12 de fevereiro de 2025 Autor : Susana Ouro Os últimos dados do Global Cancer Observatory , o registo epidemiológico mundial do cancro, mostram que há um aumento do cancro colorretal, sobretudo em indivíduos abaixo dos 50 anos. Nas faixas etárias mais velhas, a percentagem de novos casos mantém-se constante, mas nas mais novas o aumento é substancial. Isto tanto para o cancro do reto como para o cancro do cólon, designados em conjunto como cancro colorretal . E as previsões são de que esta tendência se mantenha e se acompanhe de um aumento da prevalência de 30% até 2030. A percentagem de novos casos de cancro colorretal continua a ser maior nos homens, mas estes agora são mais jovens. Mais casos em idades mais jovens Não se percebe muito bem por que razão isto está a acontecer. É provavelmente um problema social relacionado com a alimentação ou a exposição a outros fenómenos que nós não temos relacionado diretamente com este cancro. Seguramente, o cancro colorretal está associado à obesidade . Por isso, estes dados podem ser um reflexo direto do aumento do número de pessoas com excesso de peso e obesidade. Mas não só. Serão certamente vários os fatores implicados. Não há uma relação clara entre a hereditariedade e o cancro colorretal. Parece-nos ter muito mais a ver com fatores a socioeconómicos, de higiene, de dieta associada a maior consumo de substâncias processadas. Algumas pessoas sabemos que têm um risco direto para o cancro colorretal, mas não sabemos se explicam este aumento substancial da incidência em populações mais jovens. A obesidade, o consumo de alimentos processados, o sedentarismo, o tabagismo são fatores muito prevalentes nas nossas sociedades ocidentais , muito mais do que nas sociedades não ocidentais. O fator mais importante será seguramente a obesidade. E tudo o que lhe está associado, como a falta de exercício e de comportamentos regulares associados à mobilidade. A verdade é que a população com excesso de peso e obesidade continua a aumentar. E daí o grande impacto deste tipo de cancro nas populações mais jovens também. Por outro lado, as sociedades ocidentais, sobretudo as populações mais jovens, estão a fazer dietas cada vez menos mediterrâneas e com mais alimentos processados e com alimentos com elevada concentração energética , com excesso calórico. Tudo em conjunto cria, provavelmente, aquilo a que chamamos a síndrome metabólica . Se, além disso, ainda existir um fator hereditário para o cancro colorretal – que terá um peso de 5%-10% na incidência desta patologia -, teremos então uma combinação explosiva e uma possível explicação para o aumento da incidência deste cancro. Rastreio mais precoce Seja como for, estes números obrigam-nos a estar muito mais atentos a um fenómeno a que chamamos early-onset colorectal cancer (cancro colorretal nos jovens, aqui definidos como tendo menos de 50 anos). Ainda não existem dados que permitam dizer se este cancro em idades mais jovens é mais ou menos agressivo, ainda que empiricamente pareça ser mais agressivo. Isto de acordo com a nossa experiência, com a experiência de quem faz cirurgia colorretal: a maior parte dos nossos doentes mais jovens, quando é feito o diagnóstico, já apresentam metástases. É por isso que as sociedades europeia e americana de gastrenterologia recomendaram a diminuição da idade para início de rastreio do cancro colorretal. A sociedade portuguesa também vai avançar nesse sentido, como foi referido nas conclusões dos recentes congressos nacional e europeu de cirurgia colorretal. Em Portugal, o rastreio do cancro colorretal é feito a partir dos 50 anos, com um de 2 exames: Pesquisa de sangue oculto nas fezes; Colonoscopia. No nosso país, este rastreio ainda se faz maioritariamente com pesquisa de sangue oculto nas fezes , por evidente falta de capacidade de resposta a nível nacional para generalizar o mais possível a realização de colonoscopias. Mas a colonoscopia permite ter um rastreio mais preciso . A população não está ainda muito disponível para o fazer, mas a colonoscopia é um exame muito seguro , sem qualquer dificuldade na sua realização. O que as sociedades médicas científicas estão a tentar fazer nos países ocidentais é alertar as autoridades de saúde para o facto de o rastreio do cancro colorretal ter de diminuir obrigatoriamente para os 45 anos. A maior parte dos países vai adotar esta indicação. E nós também temos de o fazer. Tratamento do cancro colorretal As opções de tratamento do cancro colorretal são, sobretudo, cirúrgicas . Mas as opções terapêuticas estão sempre a evoluir. Novos medicamentos, novas combinações terapêuticas, a imunoterapia… E esta evolução está a acontecer de forma transversal para todas as doenças oncológicas. A imunoterapia, por exemplo, está a ter uma resposta extraordinária num determinado subtipo de cancro colorretal , que afeta uma franja muito curta da população. Mas a investigação sobre o potencial destes medicamentos está a produzir resultados novos todos os dias, pelo que é de esperar que se vá sabendo cada vez mais e que possam ser abrangidos cada vez mais doentes. Daqui a dois anos é provável que haja muitas novidades nessa área. A radioterapia também está também a dar cada vez mais resposta, para determinado tipo de doentes e de casos , e cada vez temos mais segurança no que fazemos, a este nível. Depois, do ponto de vista cirúrgico, as técnicas em si também estão a mudar. A robótica cirúrgica, por exemplo, começou a mostrar ser muito segura quer no cancro do cólon quer no cancro do reto. É, portanto, uma ferramenta útil e muito segura. Ideias fundamentais a reter Os casos de cancro colorretal estão a aumentar em faixas etárias mais jovens. A prevalência de cancro colorretal continuará a aumentar e está a associada a estilos de vida, em particular, à síndrome metabólica. Os médicos devem estar mais alerta e pedir rastreios mais cedo. A curto prazo haverá uma grande evolução nas terapêuticas, sobretudo terapêuticas químicas e imunoterapia. A cirurgia robótica está consolidada como ferramenta de tratamento, com evidencia de segurança neste tipo de cancro. Conheça a equipa clínica de cirurgia geral da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. 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