1 de agosto de 2025 Autor : Saraiva da Cunha (infecciologia) A doença de Lyme ou borreliose de Lyme é uma zoonose , ou seja, uma doença dos animais que pode ser transmitida ao homem. Foi identificada pela primeira vez na cidade de Lyme, nos Estados Unidos. É a principal infeção transmitida por carraças nas zonas de clima temperado da Europa, Estados Unidos e Ásia. Deve-se a algumas bactérias de um complexo chamado Borrelia burgdorferi . Estas bactérias são transmitidas por carraças infetadas da espécie Ixodes ricinus , a segunda mais frequente em Portugal. No nosso país esta carraça está dispersa por todo o território . Estas carraças vivem em zonas arborizadas e com humidade relativa alta , são muito resistentes e eficazes a detetar os seus hospedeiros e agarram-se quando estes passam próximo delas. Em Portugal, as formas adultas têm o seu pico de atividade nos meses de outono-inverno, enquanto a das formas imaturas (larvas e ninfas) ocorre sobretudo nos meses de primavera/verão. Nas fases mais jovens do seu ciclo de vida o Ixodes ricinus tem como hospedeiros preferenciais os roedores e as aves. Nas fases mais tardias, os veados. O homem e os animais domésticos (como os cães e os cavalos) são considerados hospedeiros acidentais . As carraças infetam-se quando se alimentam de sangue em aves e outros animais portadores de Borrelia burgdorferi. Q uando se alimentam de sangue no homem e nos animais domésticos, as carraças injetam saliva e, se estiverem infetadas, transmitem a Borrelia burgdorferi . As carraças fixam-se e picam em locais mais escondidos da pele, por exemplo os joelhos, axilas, virilhas, cintura, pescoço e cabeça. A borreliose de Lyme não é contagiosa , não se transmite entre pessoas, a transmissão é sempre feita pelo vetor Ixodes ricinus. Sintomas de doença de Lyme Os sintomas iniciais da borreliose de Lyme são variáveis e podem incluir: Sintomas não específicos, similares aos da gripe, como cansaço, mal-estar, febre, dor de cabeça, muscular e articular. Eritema migratório , que é uma reação característica na pele. Ocorre em cerca de 60%-80% das pessoas infetadas. Começa passados 3 a 30 dias na zona da pele onde a carraça se fixou e depois expande-se podendo atingir vários centímetros. A pele fica avermelhada de uma forma homogénea ou com uma zona central descolorada, que pode ou não provocar comichão ou ardor. Com o passar do tempo o vermelho pode ficar mais intenso. Normalmente o eritema migratório é uma lesão única, mas em cerca de 20% dos casos há lesões múltiplas . Quando a doença não é detetada na fase inicial e tratada adequadamente com antibióticos, pode vir a ter sintomas e complicações mais tardias. Estas ocorrem desde as seis semanas a alguns meses depois da infeção, podem manter-se durante anos e envolvem principalmente: O sistema nervoso central, que são as complicações mais graves. Chamam-se neuroborreliose de Lyme , ocorrem em cerca de 10% dos casos e podem provocar por exemplo paralisia facial e dor neuropática grave, especialmente nas pessoas mais velhas. As articulações, com inflamação articular de uma ou mais articulações; O coração; A pele, com várias lesões de eritema migratório e formação de nódulos, geralmente nas mãos, pés, joelhos e cotovelos. Diagnóstico e tratamento O diagnóstico da borreliose de Lyme baseia-se nos sintomas, na história relatada e risco de exposição a carraças e pode ser confirmado por análises de sangue. Na maioria das pessoas o tratamento da doença de Lyme, na sua fase inicial, com antibióticos é muito eficaz para controlar os sintomas e impedir a evolução da doença . Contudo, depois do tratamento podem manter-se durante vários meses ou anos sintomas como dor de cabeça e articular e fadiga, mas em geral desaparecem progressivamente. Prevenção Em Portugal apenas a neuroborreliose de Lyme é considerada uma doença de notificação obrigatória desde 2021 (Despacho n.º 1150/2021, de 28 de janeiro), razão pela qual se desconhece a verdadeira dimensão da doença de Lyme no nosso país . Não existem vacinas comercializadas contra a borreliose de Lyme em humanos, embora se encontrem várias em investigação. Os trabalhadores agrícolas e as pessoas que vivem no campo têm, naturalmente, maior risco de contrair doenças transmitidas por carraças. No entanto, as carraças Ixodes ricinus também podem ser encontradas em qualquer zona com vegetação e humidade relativa elevada, como são, por exemplo, jardins e parques urbanos, pelo que qualquer pessoa que permaneça em locais onde possam existir carraças tem risco de ficar infetada. Em zonas onde possam existir carraças, qualquer pessoa deve usar repelente e vestuário de proteção de cores claras – calças compridas, meias (de preferência por fora das calças) e sapatos -, porque torna menos provável que estas se agarrem à pele. Além disso, deve caminhar em trilhos, sempre que estes existam, porque têm menos vegetação. Manter as zonas junto das habitações e dos alojamentos de animais limpos de vegetação e cumprir os programas de desparasitação dos animais domésticos são também medidas importante para controlar a presença de carraças. Só passadas cerca de 24 horas depois de se fixarem na pele é que as carraças se alimentam de sangue e a transmissão da Borrelia ocorre geralmente após 48 horas. Portanto, um banho e uma revisão cuidada da pele (e da roupa) depois de se ter estado em zonas onde possam existir carraças é uma boa prática , devendo ser dada especial atenção às zonas mais escondidas, incluindo pregas de pele. As carraças presas na pele devem ser removidas inteiras, com o auxílio de uma pinça, pelo que poderá ser necessário procurar ajuda para o fazer. Fontes European Centre for Disease Prevention and Control. Borreliosis . Relatório REVIVE 2024. Culicídeos,ixodídeos e flebótomos: rede de vigilância de vetores. Centro de Estudos de Vetores e Doenças Infeciosas Doutor Francisco Cambournac. Lisboa: Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, 2025. Conheça a equipa clínica de infecciologia da rede Hospital da Luz . Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.