9 de janeiro de 2025 Autor : Saraiva da Cunha Chikungunya é o nome da doença, infeção ou febre causada pelo vírus com o mesmo nome . O primeiro caso de chikungunya ocorreu no Planalto Makonde, na Tanzânia, em 1952. O nome chikungunya teve origem num verbo do dialeto local que significa ficar curvado / dobrado ou andar curvado e está relacionado com a postura adotada pelos doentes consequente à dor articular provocada pela infeção. O vírus chikungunya é transmitido por mosquitos do género Aedes , principalmente os das espécies Aedes aegypti e Aedes albopictus. A infeção chikungunya não se transmite diretamente de pessoa a pessoa. No entanto, está documentada a transmissão de mãe para filho na gravidez e no periparto e na sequência de transfusões de sangue contaminado. Chikungunya, Aedes aegypti e Aedes albopictus Os mosquitos do género Aedes têm um impacto particularmente importante na saúde pública. As espécies Aedes aegypti e Aedes albopictus são exóticas / invasoras na Europa, ou seja, são oriundas de outras regiões do globo, mas estão já bem estabelecidas . Vivem junto dos habitats humanos e a sua atividade é mais intensa durante o dia, particularmente ao amanhecer e ao entardecer. São vetores de transmissão de vários microrganismos que causam doenças no homem e nos animais domésticos , entre os quais, os vírus chikungunya, dengue, zika, febre amarela, West Nile e encefalite japonesa. A globalização, com os movimentos humanos e de mercadorias, e as mudanças climáticas têm algum papel na disseminação do vírus chikungunya, porque as condições ambientais favoráveis ao desenvolvimento dos mosquitos Aedes vão-se expandindo, colocando as populações em maior risco de infeção. Simultaneamente, o Aedes albopictus adaptou-se a temperaturas mais frias do que as da sua região de origem. O homem é o principal reservatório do vírus chikungunya e a transmissão acontece quando as fêmeas Aedes aegypti e Aedes albopictus picam para se alimentarem do sangue que precisam para completar o seu ciclo de vida. Se estiverem infetadas pelo vírus chikungunya, podem transmitir a infeção quando picam; Quando se alimentam em pessoas infetadas por chikungunya podem ficar infetadas e transmitir a doença a outras pessoas. O vírus chikungunya está hoje presente em mais de 60 países, principalmente nas regiões de clima tropical, especialmente no Sudoeste Asiático, em África e na América do Sul, mas também em regiões temperadas, como a Europa ou os EUA. O primeiro país europeu onde o Aedes albopictus foi identificado foi a Albânia, em 1979, e desde 2010 têm-se registado na Europa surtos de chikungunya associados a esta espécie de mosquito, que anteriormente preferia alimentar-se de sangue não humano. Em 2005-2007 ocorreu uma epidemia de cerca de 1,25 milhões de casos de chikungunya em ilhas do Oceano Índico e na Índia. Na Europa registaram-se surtos em Itália em 2007 e 2017 e foram diagnosticados casos de infeção contraída fora da Europa também em Espanha, Reino Unido, Suíça, Bélgica, República Checa, Alemanha, Noruega e França. Neste país há ainda registo de casos de infeção local. Em Portugal : A presença de Aedes aegypti está registada na ilha da Madeira desde 2005. Em Portugal continental o mosquito Aedes albopictus foi identificado em 2017 no concelho de Penafiel, em 2018 em Loulé, e em 2022 em vários concelhos algarvios e em Mértola e em 2023 em Lisboa. Não foram ainda notificados casos de chikungunya. O potencial pandémico do vírus chikungunya é conhecido e, por isso , a doença é considerada prioritária para o desenvolvimento de vacinas . A primeira vacina contra chikungunya foi aprovada em 2023 pela Food and Drug Administration (FDA) nos EUA. O risco de aumentarem os casos de infeção chikungunya na Europa é real, embora seja baixo, pois estão reunidas as condições necessárias, particularmente nos países da bacia mediterrânica. Em 2024 : Até 30 de novembro foram notificados em todo o mundo 480 mil casos em 23 países, (1 na Europa: França) que