2 de junho de 2026 Autor : Saraiva da Cunha (infecciologia) O Ébola é uma doença viral rara, grave e frequentemente fatal, causada por vírus da família Filoviridae , do género Orthoebolavirus. Transmite-se por contacto direto com sangue, fluidos corporais, tecidos e órgãos de pessoas e animais infetados. O período de incubação varia entre 2 e 21 dias; não há transmissão antes do aparecimento de sintomas. Os primeiros sintomas são inespecíficos e incluem febre, dores musculares, cansaço e dor de cabeça. A taxa de mortalidade é elevada (cerca de 50%, mas varia com a espécie do vírus). Há alguns medicamentos eficazes e vacinas disponíveis, mas apenas para o Orthoebolavirus Zaire . Os surtos de Ébola ocorrem em regiões de África e estão associados a contextos de fragilidade dos sistemas de saúde. A prevenção baseia-se em medidas rigorosas de controlo de infeção, rastreio de contactos, isolamento de casos e práticas seguras em cuidados de saúde e funerais. O risco para a população geral fora das áreas afetadas é muito baixo. O que é e o que causa a doença por vírus Ébola? A doença por vírus Ébola, conhecida correntemente apenas por Ébola, é uma doença hemorrágica rara, mas grave e potencialmente fatal , causada por vírus do género Orthoebolavirus ( vírus Ébola ). Foi documentada pela primeira vez em 1976, em dois surtos simultâneos, no norte do Zaire (atualmente República Democrática do Congo) e no Sudão do Sul. Nessa altura, foi identificado um novo vírus ao qual foi dado o nome Ébola, em referência a um rio da região da República Democrática do Congo onde foi isolado. Mais tarde, verificou-se existirem algumas diferenças entre os vírus envolvidos nos dois surtos, que passaram então a ser designados Orthoebolavirus Zaire e Orthoebolavirus Sudan . Desde então ocorreram vários surtos de Ébola. Há várias espécies de Orthoebolavirus e são conhecidas quatro que podem provocar doença grave no homem: Orthoebolavirus Zaire, Orthoebolavirus Sudan, Orthoebolavirus Bundibugyo, Orthoebolavirus Taï Forest. O maior surto de Ébola ocorreu nos anos 2013-2016 na Guiné, Libéria e Serra Leoa. Foi causado pelo Orthoebolavirus Zaire , que é a espécie mais agressiva. Registaram-se cerca de 28 mil casos de doença e 11 mil mortes. Neste período, foram reportados 9 casos na Europa: 3 na Alemanha, 3 em Espanha, 1 em Itália, 1 na Noruega e 1 no Reino Unido. Até hoje Portugal nunca notificou casos de Ébola. A doença por vírus Ébola é de notificação obrigatória e os vírus associados são classificados no nível máximo de biossegurança (só devem ser manipulados em laboratórios com nível de segurança BSL-4, que não existem em Portugal). Quais são as particularidades do surto de Ébola de 2026? Em maio de 2026 foi identificado um surto de doença na República Democrática do Congo, causado por Orthoebolavirus Bundibugyo , com casos associados no Uganda. A 17 de maio de 2026, a Organização Mundial da Saúde declarou este surto como uma emergência de saúde pública de importância internacional (ESPII), o nível mais elevado de alerta das normas internacionais, o que reflete o risco de propagação para outros países e a necessidade de uma resposta coordenada global. De acordo com os dados disponíveis, foram notificados casos confirmados e suspeitos em várias províncias do Congo, bem como casos importados no Uganda. A evolução do surto ocorre num contexto complexo que dificulta a deteção precoce dos casos e o controlo da transmissão, marcado por: Conflitos na região; Mobilidade elevada das populações; Limitações no acesso a cuidados de saúde. Importa salientar que: O número real de casos pode ser superior ao notificado; As cadeias de transmissão podem não estar totalmente identificadas; Não existem, até à data, vacinas ou tratamentos específicos aprovados para esta variante do vírus. O Orthoebolavirus Bundibugyo foi identificado pela primeira vez em 2007 na região de Bundibugyo, no Uganda e tem uma taxa de mortalidade associada de 30%-50%. Como ocorre a infeção por vírus Ébola? Os vírus Ébola têm como reservatório natural algumas espécies de morcegos existentes em África. Já foram também isolados em mamíferos de várias espécies, incluindo primatas e espécies caçadas e usadas como alimento, que estiveram na origem de infeções humanas. A infeção humana ocorre principalmente por contacto direto de lesões da pele e mucosas com sangue, outros fluidos corporais, órgãos e tecidos de pessoas e animais infetados, incluindo cadáveres, ou com superfícies e objetos contaminados. A transmissão pode ocorrer também: Através do sémen durante vários meses depois da recuperação clínica; De mãe para filho durante a gravidez, o parto e a amamentação. Geralmente, os surtos iniciam-se após contacto humano com animais infetados. Posteriormente são mantidos pela transmissão entre pessoas sintomáticas. As pessoas sem sintomas não transmitem a infeção de forma relevante. Há grupos com maior risco de infeção por vírus Ébola? Qualquer pessoa pode ficar infetada quando é exposta a vírus Ébola, mas há grupos