23 de abril de 2020 Autora : Manuela Abreu A possibilidade de sofrer doença bipolar é uma preocupação frequente nas pessoas que ao longo de semanas ou dias têm variações de humor, passando da eutimia, ou variação dita normal do humor, para estados de irritabilidade ou de alegria sem motivo ou desencadeante aparente. Mas não são estas variações que caracterizam a doença bipolar. Existem vários tipos de doença bipolar? A doença caracteriza-se por episódios maníacos e episódios depressivos alternados, mais ou menos graves, sendo que na classificação mais divulgada (DSM), ocorrem pelo menos 3 formas: Perturbação bipolar tipo I, a mais grave, em que se alternam episódios de mania e episódios depressivos; Perturbação bipolar tipo II, em que se alternam episódios de hipomania e episódios depressivos; Ciclotimia, que é alternância entre sintomas hipomaníacos e sintomas depressivos, no mesmo doente e em momentos temporais distintos, que não são suficientes para preencher critérios de episódios de mania, hipomania, ou depressivos. O que são episódios maníacos, hipomaníacos e depressivos? Episódios de mania ou maníacos Mania, episódio de mania ou episódio maníaco , é um estado de humor expansivo e euforia, ou pelo contrário de extrema irritabilidade e disforia, com aceleração do pensamento, com elevado fluxo de ideias, com aumento da atividade psicomotora e de energia, sensação de grandiosidade e diminuição da necessidade de dormir. O discurso torna-se verborreico, difícil interromper e é feito num tom elevado. Nos casos mais graves, pode não haver um fio condutor, e a conversa salta de ideia em ideia. O doente graceja e os jogos de palavras com trocadilhos e rimas também são comuns. Nas fases iniciais é possível que o rendimento profissional chegue a ser superior, mas com a progressão do episódio facilmente estes doentes tornam-se ineficientes. Tendem a iniciar múltiplas tarefas sem as terminar. A autoestima está aumentada, com sentimentos de grandiosidade e excessiva confiança em si mesmos. Há uma grande desinibição social e sexual, com manifestações de familiaridade excessiva. A desinibição do comportamento com desinibição sexual faz com que sejam frequentes os comportamentos de sedução, insinuando-se, dizendo galanteios desadequados. O comportamento demasiado extrovertido pode manifestar-se também na aparência, com um vestuário vistoso com cores vivas, ou nos casos mais graves, descuidado. Durante os episódios maníacos os doentes dormem pouco, ou mesmo nada, e não sentem necessidade de dormir, pelo seu estado excitação. A ausência de crítica que caracteriza estes episódios impede os doentes de corrigirem os erros, e, quando confrontados por terceiros ou contrariados, passam rapidamente da boa disposição à ira, com manifestações hostis. Pode chegar a haver discussões e violência física, muitas vezes potenciadas pelo consumo excessivo de álcool. O alcoolismo é uma doença que coexiste com frequência na perturbação bipolar. A ausência de crítica e auto-análise do seu estado pode impelir os doentes bipolares a realizar atividades que lhes dão um prazer imediato, sem terem noção das consequências possíveis. São exemplos condução perigosa, gastos excessivos em compras de artigos repetidos ou irrelevantes, ou ainda os negócios arriscados e mesmo ruinosos. Nos casos mais graves, os doente agitam-se e podem surgir sintomas psicóticos. Nestes casos as ideias delirantes são de conteúdos vários tais como: Delírio de filiação, por exemplo acreditam pertencer a uma família real; Delírio de grandeza, sentindo que têm capacidades físicas e mentais excepcionais, poderes sobrenaturais tais como ver ou antecipar o futuro; Delírio messiânico, quando pensam que lhes foi designada uma missão de salvamento do mundo. No entanto, a produção delirante pode ainda ser de temática persecutória, se formarem a convição que as capacidades ou qualidades anteriores os tornaram objeto de inveja e prejuízo por aqueles que os rodeiam. Hipomania ou episódios hipomaníacos Os episódios de hipomania ou hipomaníacos distinguem-se da mania pela sua duração inferior, pela ausência de sintomatologia psicótica e pelo grau ligeiro a moderado de disrupção que induz na vida de relação do doente. O doente hipomaníaco está optimista e expansivo, mas não tão intensamente como na mania. A atividade psicomotora também está aumentada, o doente sente-se com mais energia e está mais produtivo a nível de trabalho. Está mais falador que o habitual e esse aspeto é notado pelos colegas ou familiares com quem convive habitualmente. E os episódios depressivos? Na maioria dos casos, depois de um episódio maníaco, o doente deprime-se quando se confronta com as consequências do seu comportamento. A transição entre estados depressivos, maníacos e hipomaníacos não é um fenómeno instantâneo mas sim gradual em que podem coexistir sintomas de ambas as linhas. Na doença bipolar os episódios depressivos são semelhantes aos da depressão unipolar (depressão “normal”), mas com algumas características distintivas: Maior inibição psicomotora, isto é, maior lentificação do pensamento e dos movimentos. Pode ter muito sono ao