provocaram mais de 200 mortes. Os países com mais casos são o Brasil (407 250 casos e 203 mortes) e a Índia (69 544), Argentina, Paraguai e Bolívia. Sintomas e diagnóstico de chikungunya Depois de um período de incubação de 3-7 dias (mas que pode variar entre 1 e 12 dias), os sintomas mais importantes e característicos da infeção chikungunya aguda são : Febre de início súbito, frequentemente elevada, acompanhada de dor de cabeça, arrepios, intolerância à luz, náuseas e vómitos e erupção cutânea; Dor articular e muscular incapacitante com início 2-5 dias depois da febre, atingindo particularmente as articulações mais distais. A gravidade da infeção chikungunya pode variar desde assintomática (em 10%-15% dos casos), a uma doença ligeira e autolimitada, e até manifestações neurológicas graves e evolução para uma forma crónica com dor articular incapacitante, que pode durar meses ou anos e que acontece em 30%-40% dos casos. Considera-se que a doença é crónica quando os sintomas se mantêm além de 3 meses. As formas mais graves da doença tendem a ocorrem em grupos de risco específicos , como são as mulheres em fases avançadas da gravidez, as faixas etárias mais avançadas (mais de 65 anos) e as pessoas com outras doenças (comorbilidades), por exemplo insuficiência renal ou cardíaca. Cerca de 0.6%-13% dos infetados precisam de internamento. Os casos fatais são raros (0,024-0,8%), mas numa percentagem importante das pessoas infetadas a doença pode tornar-se crónica e prejudicar seriamente a qualidade de vida. O diagnóstico de chikungunya baseia-se no exame do doente e nos sintomas, especialmente na febre a dor articular, especialmente quando está associada a origem ou história recente de viagens para zonas em que o vírus é endémico, embora a confirmação do diagnóstico só possa ser feita através de análises de sangue. Os viajantes para zonas endémicas devem estar particularmente atentos aos sintomas, mesmo depois do seu regresso, e comunicar os seus destinos e dados de viagem caso recorram aos serviços de saúde. Tratamento e prevenção da infeção chikungunya Não há medicamentos antivirais específicos contra o vírus chikungunya. O tratamento é sintomático, ou seja, direcionado para o alívio dos sintomas , principalmente para a dor das articulações. A vacina contra o chikungunya foi aprovada pelas autoridades europeias (European Medicines Agency, EMA) em junho de 2024 e não existem outros medicamentos destinados à prevenção da febre chikungunya. Assim, esta prevenção é feita com medidas dirigidas ao controlo da população de mosquitos e com cuidados individuais . É importante nas zonas em que há mosquitos Aedes , particularmente quando se é viajante para regiões onde o vírus é endémico (principalmente África, Sudoeste Asiático e Índia). Evitar sair para o exterior nos períodos de maior atividade dos mosquitos (embora os mosquitos Aedes mantenham atividade também no interior dos edifícios). Usar redes protetoras nas janelas . Usar ventoinhas e ar condicionado que contribuem para a proteção porque os insetos se afastam do vento. Cobrir bem todas as zonas do corpo quando se estiver no exterior , usando meias e sapatos fechados, mangas compridas, calças compridas e chapéu. Aplicar repelentes de insetos em toda a pele exposta (exceto à volta dos olhos e da boca) e também na roupa, seguindo sempre as indicações dos produtos, nomeadamente quanto às faixas etárias das pessoas em que podem ser usados. Eliminar quaisquer águas paradas próximo das habitações , incluindo piscinas, baldes com água, pratos de vasos de plantas, poças de água, entre outros, pois são os locais onde as fêmeas dos mosquitos põem os ovos. Fontes Bartholomeeusen K, Daniel M, LaBeaud DA, et al. Chikungunya fever . Nat Rev Dis Primers 2023;9:17. European Centre for Disease Prevention and Control. Chikungunya virus disease . World Health Organization. 2022. Chikungunya . Conheça a equipa clínica de infecciologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.