31 de dezembro de 2020 Autor : Rui Maio O que é o pâncreas? O pâncreas é uma glândula que faz parte do sistema digestivo e do sistema endócrino . Situa-se junto do estômago, tem três regiões (cabeça, corpo e cauda) e as suas funções principais são: No sistema digestivo: produzir o suco pancreático que contém enzimas usadas na digestão de vários tipos de alimentos; No sistema endócrino: produzir hormonas, das quais a mais conhecida é a insulina que regula a glicemia (nível de açúcar no sangue). No cancro do pâncreas , as células deste órgão alteram-se e crescem de forma descontrolada. O cancro do pâncreas e a terceira causa de morte por cancro na Europa e é o tumor digestivo com pior prognóstico. Sintomas e sinais de alerta Muitas vezes, nas fases iniciais da doença , o cancro do pâncreas não causa sintomas. Quando há sintomas , estes devem-se geralmente à relação do pâncreas com outros órgãos do aparelho digestivo e podem ser: Icterícia (pele ou olhos amarelados); Mudança de cor da urina, que pode ficar cor de laranja ou cor de chá; Mudança de cor das fezes, que podem ficar amarelas, avermelhadas, acinzentadas ou esbranquiçadas; Dor no abdómen ou em redor; Inchaço ou sensação de repleção; Náuseas, vómitos ou indigestão; Fadiga; Falta de apetite; Perda de peso inexplicável; Diabetes de início súbito ou súbita mudança no controlo de açúcar no sangue em diabéticos; Vesícula biliar dilatada. No entanto, ter um ou mais destes sintomas não significa que se tenha um cancro do pâncreas. É importante discutir quaisquer sintomas com o seu médico , uma vez que podem indicar outros problemas de saúde. Fatores de risco para desenvolver a doença Os principais fatores de risco para o cancro do pâncreas são: Tabagismo: os fumadores têm uma probabilidade 2-3 vezes maior de desenvolver cancro do pâncreas; Idade: risco maior para pessoas com mais de 50 anos; História familiar: algumas pesquisas mostram que cerca de 10% dos cancros pancreáticos são causados por alterações genéticas hereditárias; Obesidade: as pessoas com excesso de peso e um índice de massa corporal (IMC) superior a 30 kg/m 2 têm maior risco; Pancreatite crónica; Diabetes de início repentino ou mudanças bruscas de controlo da glicemia (açúcar no sangue) em diabéticos. Nem todas as pessoas com fatores de risco desenvolvem cancro do pâncreas. No entanto, a probabilidade de o desenvolverem é superior à das pessoas sem fatores de risco. Como prevenir o cancro do pâncreas Apenas 5%-10% dos cancros do pâncreas se devem a causas genéticas. Os restantes devem-se a causas ambientais. Assim, contribuem para prevenir o cancro do pâncreas : Adotar um estilo de vida saudável, o que inclui uma dieta adequada (incluindo quantidades de frutos e legumes e preferindo carnes brancas e sem gordura relativamente a carnes vermelhas) e a prática de exercício físico; Manter um peso saudável; Moderar o consumo de bebidas alcoólicas; Não fumar ou deixar de fumar. Não existe ainda um método de rastreio específico para o cancro no pâncreas. No entanto, podem ser efetuados, em contexto de check-up regular e tendo em conta fatores de risco e a história pessoal e familiar de saúde, alguns exames que podem permitir a deteção precoce , por exemplo: Ecografia abdominal; TAC ou ressonância magnética. Tratamento do cancro do pâncreas Cirurgia A cirurgia (ressecção cirúrgica) do pâncreas só deve realizada em centros especializados , nomeadamente com experiência em cirurgia hepato-bilio-pancreática e capacidade de reconstrução vascular, por vezes necessária neste tipo de doentes. Uma equipa experiente é decisiva para o tratamento do cancro do pâncreas. A cirurgia é atualmente a única opção terapêutica potencialmente curativa para o cancro do pâncreas. A sobrevivência aos 5 anos é de 20% para os doentes operados. No entanto, na altura do diagnóstico apenas 15%-20% dos tumores são considerados operáveis (ressecáveis). O cancro do pâncreas sem metástases à distância pode ser dividido em 3 categorias de acordo com a extensão local da doença: Ressecável; Ressecável borderline; Localmente avançado (irressecável). Apesar desta classificação ter implicações terapêuticas, a decisão da de realizar uma cirurgia depende da experiência do cirurgião e da técnica cirúrgica. Por exemplo, em centros especializados, os tumores borderline ressecáveis, ou seja, tumores sem metástases à distância, mas com envolvimento venoso, podem ser ressecados em bloco com ressecção dessas veias e reconstrução vascular. O tipo de cirurgia depende da localização do tumor e inclui: Ressecção do corpo e cauda do pâncreas e esplenectomia (remoção do baço) para os tumores localizados no corpo e cauda; Ressecção de Whipple ou duodenopancreatectomia cefálica (remoção da cabeça do pâncreas e de parte do intestino – duodeno) para os tumores da cabeça do pâncreas; Nos tumores multifocais, ou seja, que atingem vários locais do órgão, está indicada uma pancreatectomia total (remoção cirúrgica de todo o pâncreas). A linfadenectomia (remoção de gânglios linfáticos) padrão deve implicar a excisão 15 ou mais gânglios linfáticos para ser possível um adequado estadiamento patológico. A linfadenectomia alargada não está indicada, pois a sobrevivência é semelhante e aumenta a morbilidade. A cirurgia minimamente invasiva tem sido utilizada em alguns centros na cirurgia do cancro do pâncreas. Para os tumores distais (corpo e cauda), a pancreatectomia corpo-caudal laparoscópica parece não ter resultados inferiores em termos de sobrevida, com vantagem em tempos de internamento e início da alimentação oral; Pelo contrário, a dudenopancreatectomia laparoscópica é extraordinariamente exigente, pelo que a sua realização continua a não ser recomendada. A mortalidade, tempo de internamento, estado das margens cirúrgicas, sobrevida e custos estão intimamente relacionados com o volume de doentes e cirurgias, pelo que a duodenopancreatectomia cefálica só esta recomendada em centros especializados, que realizem pelo menos 15 a 20 ressecções pancreáticas por ano. Quimioterapia e radioterapia Nos últimos anos tem havido uma maior aposta na investigação do cancro do pâncreas para promover a melhoria da qualidade de vida dos doentes e aumentar o leque de opções de tratamento . Se o tumor for operável, a cirurgia é realizada com o objetivo de o remover completamente. A quimioterapia após a cirurgia (quimioterapia adjuvante) é um tratamento que permite aumentar a probabilidade de cura. Por outro lado, através da combinação de vários fármacos tem sido possível aumentar o tempo de vida dos doentes com cancro de pâncreas inoperável, destruindo as células que se dividem de forma descontrolada e muito rapidamente. Em alguns casos, é ainda possível reduzir o tamanho do tumor tornando-o operável, após tratamentos de quimioterapia e radioterapia. Noutros casos, é possível retardar a evolução do cancro do pâncreas, atrasando o aparecimento de sintomas da doença, preservando a qualidade de vida e aumentando a sobrevivência. Foram identificados recentemente diversos tipos de cancro do pâncreas que no futuro poderão ter formas de tratamento muito diferentes, pelo que a investigação clínica é crucial . Têm surgido novos tratamentos que podem mudar, pouco a pouco, o panorama desta doença. Conheça a equipa de cirurgia geral da rede Hospital da Luz e faça a marcação da sua consulta . Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.