discussão sobre tomar ou não tomar aspirina! Fontes Baigent C, Blackwell L, Collins R, Emberson J, Godwin J, Peto R, et al. Aspirin in the primary and secondary prevention of vascular disease: collaborative meta-analysis of individual participant data from randomised trials. Lancet. 2009;373:1849-60. Jacobsen AP, Raber I, McCarthy CP, Blumenthal RS, Bhatt DL, Cusack RW, et al. Lifelong aspirin for all in the secondary prevention of chronic coronary syndrome: still sacrosanct or is reappraisal warranted? Circulation. 2020;142:1579-1590. Miner J, Hoffhines A. The discovery of aspirin's antithrombotic effects. Tex Heart Inst J. 2007;34:179-86. Patrono C, Baigent C. Role of aspirin in primary prevention of cardiovascular disease. Nat Rev Cardiol. 2019;16:675-86. doi: 10.1038/s41569-019-0225-y. Peters AT, Mutharasan RK. 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