24 de janeiro de 2022 Autor : Germano do Carmo A suspeita de uma relação entre alterações neurológicas e problemas nos vasos sanguíneos que transportam o sangue para a cabeça vem da antiguidade. No século XIX ficou a saber-se que entre esses vasos problemáticos estavam as artérias carótidas e na segunda metade do século XX foram descritas consequências clínicas neurológicas de lesões nestas artérias. Desenvolvimentos médicos no último século, com contributos portugueses importantes, permitem hoje: Identificar doentes com risco de doença carotídea; Diagnosticá-los com precisão; Tratá-los eficazmente e assim contribuir para a prevenção dos acidentes vasculares cerebrais, conhecidos correntemente como AVC. Ainda assim, os AVC continuam a ser uma causa importante de morte e incapacidade no mundo ocidental. Quando há um primeiro AVC, este é fatal em quase 40% dos casos; Entre as pessoas que sobrevivem, metade fica dependente e em 20% o AVC repete-se. Quase todos os AVC – cerca de 87% – são isquémicos, ou seja, devem-se a uma quantidade de sangue que chega ao cérebro insuficiente. As lesões nas artérias carótidas são uma das causas possíveis desta insuficiência. Que lesões das carótidas são estas? As lesões das carótidas que são mais importantes como causa de AVC são lesões de aterosclerose . A aterosclerose é uma acumulação de placas de gordura e outras substâncias na parede das artérias . Com o passar do tempo esta acumulação diminui o calibre das artérias, que ficam mais estreitas (estenose) e podem mesmo chegar a ficar bloqueadas. Podem também soltar-se fragmentos das placas de aterosclerose, que seguem com o fluxo de sangue e podem ir bloquear artérias mais finas. Seja pela estenose seja pelo bloqueio de artérias que participam na irrigação do cérebro, o fluxo de sangue é afetado e as células cerebrais são privadas de oxigénio e nutrientes. Esta privação pode ser transitória (provocando um acidente isquémico transitório ou AIT) ou mais grave, dando origem a um AVC cujas consequências dependem, entre outros aspetos, da zona do cérebro atingida. A identificação da idade, consumo de tabaco, diabetes, hipertensão arterial e níveis de colesterol elevados no sangue como fatores que aumentam o risco de aterosclerose explicam facilmente o elevado número de acidentes vasculares cerebrais na população ocidental. Uma contribuição portuguesa importante António Egas Moniz e a angiografia cerebral Em 1927, Egas Moniz, médico neurocirurgião Prémio Nobel da Fisiologia e Medicina, usou pela primeira vez num doente vivo a técnica de angiografia cerebral que tinha desenvolvido, demonstrando de forma inequívoca a relação entre a doença carotídea e sintomas neurológicos . João Cid dos Santos e a endarteriectomia A era da cirurgia de revascularização das carótidas iniciou-se em 1947 quando o médico João Cid dos Santos descreveu a técnica de endarteriectomia , ou seja, a técnica que permite remover uma lesão de aterosclerose do interior de uma artéria de modo a desobstruí-la. Esta técnica foi posteriormente adotada em todo o mundo e continua a ser, tanto na sua forma tradicional como com adaptações desenvolvidas, o tratamento de eleição em muitos casos de doença aterosclerótica das artérias carótidas. O mundo que conhecemos podia ser diferente Entre as personalidades que tiveram papéis importantes na história contemporânea, alguns foram vítimas de AVC , por exemplo: Vladimir Ilyich Ulianov ou Lenine , chefe do governo russo até à sua morte em 1924 com 54 anos, teve diversos acidentes isquémicos transitórios. Depois destes, um acidente vascular cerebral deixou-o com todo o lado direito do corpo paralisado. Morreu ao terceiro AVC aos 54 anos. Sabe-se do seu arrependimento de ter elevado Estaline a lugares tão altos no partido e no aparelho de estado e da sua vontade de o substituir por Trotsky. Paul von Hindenburg , opositor de Hitler, comandou o exército imperial e foi presidente alemão até morrer aos 86 anos, em 1934, devido a um AVC. No ano anterior à sua morte nomeou Hitler chanceler. O presidente americano Franklin D. Roosevelt teve sintomas graves de insuficiência cérebro-vascular em 1943, dois anos antes de morrer. Se esta doença poderá ter afetado os acordos de Yalta (Crimeia) em 1945 e Guerra Fria que se instalou posteriormente é motivo de especulação. Roosevelt morreu 4 meses depois da assinatura dos acordos com um AVC. Se há 100 anos já se soubesse quem devia ser avaliado por probabilidade de doença das carótidas e a cirurgia de revascularização das carótidas já existisse, o mundo atual poderia não ser o que conhecemos . Cirurgia de revascularização da carótida no Hospital da Luz Entre Janeiro de 2007 e Dezembro de 2021, foram operados no Hospital da Luz Lisboa 296 doentes com lesões criticas da artéria carótida interna. Todas as lesões tinham um grau de estenose superior a 70%; 66,2% dos doentes eram sintomáticos, ou seja, tinham tido acidentes isquémicos transitórios ou acidentes vasculares cerebrais prévios; 40,2% dos doentes tinham lesões bilaterais, 10,1% apresentavam oclusão da artéria carótida interna contralateral; 8,1% foram operados sequencialmente às duas carótidas internas e portanto, no total, foram feitas 320 cirurgias de revascularização carotídea. A mortalidade foi 0,31% A taxa de acidentes neurológicos per-operatórios foi 0,62% O tempo médio de internamento foi 2,75 dias. Conheça a equipa clínica de cirurgia vascular da rede Hospital da Luz e faça a marcação da sua consulta Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.