invés de insónia. O sentimento de culpa excessiva e desadequada é frequente, podendo atingir a forma delirante com temática de: Ruína, de que vai ficar na miséria, todos o vão abandonar; Culpa, de que todos os males do mundo são por sua causa; Existem várias formas de transição entre a mania a depressão, estados afetivos mistos, que assumem particular gravidade por estarem presentes no mesmo doente e no mesmo intervalo de tempo sentimentos de tristeza e angústia que coexistem num fundo de inquietação e agitação e que em momentos de maior impulsividade podem conduzir ao suicídio. A comorbilidade com alcoolismo, que é comum, aumenta ainda mais o risco de suicídio. É comum deteriorar-se a relação conjugal sendo frequente o divórcio, dado o contexto da anterior desinibição sexual, das relações promíscuas, dos gastos excessivos ou dos negócios ruinosos que podem ter levado a grandes perdas financeiras e delapidação do património familiar. Também o emprego fica muitas vezes comprometido, fruto do absentismo prolongado. Como é feito o diagnóstico? Mais frequentemente, a idade de início da perturbação bipolar ronda os 30 anos. A partir dos 60 anos podem também ocorrer episódios maníacos pela primeira vez, embora, nesta faixa etária seja necessário excluir outras causas que os justifiquem como demências, tumores ou traumatismos cerebrais, efeitos de alguns tratamentos com corticosteroides e antidepressivos ou alterações hormonais, como por exemplo hipertiroidismo ou síndrome de Cushing. Há ainda a considerar antecedentes familiares de doença psiquiátrica. A evolução da doença bipolar não tem um padrão homogéneo. No entanto, é conhecido que o risco de recorrência aumenta com o número de episódios maníacos. Também o número e a gravidade destes episódios estão associados a um agravamento de episódios subsequentes e a risco de demência. Tratamento da doença bipolar O tratamento da doença bipolar é feito com: Medicação; Acompanhamento psiquiátrico regular para ajustar a medicação nos casos de ineficácia ou de efeitos secundários que possam contribuir para reduzir a adesão à medicação; Intervenções psicossocias para o doente aceitar que tem a doença e que pode e deve tratar-se. Um dos principais problemas nestes doentes é que não se sentem doentes. Quando estão em fase maníaca ou hipomaníaca acham-se saudáveis e portanto, naturalmente, recusam qualquer tratamento. Por isso, dificilmente aceitam tomar medicação. A adesão ao tratamento nas fases de mania é geralmente muito baixa, apenas quando estão deprimidos aceitam tratar-se. Assim, as recaídas ou descompensação da doença são frequentes. A família tem um papel determinante no tratamento dos doentes bipolares, pelo seu apoio na toma da medicação e nas idas às consultas. São também os familiares os primeiros que podem identificar algumas das alterações atrás descritas, sobretudo a menor necessidade de horas de sono do doente, o que pode indicar o aproximar de uma viragem, e que devem avisar o médico psiquiatra para que se possa atuar mais rapidamente e assim tentar abortar a crise. Medicação na doença bipolar A medicação é a base do tratamento da doença bipolar, tanto na prevenção de recaídas, ou tratamento de manutenção, em qualquer dos tipos e episódios da doença. Os medicamentos mais importantes no tratamento de manutenção da doença bipolar são os chamados estabilizadores do humor, como o carbonato de lítio, valproato de sódio ou carbamazepina. Alguns antipsicóticos atípicos, com menos efeitos adversos, são usados nos episódios de mania dada a agitação ou sintomatologia psicótica, como o caso do aripiprazol, quetiapina, olanzapina, risperidona, cariprazina. Já nos episódios depressivos, são prescritos medicamentos antidepressivos, habitualmente inibidores selectivos da receptação da serotonina, sempre associados aos estabilizadores do humor para reduzir o risco de “viragem maníaca”. Intervenções psicossociais As intervenções psicossociais são adjuvantes importantes da medicação nos episódios depressivos e no tratamento de manutenção como profilaxia de recaídas e manutenção da qualidade de vida. Existem várias intervenções recomendadas, realizadas por profissionais da área da saúde mental: psicoeducação, terapia cognitivo-comportamental, terapia focada na família, terapia interpessoal, terapia de suporte de grupo. Destas, a psicoeducação assume-se como a mais relevante, dada a sua eficácia comprovada na prevenção de recaídas, em especial nas fases iniciais da doença. Destina-se a todos os doentes e familiares e nela procura-se fornecer toda a informação sobre a doença, os tratamentos possíveis e estratégias chave para lidar com a mesma. Principais fatores dos doentes bipolares determinantes do sucesso do tratamento Reconhecer e aceitar que estão doentes; Assegurar a adesão à terapêutica; Manter o acompanhamento regular em consulta; Fazer intervenção de prevenção do suicídio; Identificar e tratar possível alcoolismo associado; Monitorizar as horas e a qualidade do sono. Conheça a equipa de psiquiatria da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. 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