22 de julho, 2024 Autor: Saraiva da Cunha A cólera deve-se a uma bactéria , denominada Vibrio cholerae . Espalhou-se pelo mundo durante o século XIX, a partir da região onde existia originalmente, o delta do rio Ganges, na Índia, provocando várias epidemias que ao longo dos anos mataram milhões de pessoa. Nos países desenvolvidos, as melhores condições de vida, as redes de abastecimento de água e de drenagem e o tratamento de águas residuais, e as boas práticas de higiene mais generalizadas permitiram eliminar a doença. No entanto, a cólera é ainda endémica e um problema de saúde pública em cerca de 50 países do mundo , principalmente em África e na Ásia, devido, principalmente, à falta de acesso a água potável e às condições de saneamento básico deficientes. Por estas razões, a ocorrência de surtos de cólera é também uma preocupação em zonas de conflitos ou de catástrofes naturais, especialmente quando associados a grandes movimentos de população e a realojamentos em condições precárias. Transmissão A infeção pela bactéria Vibrio cholerae ocorre por via oral , quando se ingere água ou alimentos (principalmente marisco) contaminados. A contaminação da água e dos alimentos tem origem em fezes de pessoas infetadas, que eliminam a bactéria mesmo se não tiverem sintomas. A bactéria Vibrio cholerae é sensível aos ácidos. Uma vez que o estômago tem um conteúdo ácido e que a ação inicial da bactéria é no intestino, para um adulto saudável ter cólera é necessária a inoculação de uma grande quantidade de bactérias. As pessoas expostas à Vibrio cholerae , desenvolvem imunidade ao serotipo a que estiveram expostas. Além de grandes concentrações de população em locais com condições sanitárias deficientes, há outros fatores que aumentam o risco e a gravidade da doença, por exemplo: Coabitação com pessoas infetadas; São grupos de risco principais as grávidas, as crianças (principalmente as subnutridas) e os idosos (principalmente os que sofrem de doenças crónicas, como a diabetes, doenças cardíacas e doenças renais); A infeção por Helicobacter pylori, pela gastrite crónica associada, que diminui a produção de ácido; Diminuição da acidez do estômago, por exemplo em consequência da medicação com inibidores da bomba de protões. Sintomas de cólera A infeção pela bactéria da cólera pode não provocar quaisquer sintomas ou estes serem apenas ligeiros. No entanto, a doença também pode ter uma evolução rápida, com sintomas graves que ocorrem 12 horas a 5 dias depois da infeção (chamado período de incubação): Diarreia aquosa abundante, com aspeto leitoso; Náuseas e vómitos; Desidratação; Cansaço, olhos encovados, sede, boca e pele seca enrugada, urinar pouco, baixa da pressão arterial e alterações da frequência cardíaca são outros sintomas que podem ocorrer e que estão relacionados com a desidratação; Cãibras e choque hipovolémico são complicações graves da desidratação que podem ser fatais em pouco tempo. Tenham ou não sintomas, as pessoas infetadas eliminam Vibrio cholerae nas fezes durante um período habitualmente inferior a 5 dias depois de se terem infetado (embora haja casos em que a eliminação perdura por várias semanas), contaminando principalmente a água e perpetuando o ciclo de infeção. Prevenção da cólera Nos países onde a doença é endémica, as medidas de prevenção são principalmente: O ensino de práticas adequadas de higiene pessoal , entre as quais a lavagem correta das mãos tem um papel essencial; O ensino de ações que contribuam para a segurança da água , tanto de bebida como a usada na rega de culturas e na preparação de alimentos. Profissionais que lidam com alimentos são um grupo-alvo particular deste ensino. A Implementação de medidas de disponibilização de água potável e eliminação correta de águas não tratadas ; Em caso de surtos, vacinação generalizada e contenção de casos diagnosticados para evitar a propagação. Quem viaje para países onde a doença é endémica ou para zonas de risco, deve conhecer a doença e adotar medidas de prevenção, por exemplo: Reforçar a lavagem frequente das mãos; Não beber água sem ser engarrafada e não usar gelo em bebidas; Usar água engarrafada para lavar os dentes; Procurar não ingerir água ao tomar banho ou nadar em lagos, piscinas, ou outros locais; Não comer alimentos crus, incluindo frutos e legumes, nem marisco; Comer sempre alimentos acabados de cozinhar. A Organização Mundial de Saúde recomenda a vacinação dos viajantes de maior risco , como são as pessoas envolvidas em operações humanitárias de emergência e socorro. Depois de viagens para zonas de risco é ainda necessário manter atenção e procurar rapidamente cuidados médicos em caso de suspeita. Diarreia grave e abundante e história recente de viagem para uma região onde a doença seja endémica são os principais fatores que devem levantar a suspeita de cólera. O tratamento imediato, que se baseia em fluidoterapia e antibióticos , reduz de forma importante a taxa de mortalidade. Alguns números Em 2024, até 31 de maio, foram registados no mundo 200 314 casos de cólera e 1 955 mortes. Os países com mais casos foram o Afeganistão, Paquistão, Iémen, Somália e Comoros. Os países com mais mortes foram as Comoros, Iémen, Etiópia, Somália e Zimbabwe. No entanto, estima-se que anualmente ocorram cerca de 4 milhões de casos e 140 mil mortes por cólera em todo o mundo. Na Europa, os casos de cólera estão associados a viagens realizadas para países onde a doença é endémica. Em 2022 registaram-se 29 casos de cólera nos países do Espaço Económico Europeu. Os países com mais casos foram a Suécia (7), Alemanha (6) e França (7). Entre 2007 e 2022, não houve casos de cólera em Portugal. Entre 2007 e 2019, o Reino Unido foi sempre o país com mais casos, tendo chegado a ter 26 dos 31 casos do Espaço Económico Europeu em 2011. A estratégia da Organização Mundial de Saúde para a cólera pretende diminuir as mortes em 90% e eliminar a doença em pelo menos 20 países até 2030. Conheça a equipa clínica de Infecciologia da rede Hospital da Luz. Fontes European Center for Disease Prevention and Control. Surveillance Atlas of Infectious Diseases . European Center for Disease Prevention and Control. Cholera . Fanous M, King KC. Cholera. StatPearls. Treasure Island: StatPearls Publishing; 2023. World Health Organizations. Cholera . Kanungo S, Azman AS, Ramamurthy T, et al. Cholera. Lancet 2022; 399:1429-40. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. 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