27 de outubro de 2022 Autor : Alexandre Braga ‘Dr., o nosso menino está com pintinhas e no infantário há uma doença qualquer das mãos e da boca, é grave?’ Esta é uma pergunta muito comum na prática clínica de um Pediatra, nos meses de Verão e outono. Os pais preocupam-se com uma doença que tem um nome algo estranho e que anda pelo infantário. Ora, enquanto Pediatra, poucas situações me deixam mais descansado e tranquilo do que a suspeita desta doença. Esta doença é efetivamente comum, mas de pouca gravidade clínica . O que é e como se transmite a doença mão, pé e boca? A doença mão, pé e boca é uma infeção vírica causada por múltiplos vírus , todos do género Enterovirus . É mais comum nas crianças com menos de 7 anos de idade. No entanto, pode afetar crianças de todas as idades e até mesmo os adultos. Tal como o nome sugere, afeta habitualmente as mãos, pés e boca das crianças, com ’pintinhas’ na pele (exantema), com uma distribuição característica, e aftas na boca (enantema oral). Ocorre em surtos nas creches, infantários e escolas, durante o Verão, início do Outono e por vezes também no Inverno. A via de transmissão mais importante é a fecal-oral , ou seja: através das mãos contaminadas após mudas de fraldas, e/ou nas visitas ao pote (ou bacio) e sanita. A transmissão pode também ocorrer através de contato com saliva, secreções respiratórias (tosse) e, por vezes, pelo líquido das lesões na pele. Entre a infeção e a manifestação dos sintomas, o chamado período de incubação, ocorrem em média 3 a 5 dias. Por isso, não, não foi a corrente de ar de ontem nem foi porque a criança dormiu destapada na noite anterior. É uma doença causada por um vírus, vírus esse que veio de outra criança infectada e cuja transmissão ocorreu há alguns dias atrás. Na primeira semana depois de se estar infetado, a probabilidade de transmissão é maior, mas o contágio continua a ser possível durante algumas semanas, principalmente pelas fezes, onde o vírus pode ser encontrado até dois meses após a infeção. Sintomas e diagnóstico A doença mão, pé e boca manifesta-se tipicamente por lesões que primeiro se assemelham a pequenas manchas vermelhas (máculas e/ou pápulas) que depois evoluem para bolhas com líquido (vesículas). A quantidade destas lesões não é igual em todas as crianças infetadas, nem a sua distribuição. Mais tipicamente aparecem na língua e interior da boca como aftas; Nas mãos e pés, embora nem sempre as crianças as tenham nestas três regiões; Por vezes, ocorrem também lesões nas nádegas e na região genital. Outros sintomas comuns desta infeção são: Pode ou não existir febre, quando existe habitualmente não é alta; Dor ao engolir, com diminuição do apetite ou mesmo recusa em comer ou beber; Mal-estar; Cólicas abdominais. As lesões são geralmente não pruriginosas (sem comichão) e indolores , embora em alguns casos, a criança se possa queixar de dor ou desconforto. O diagnóstico é feito principalmente com base nos sintomas e na história da doença, não sendo habitualmente necessário realizar quaisquer exames de diagnóstico. O prognóstico é excelente, com recuperação total em uma semana na maioria dos casos . Tratamento da doença mão, pé e boca Não existe um tratamento específico para esta doença. Em geral, é auto-limitada e desaparece habitualmente em uma sema na. No entanto, os seus sintomas são incomodativos e poderá ser necessário um tratamento dirigido ao alívio dos sintomas , que pode incluir: Antipiréticos; Analgésicos orais e/ou tópicos; Recomendação de optar por bebidas frias e dieta mole fria para aliviar a dor ao engolir. É também importante assegurar que são bebidos líquidos em quantidade suficiente para manter um estado de hidratação adequado. Por vezes as crianças recusam-se mesmo a beber devido às aftas que lhe causam dor. Esta situação é das poucas alturas em que poderá ouvir o seu pediatra a sugerir algo habitualmente impensável: Beber um chá açucarado frio ou comer um sorvete! A explicação é simples: o frio e gelo ajudam com a dor e é uma forma de ingerirem líquidos. Prevenir o contágio São medidas que ajudam a reduzir o risco de ficar infetado e/ou de transmitir o vírus da doença mão, pé e boca: Lavar bem as mãos com água e sabão, especialmente depois de mudar fraldas a uma criança, de usar a casa de banho, de espirrar ou tossir; Evitar tocar nos olhos, nariz e boca sem lavar primeiro as mãos; Manter limpas e desinfetadas as superfícies, objetos e brinquedos tocados por crianças ou outras pessoas infetadas; Evitar partilha de objetos e contacto próximo desnecessário com pessoas infetadas. Claro que, esta é uma daquelas situações em que falar é fácil . É muito complicado manter uma boa higiene das mãos quando estamos a falar de crianças (ou mesmo adultos). Quem tem filhos sabe que não é fácil manter a higiene adequada mesmo apenas com uma ou duas crianças, então o que dizer quando estão 10 ou 15 crianças juntas num infantário, todas as correrem e a colocarem as mãos na boca umas das outras. Em resumo… A doença mão, pé e boca é uma doença comum, de diagnóstico clínico e sem necessitar de exames complementares de diagnóstico. É bastante benigna e sem gravidade clínica, embora por vezes possa ser incómoda para a criança, principalmente pelas queixas de dor na cavidade oral e recusa na alimentação. A duração é habitualmente inferior a uma semana, com tratamento dirigido às queixas e de muito bom prognóstico. Costumo dizer, em tom de brincadeira, que se todas as doenças fossem como esta, os Pediatras não seriam necessários. Por isso, da próxima vez que houver esta suspeita na creche ou infantário, recorra ao seu Pediatra e discuta a situação clínica e coloque as suas dúvidas e questões, mas descanse ! É uma doença com muito bom prognóstico e brevemente a sua criança estará outra vez a correr pela casa a fazer das suas traquinices. Conheça a equipa clínica de pediatria da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.