12 de março de 2019 Autora : Raquel Gil-Gouveia Segundo a Organização Mundial de Saúde é a 8ª causa a nível mundial de anos vividos com incapacidade , quando consideradas todas as doenças conhecidas no mundo. Esta doença crónica é incurável e é um problema de saúde pública. Atinge uma percentagem significativa da população e tem um impacto importante na qualidade de vida de quem dela sofre. No entanto, muitas vezes, as pessoas com enxaqueca não procuram cuidados médicos. Desta forma, desconhecem a existência de tratamentos eficazes que podem minimizar as suas queixas e melhorar, de um modo muito significativo, a sua qualidade de vida. O que é a enxaqueca e quem pode afetar? A enxaqueca é um tipo especial de dor de cabeça , com crises que duram desde algumas horas até vários dias. Repetem-se com uma cadência que pode ou não ser regular, desde 1 ou 2 vezes por ano até várias vezes por mês. Além disso, apresentam uma intensidade variável. A enxaqueca pode iniciar-se logo na infância mas é mais comum entre os 20 e os 30 anos, passando a ser mais rara a partir dos 40 anos de idade. Afeta as mulheres 2 a 3 vezes mais do que os homens. Estima-se que 1 em cada 7 adultos tenha enxaqueca. Quais são as causas da enxaqueca? A enxaqueca é uma doença do cérebro , em que a dor se associa a uma dilatação dos vasos sanguíneos que pode ter diversas causas, ainda mal conhecidas. A enxaqueca parece sofrer alguma influência genética e é hereditária . Assim, os familiares de pessoas com enxaqueca têm maior probabilidade de também terem a doença. Quando um dos pais tem enxaqueca, o risco de um filho ter a doença é de 50%. No caso de ambos os pais terem enxaqueca, o risco sobe para 75%. Dado que a enxaqueca é mais frequente nas mulheres, se a mãe é a pessoa afetada, as suas filhas têm cerca de 66% de probabilidade de desenvolver a doença. As pessoas com enxaqueca têm uma predisposição genética para ter dores de cabeça. Os estudos de investigação não identificam um gene único a causar a enxaqueca , mas sim, várias variantes genéticas diferentes. As variantes genéticas têm em comum o facto de conferirem uma predisposição para ter dores de cabeça , na presença de determinados fatores desencadeantes. Estão identificados diversos fatores que, embora não sejam a causa da enxaqueca, contribuem para desencadear as crises de enxaqueca ou para as agravar. Por outras palavras, são fatores que facilitam o aparecimento de uma crise de enxaqueca. Estes fatores desencadeantes das crises não são iguais para todas as pessoas com enxaqueca e vão variando ao longo da vida. Se for possível evitar a exposição a esse fatores conseguirá reduzir-se o número de vezes que se tem crises de enxaqueca, embora nem sempre isso seja possível. Os fatores que mais frequentemente desencadeiam as crises de enxaqueca são: Fatores hormonais (nas mulheres) – menstruação, ovulação, tratamentos hormonais ou a toma de pílula anticoncetiva; Fatores emocionais – ansiedade, stress, relaxamento após stress e depressão; Alterações do sono – dormir de menos ou dormir demais; Fatores ambientais – alterações meteorológicas, viagens prolongadas ou exercício físico; Exposição a estímulos olfativos, visuais ou sonoros – cheiros intensos a perfumes, tintas, tabaco, exposição a luz ou ruídos intensos e fatores alimentares como jejum prolongado, ingestão de bebidas alcoólicas ou excesso de cafeína. Quais são sintomas mais comuns da enxaqueca? As crises de enxaqueca podem dividir-se em 4 fases, embora numa crise possam não ocorrer todas. Fase inicial Na fase inicial alguns doentes podem ter, entre outros, os seguintes sintomas premonitórios de cefaleia: Alterações do comportamento (ansiedade e irritação); Sintomas neurológicos (tonturas e perturbações da visão); Sintomas gerais (cansaço e dores musculares); Alterações do comportamento alimentar (apetência por alimentos específicos e fome). Cerca de 