10 de novembro de 2022 Autor : João Casanova O cancro do ovário é um dos cancros ginecológicos mais comuns , representa 30% dos casos. A Europa é a região do globo com maior incidência de cancro do ovário e esta tem aumentado nos últimos anos; Em Portugal são diagnosticados anualmente cerca de 700 casos de cancro do ovário É mais frequente entre os 50 e os 65 anos de idade; Entre os cancros ginecológicos é o que tem maior mortalidade associada. As causas de cancro do ovário não são bem conhecidas, mas sabe-se que: Cerca de 25% dos casos estão relacionados com mutações de genes, hereditárias e adquiridas . Pode estar relacionado com a ovulação , pois a contraceção hormonal e a gravidez diminuem o risco da sua ocorrência: Uma gravidez e parto antes dos 26 anos diminuem o risco, acentuando-se esta diminuição com cada nova gestação e parto. O aleitamento materno reforça também esta diminuição do risco. A laqueação e a remoção das trompas diminuem o risco , uma vez que se julga que grande parte dos cancros do ovário tenha origem nas trompas. Tipos de cancro ovárico Há três tipos principais de cancro do ovário , que se distinguem pelas células deste órgão em que têm origem: Tumores de células epiteliais Têm origem nas cálulas epiteliais que cobrem a superfície do ovário, chamam-se carcinomas e são os cancros ováricos mais comums (cerca de 85%-90%). Há vários subtipos de carcinomas ováricos, o carcinoma seroso de alto grau é o mais frequente, representa quase 80% dos casos de cancro do ovário. Outros subtipos, menos frequentes, são, por exemplo o carcinoma seroso de baixo grau, carcinoma de células claras, carcinoma endometrioide e carcinoma mucinoso. Tumores de células germinativas Têm origem nas células que produzem os óvulos Representam 5% dos cancros do ovário. Há vários subtipos de cancros de células germinativas: teratomas imaturos, disgerminoma e tumores do saco vitelino. Tendem a aparecer mais em adolescentes e em mulheres jovens. Tumores do estroma Têm origem nas células dos tecidos que participam na arquitetura do ovário e que produzem estrogéneos e progesterona. São tumores ováricos raros (menos de 1% dos casos), mas o seu diagnóstico é em geral mais precoce. As células epiteliais, germinativas e do estroma do ovário pode também dar origem a tumores benignos, que são aliás muito mais frequentes do que os tumores malignos ou cancro. Fatores que aumentam o risco de cancro do ovário Na população em geral, o risco de ocorrer cancro do ovário ao longo da vida é de cerca de 2%. No entanto, são vários os fatores que aumentam esse risco , por exemplo: Idade superior a 55 anos; Nunca ter tido uma gravidez de termo; Ter tido a primeira menstruação antes dos 12 anos ou a menopausa depois do 52 anos; Ter tido o primeiro filho em idade tardia: mulheres com mais de 35 anos quando nasce o primeiro filho têm um risco acrescido de cancro do ovário do que aquelas que têm os filhos mais jovens; Fazer terapêutica de substituição hormonal com estrogénios ou com estrogénios + progesterona depois da menopausa; Ter história familiar da cancro do ovário, mama e colorretal; Hereditariedade: principalmente as mutações BRCA1 (risco de 30%-70%) e BRCA2 (risco de 10%-30% aumentam o risco de cancro do ovário e de cancro da mama. Há outras mutações, menos importantes, que também podem aumentar o risco de cancro do ovário. Sintomas de cancro do ovário No início do seu desenvolvimento, o cancro do ovário pode não provocar quaisquer sintomas ou estes serem muito ligeiros. Além disso os sintomas associados ao cancro do ovário não são específicos , acontecem em muitas outra situações. Os principais são: Aumento do volume abdominal; Desconforto ou dor pélvica; Falta de apetite ou sensação rápida de enfartamento após as refeições; Aumento da frequência urinária ou urgência urinária. Outros sintomas possíveis são: Perda de peso sem causa explicável; Cansaço permanente; Dor nas costas; Alterações dos hábitos intestinais (obstipação ou diarreia); Hemorragia vaginal depois da menopausa. Diagnóstico Perante uma suspeita de cancro do ovário podem ser pedidos vários exames incluindo: Ecografia, tomografia computorizada e outros exames de imagem . Estes exames não permitem por si fazer o diagnóstico, mas contribuem com informação sobre a localização e extensão da doença; Análises de sangue , entre que quais o marcador tumoral CA 125, que está aumentado no cancro do ovário, mas também noutras doenças, tanto oncológicas e não oncológicas. O diagnóstico definitivo de um cancro do ovário só é possível através da avaliação anatomo-patológica dos tecidos do órgão . Esta pode ser feita numa amostra de biopsia ou durante uma laparotomia ou laparoscopia exploradoras contribuindo para definir a extensão da intervenção. Tratamento do cancro do ovário O tratamento do cancro do ovário depende do grau de evolução da doença e da sua disseminação ou não para outros órgãos e tecidos. Nos estádios iniciais, inclui sempre cirurgia com remoção dos ovários, trompas, útero, e outros procedimentos, cirurgia esta que pode ser feita por cirurgia aberta, por laparoscopia ou por cirurgia robótica. Nos estádios avançados, a cirurgia implica a remoção de toda a doença visível, procedimento que se chama de cirurgia de citorredução e que pode implicar a remoção de vários órgãos. Em casos em que a cirurgia não pode ser realizada logo inicialmente (por doenças associadas ou porque a doença não é ressecável), é realizada quimioterapia antes da cirurgia (quimioterapia neoadjuvante) para diminuir o tamanho do tumor e aumentar a probabilidade da sua remoção cirúrgia completa posteriormente. O cancro do ovário obriga a uma vigilância médica periódica regular depois de terminado o tratamento , que é mais frequente nos primeiros anos para assegurar que não está doença presente e detetar precocemente quaisquer sinais de recorrência. Prevenção do cancro do ovário Para a generalidade das mulheres, a vigilância ginecológica de rotina não inclui o rastreio do cancro do ovário. Este pode estar indicado em mulheres que tenham um risco elevado de desenvolver a doença e inclui mais frequentemente a determinação dos valores de CA 125 e um exame de imagem. Os cancros ginecológicos afetam cada vez mais mulheres e muitas não têm sequer consciência de quais são os sinais de alerta ou como manter uma vigilância preventiva. A vergonha, o medo e o estigma associado a muitos destes cancros femininos continuam a ser um entrave à consciencialização das mulheres para um problema que, afinal, é só delas. Em Portugal, e na maioria dos países europeus, o cancro ginecológico mais comum é o cancro do endométrio, logo seguido do cancro do colo do útero. Felizmente, a incidência de ambos tem vindo a diminuir. Os programas de rastreio e o maior acesso à informação sobre estas doenças podem explicar parte desta redução. Mas a perceção da maior parte dos especialistas é que continua a haver, ainda, um estigma associado ao diagnóstico desta patologia e, por isso, um adiar da ida ao médico. Neste podcast Hospital da Luz , conversamos com o especialista em Ginecologia-Obstetrícia do Hospital da Luz Lisboa, João Casanova, e com Dulce Cabete, professora de enfermagem com 60 anos, que aceitou partilhar connosco a experiência da sua doença. Google | Apple | Spotify Conheça a equipa clínica de ginecologia-obstetrícia da rede Hospital da Luz e faça a marcação da sua consulta Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.