de risco particulares : Profissionais de saúde que cuidam de pessoas infetadas, particularmente quando não usam, por qualquer razão, os equipamentos de proteção individual adequados. Familiares e cuidadores de doentes devido ao contacto direto com fluidos corporais, particularmente quando não estão sensibilizados para a gravidade da doença e para a necessidade de equipamentos de proteção. Participantes em cerimónias fúnebres, particularmente em culturas em que tocar ou lavar os cadáveres faz parte dos rituais. Pessoas que contactam ou manipulam animais ou carne de animais selvagens potencialmente infetados. Populações em regiões de surtos ativos, especialmente em contextos de conflito. Contactos próximos de pessoas infetadas. O risco de infeção é muito baixo para pessoas fora das áreas afetadas e sem contacto direto com casos. Período de incubação, sintomas, diagnóstico e tratamento Entre a infeção e os primeiros sintomas de Ébola (período de incubação) podem decorrer 2 a 21 dias, com uma média de 6,4 dias. Até se manifestarem os sintomas, uma pessoa infetada não transmite a infeção. Os sintomas surgem subitamente e não são específicos , assemelhando-se aos de uma gripe, incluindo: Febre alta Cansaço Dores musculares e articulares Dor de cabeça Pode seguir-se uma debilidade cada vez mais marcada, perda de apetite e sintomas digestivos como náuseas, vómitos e diarreia, por vezes com sangue. Nem todos os doentes têm hemorragias externas ou internas visíveis, mas estas podem ocorrer nas fases mais avançadas. A evolução para choque e falência de órgãos é frequente nos casos mortais. A suspeita clínica baseia-se no contexto epidemiológico (viagens, exposição a casos ou animais). O diagnóstico é sempre confirmado em laboratório , através da deteção do material genético do vírus. Existem alguns testes rápidos de deteção de antigénios para uso profissional, mas não existem autotestes aprovados para uso doméstico. O tratamento é sobretudo com medidas de suporte e dirigidas ao controlo de sintomas e complicações . Existem terapêuticas eficazes com anticorpos monoclonais, mas apenas para infeções por Orthoebolavirus Zaire . Existem novos medicamentos em fase de desenvolvimento. A taxa de mortalidade por Ébola é de cerca de 50% dos doentes infetados, com grandes variações relacionadas principalmente com a espécie de vírus. Para a doença causada pelo vírus Zaire estima-se que seja de 60%-90% e para o Orthoebolavirus Bundibugyo de 30%-50%. Após a recuperação, o vírus pode persistir em alguns fluidos corporais, como o sémen, durante períodos prolongados, sendo possível a transmissão nesses casos. Controlo de surtos e prevenção da doença por vírus Ébola Existem duas vacinas autorizadas em vários países, mas apenas contra o Orthoebolavirus Zaire. Habitualmente são vacinados os profissionais de saúde em regiões de risco e grupos populacionais específicos em estratégias de contenção de surtos. O controlo de surtos de Ébola baseia-se em medidas de prevenção e controlo de infeção com vista a interromper as cadeias de transmissão humana e conter os surtos: Isolamento e tratamento de casos confirmados; Rastreio e monitorização de contactos; Sensibilização e educação das populações; Vacinação em anel (quando aplicável) e de grupos de risco. Aplicação rigorosa de medidas de controlo de infeção em unidades de saúde; Utilização adequada de equipamentos de proteção individual; Práticas seguras em funerais; Embora possam sobreviver durante algum tempo em fluidos corporais e materiais biológicos, os Orthoebolavirus são sensíveis a: Hipoclorito de sódio (lixívia) e outros desinfetantes; Calor: aquecimento a 60ºC durante 60 minutos e fervura durante 5 minutos; Radiação gama. Pessoas que tenham recuperado de Ébola não devem ser dadoras de sangue, outros tecidos ou células. No caso dos homens, não devem ter relações sexuais desprotegidas até ser documentada a ausência do vírus no sémen em dois testes consecutivos ou, caso não seja possível realizar os testes, durante um período mínimo de um ano. Nota à data de 1 de junho de 2026 Até 31 de maio, o Congo tinha 282 casos confirmados, 42 mortos e 220 casos suspeitos. O Uganda tinha 9 casos confirmados e 1 morto. Para preparar o SNS para esta nova ameaça a Direção-Geral da Saúde emitiu em 30 de maio a norma 002/2026 : Surtos de doença por vírus Ébola ou Marburg | Revisão de procedimentos – abordagem clínica e de saúde pública de casos suspeitos de febres hemorrágicas por filovírus. Fontes European Centre for Disease Prevention and Control. Ebola disease outbreak in the Democratic Republic of the Congo and Uganda . 1 de junho 2026. European Centre for Disease Prevention and Control. Factsheet about Ebola disease . Umar SK, Diggle MA. The Ebola virus - going beyond the bleeding edge . J Med Microbiol 2025;74:001998. World Health Organization. Ebola disease . World Health Organization. Ebola. The Democratic Republic of Congo 2026 . Conheça a equipa clínica de infecciologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.