22 de maio de 2020 Autor : Paulo Dinis O principal objetivo da avaliação desportiva cardiovascular em atletas é identificar os sujeitos com doença cardíaca , muitas vezes em fase assintomática, para impedir uma potencial morte súbita. A morte súbita cardíaca é definida como uma morte inesperada de causa cardíaca, não traumática, num indivíduo sem suspeita prévia de qualquer doença. Isto ocorre porque exercício físico pode funcionar como um trigger para fenómenos disrítmicos cardíacos em indivíduos com predisposição. A avaliação desportiva cardiovascular é também importante para: Rastreio das principais doenças cardíacas; Identificação de eventuais fatores de risco e sua correção; Avaliação da condição física e melhoria da performance ou rendimento do atleta. A ocorrência de morte súbita é considerada um evento raro, estimado em 1-3 casos por 100 mil indivíduos. No entanto, tem uma enorme carga psicossocial, não apenas pela notoriedade que tem nos meios de comunicação, mas pelo que representa a morte de jovens atletas, que serão dos representantes mais saudáveis da nossa sociedade. Qual é a metodologia da avaliação desportiva cardiovascular? A realização de rastreio cardiovascular de pré-participação desportiva é um assunto que continua a ser debatido. Há consenso relativamente à importância que este rastreio representa, mas a sua metodologia continua a dividir opiniões. As recomendações Europeias e Americanas têm linhas orientadoras semelhantes, mas diferentes pontos de vista em relação à utilização de exames complementares de diagnóstico, nomeadamente a realização de eletrocardiograma. Tanto as recomendações Europeias como as Americanas defendem: Uma história clínica orientada por um questionário com pontos essenciais; O exame físico completo. O questionário deve focar-se em: Sinais clínicos que possam estar presentes, como dor torácica, palpitações, dispneia ou ocorrência de síncope; História familiar, já que a maior parte doenças cardíacas que provocam morte súbita nos jovens têm componente genética. O exame físico deve incluir: Avaliação músculo esquelética; Avaliação da pressão arterial; Avaliação dos pulsos arteriais; Auscultação cardiopulmonar. A presença de um sopro cardíaco pode alertar o médico assistente para patologia valvular ou obstrução do trato de saída do ventrículo esquerdo que pode estar presente na miocardiopatia hipertrófica, que é a principal causa de morte súbita no jovem atleta. As recomendações Europeias defendem também a realização de eletrocardiograma como exame de rastreio, sendo interpretado em conjunto com a história clínica e exame objetivo. O eletrocardiograma é um exame de fácil execução e de grande importância para a identificação de miocardiopatias, que são responsáveis pela maioria dos casos de morte súbita cardíaca, nomeadamente: Miocardiopatia hipertrófica; Displasia arritmogénica do ventrículo direito; Miocardiopatia dilatada; Ventrículo esquerdo não compactado. Estas doenças apresentam-se maioritariamente com alterações no eletrocardiograma que podem ser identificadas por um cardiologista. Cabe ao clínico, saber reconhecer e interpretar o exame, usando critérios específicos para a população em causa. Se algum destes elementos de avaliação - história clínica, exame objetivo, eletrocardiograma - mostrar alterações significativas, devem ser realizados outros exames cardiovasculares apropriados que poderão inclui ecocardiograma, prova de esforço, prova de esforço cardiopulmonar, Holter de 24 horas, ressonância magnética cardíaca, entre outros. É usada a mesma metodologia para todos os atletas? Apesar de todos os atletas necessitarem de uma avaliação cardiovascular pré- participação desportiva, esta avaliação varia também com a faixa etária, a modalidade e a intensidade do exercício praticado . Isto acontece porque as principais doenças cardíacas com potencial para evoluir para morte súbita são distintas em jovens atletas, em atletas adultos ou veteranos. Se nos adolescentes e jovens atletas até 35 anos as principais causas de morte súbita são as miocardiopatias, a origem anómala das artérias coronárias e as canalopatias, a partir dos 35 anos a principal causa de morte é a doença arterial coronária. Como tal, nesta população além da história clínica, exame objetivo e eletrocardiograma deve-se calcular de forma individualizada o risco cardiovascular. Se este for elevado, fará sentido realizar uma prova de esforço máxima para exclusão de patologia cardíaca isquémica. Também é importante aferir a modalidade e o nível de intensidade praticado. O leque de modalidades desportivas é muito vasto, existindo particularidades na avaliação relacionadas com a intensidade do exercício praticado. Assim, o cardiologista necessita de conhecimento, treino e diferenciação, pois apesar de todos os atletas necessitarem de seguimento especializado , este deverá ser individualizada de acordo com fatores como a faixa etária, modalidade ou intensidade praticada. Conheça a equipa de cardiologia da rede Hospital da Luz e faça a sua marcação . Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.