11 de abril de 2024 Autor: Saraiva da Cunha Estima-se que anualmente sejam infetadas por vírus dengue cerca de 390 milhões de pessoas e que a doença seja responsável por 500 mil internamentos e 20 mil mortes em todo o mundo. Os países afetados por dengue são principalmente os da zona oriental do Mediterrâneo, do Sudoeste Asiático, de África, da América Central e do Sul e do Pacífico Ocidental. Embora o dengue seja uma doença muito antiga, tornou-se um problema de saúde pública principalmente depois da segunda guerra mundial, com a concentração da população em zonas urbanas, frequentemente com condições de saneamento básico e medidas de controlo dos mosquitos transmissores deficientes. Ao longo das últimas décadas, a globalização, a falta de sensibilização para a importância das medidas de prevenção e as alterações climáticas são apontadas como as principais responsáveis pela expansão do dengue. Causa e transmissão do dengue O dengue é uma infeção viral que é transmitida às pessoas através de picadas de mosquitos. Deve-se ao vírus dengue (DENV), que pertence ao género Flavivirus e tem 4 serótipos (DENV1 a DENV4). Todos os serotipos podem infetar o Homem, mas o DENV2 parece ser o mais importante. A infeção por um dos serotipos protege contra uma nova infeção pelo mesmo serotipo, mas não por outro tipo de vírus do dengue. Os mosquitos Aedes aegypti são os principais transmissores do dengue. Vivem preferencialmente em zonas tropicais, nos habitats humanos, põem ovos em acumulações de água naturais ou artificiais e voam distâncias curtas. O Aedes albopictus é outra espécie que pode estar envolvida e que também vive em zonas de clima temperado. As fêmeas destes mosquitos precisam de se alimentar de sangue para completarem o seu ciclo de vida. Fazem as suas refeições principalmente durante o dia, podendo picar várias pessoas numa mesma refeição, por vezes sem se fazerem sentir. Se estiverem infetadas por vírus do dengue, podem transmitir a infeção quando picam para se alimentarem; Quando se alimentam em pessoas infetadas por dengue podem ficar infetadas e transmitir a doença a outras pessoas. Sintomas de dengue Em cerca de 80% das primeiras infeções por vírus dengue não há sintomas ou há apenas uma febre ligeira. Quando a infeção provoca sintomas, estes podem ter uma gravidade variável, o que permitia distinguir 3 tipos de doença segundo a classificação de 1997 da Organização Mundial da Saúde (OMS): A febre dengue, que é a mais comum. Geralmente é autolimitada e está associada a uma taxa de mortalidade baixa (menos de 1% dos casos). Os sintomas iniciam-se 4-10 dias depois da infeção (período de incubação) e mantêm-se durante 2-7 dias, podendo ser: Febre alta; Dores de cabeça; Dores musculares e nas articulações; Náuseas e vómitos; Erupção na pele. As duas formas mais graves de dengue: São a febre dengue hemorrágica, em que a fragilidade dos vasos sanguíneos favorece a ocorrência de hemorragias, e a síndrome de choque por dengue, que resulta da evolução da anterior. Ocorrem em cerca de 1% das infeções. Podem dar origem a várias complicações, incluindo oculares, neurológicas e cardiovasculares. São mais comuns numa infeção subsequente por outro serotipo e também nas crianças. Em 2009 a OMS reviu a classificação do dengue para facilitar a triagem e a abordagem dos doentes com dengue, passando a considerar três formas: Dengue sem sinais de alerta (que não exige internamento hospitalar); Dengue com sinais de alerta, como por exemplo vómitos persistentes, dores abdominais, hemorragias das mucosas, letargia ou irritabilidade; Dengue grave, que inclui as formas hemorrágicas e com choque. Tratamento e prevenção do dengue Para o combate do dengue é importante o diagnóstico precoce , o desenvolvimento de vacinas e a vacinação das populações dos países em que a doença é mais prevalente, a sensibilização das pessoas para a importância da doença e das medidas de proteção e o controlo dos mosquitos . Não há um tratamento antiviral específico para o dengue. O tratamento destina-se a aliviar os sintomas, e inclui medicamentos, medidas de suporte e repouso. Nos casos graves necessita de internamento hospitalar. Embora já existam vacinas contra o dengue em vários países, e outras estejam também em fases diversas de desenvolvimento, a prevenção da doença é feita principalmente com medidas de controlo da população de mosquitos e com cuidados individuais. Evitar o contacto com os mosquitos é particularmente difícil no caso do dengue, devido à atividade das fêmeas Aedes aegypti durante o dia, principalmente ao amanhecer e anoitecer, como acontece com outras espécies. Assim, nos países em que há dengue é importante: Evitar sair para o exterior nos períodos de maior atividade dos mosquitos. Usar redes protetoras nas janelas. Recorrer a ventoinhas e ar condicionado que contribuem para a proteção porque os insetos se afastam do vento. Escolher bem o vestuário para cobrir as zonas do corpo quando estiver no exterior, usando meias e sapatos fechados, mangas compridas, calças compridas e chapéu. Aplicar repelentes de insetos em toda a pele exposta (exceto à volta dos olhos e da boca) e também na roupa, seguindo sempre as indicações dos produtos, nomeadamente quanto às faixas etárias das pessoas em que podem ser usados. Eliminar quaisquer águas paradas próximo das habitações, incluindo piscinas, baldes com água, pratos de vasos de plantas, poças de água, entre outros, pois são os locais onde as fêmeas dos mosquitos põem os ovos. Fontes: Khan MB, Yang ZS, Lin CY, et al. Dengue overview: An updated systemic review . J Infect Public Health 2023;16:1625-42. Parveen S, Riaz Z, Saeed S, et al. Dengue hemorrhagic fever: a growing global menace . J Water Health 2023;21:1632-50. Paz-Bailey G, Adams LE, Deen J, et al. Dengue . Lancet 2024;403:667-82. Conheça a equipa clínica de Infecciologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.