16 de fevereiro de 2022 Autor : Victor Gil Muito já sabemos sobre as sequelas a curto prazo da infeção pelo SARS-CoV-2, que causa a COVID-19, tanto a nível respiratório como sobre outros sistemas orgânicos. Com o passar do tempo e com o elevado volume de dados disponíveis, começamos agora a ter uma visão mais clara das sequelas da doença em períodos de tempo mais alargados depois da infeção e das implicações que essas podem ter nos cuidados de saúde. Um artigo publicado recentemente na revista Nature revela que em doentes que tenham tido COVID-19 o risco cardiovascular é bastante elevado no ano seguinte à infeção. Uma população estudada de grande dimensão Para este estudo, os autores usaram dados da base de dados do US Department of Veteran Affairs e compararam um grupo de doentes que tiveram COVID-19 com dois grupos controlo : Grupo de cerca de 153 mil doentes que tiveram COVID-19 (131 mil não hospitalizados, 16 mil hospitalizados, 5 mil em cuidados intensivos), estudados durante um ano com início aos 30 dias depois da infeção; Grupo contemporâneo , com cerca de 5,5 milhões de pessoas que não estiveram infetadas; Grupo histórico , de 2017, também com cerca de 5,5 milhões de pessoas. Estes grupos foram comparados quanto à ocorrência de um conjunto de eventos cardiovasculares previamente especificados no prazo de um ano. Importância dos resultados obtidos Destacaram-se entre os resultados a 12 meses obtidos no grupo de 153 mil doentes que tiveram COVID-19 : Doenças cerebrovasculares : aumento do risco de acidente vascular cerebral (AVC) de 52% e de acidentes isquémicos transitórios de 49%; Doenças cardíacas isquémicas : aumento do risco de doença coronária aguda de 72%, de enfarte do miocárdio de 63%, de miocardiopatia isquémica e de angina; Arritmias : aumento do risco de fibrilhação auricular de 71% e de outras alterações do ritmo cardíaco; Doenças inflamatórias cardíacas : aumento do risco de pericardite e miocardite; Outras doenças cardíacas : aumento do risco de insuficiência cardíaca de 72%, de miocardiopatia não isquémica de 62%, de paragem cardíaca e choque cardiogénico; Eventos tromboembólicos : aumento do risco de embolia pulmonar, trombose venosa superficial e profunda. Este maior risco de eventos cardiovasculares no ano após a doença aguda COVID-19 : Verifica-se mesmo em doentes que não tinham necessitado de cuidados hospitalares em internamento. Foi ainda mais importante nos doentes que necessitaram de internamento e atingiu o valor máximo naqueles que foram admitidos em unidades de cuidados intensivos; Acontece independentemente da idade, raça, sexo e outros fatores de risco cardiovascular , como obesidade, hipertensão, diabetes, entre outros; É também evidente em pessoas sem evidência de doença cardiovascular antes da COVID-19. Que implicações têm estes resultados para os cuidados de saúde cardiovascular? Apesar de se reconhecerem neste estudo algumas limitações relativas à população estudada (a maioria de indivíduos de raça branca e do sexo masculino), que podem limitar de algum modo a generalização dos seus resultados, é um estudo de grande dimensão, que envolveu mais de 150 mil pessoas infetadas por COVID-19 e comparou o seu risco cardiovascular com o de cerca de 11 milhões de outras pessoas. Por isso e porque desconhecemos o prognóstico quanto ao risco cardiovascular a mais longo prazo, estes números que sugerem a necessidade de uma maior vigilância cardiovascular nos doentes infetados por COVID-19, mesmo quando de baixo risco antes da doença devem merecer a nossa maior atenção. A vigilância cardiovascular das pessoas que tiveram COVID-19, independentemente do seu risco anterior deve, pois, ser considerada . Referência Xie Y, Xu E, Bowe B, Al-Aly Z. Long-term cardiovascular outcomes of COVID-19 . Nat Med 2022. doi: 10.1038/s41591-022-01689-3. Conheça a equipa clínica de cardiologia da rede Hospital da Luz e faça a marcação da sua consulta. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.