60% das pessoas que têm enxaqueca identificam estes sintomas, que, na mesma pessoa, são em geral semelhantes. Fase de aura Ainda antes da fase de cefaleia, pode ocorrer uma fase de aura , que se caracteriza por: Perturbações da visão (cintilação e manchas); Dormências dos membros; Dificuldade em falar. A aura manifesta-se em cerca de 15% das pessoas que têm enxaqueca , embora estas também possam ter crises de enxaqueca sem aura. Fase de cefaleia A fase de cefaleia é a mais incomodativa. A dor de cabeça é, em geral, unilateral, intensa e, mais habitualmente, latejante . Acompanha-se mais frequentemente de: Enjoo (com ou sem vómitos); Perda de apetite; Intolerância à luz e ao ruído. A dor pode aumentar com: Movimentos da cabeça; Esforço físico; Luz; Ruídos ou odores. Por outro lado, a dor pode aliviar com: Sono; Repouso. A capacidade de concentração e a memória também são afetadas. Podem ainda estar presentes outros sintomas. Fase da resolução As crises de enxaqueca são autolimitadas , ou seja, passado algum tempo a dor de cabeça desaparece sozinha. No entanto, nesta fase de resolução, o doente pode ainda manifestar alguns sintomas, como: Sensibilidade à luz e aos movimentos da cabeça; Cansaço; Dificuldade de concentração. Como se faz o diagnóstico da enxaqueca? Quando há sintomas típicos de enxaqueca e existe história familiar desta doença, o diagnóstico baseia-se, essencialmente, na história e no exame clínico do doente. Em muitos doentes com enxaqueca, esta nunca foi diagnosticada e tratada adequadamente. Assim, todas as pessoas que habitualmente têm dores de cabeça devem procurar manter um registo da sua ocorrência, características e forma como as trataram. Estas informações podem ser uma ajuda valiosa para determinar o melhor plano de tratamento. Como se trata a enxaqueca? Embora a enxaqueca seja uma doença incurável, tem tratamento. Este visa eliminar a dor e os restantes sintomas durante as crises, bem como diminuir a frequência das crises e melhorar a qualidade de vida dos doentes. O tratamento da enxaqueca inclui medicamentos (tratamento farmacológico) e a implementação de medidas não farmacológicas que ajudem a controlar os fatores que desencadeiam ou agravam as crises. Tratamento farmacológico No diagnóstico e tratamento de enxaquecas e cefaleias podem intervir diversos especialistas. A neurologia é uma especialidade com uma intervenção muito importante nesta doença. O tratamento farmacológico da enxaqueca pode ser de 2 tipos: Tratamento de crise ou tratamento sintomático – este tratamento é realizado durante uma crise de enxaqueca. Os medicamentos usados têm como objetivo reduzir ou eliminar a dor e outros sintomas e, assim, encurtar e interromper essa crise, para que os doentes recuperem a sua funcionalidade normal o mais rapidamente possível; Tratamento profilático – este tratamento é realizado durante períodos prolongados, muitas vezes, diariamente. Tem como objetivo diminuir a frequência, duração ou intensidade das crises e aumentar a eficácia dos tratamentos de crise. É mais usado quando as crises são frequentes e acompanhadas de aura, entorpecimento ou incapacidade marcada. Uma vez que as crises de enxaqueca podem ser desencadeadas e agravadas por diversos fatores, a adoção de medidas que ajudem a identificar e controlar esses fatores contribui decisivamente para melhorar a qualidade de vida dos doentes. De um modo geral, as pessoas com enxaqueca devem implementar no seu dia a dia uma série de medidas simples. Estas poderão contribuir para diminuir as vezes que têm crises de enxaqueca. Medidas a implementar no dia a dia: Adote um estilo de vida saudável; Pratique exercício físico com regularidade; Evite a fadiga e o cansaço; Ingira a quantidade suficiente de água; Mantenha horários regulares de sono, evitando a privação de sono (dormir menos horas do que o necessário) mas também, evite dormir demais; Cumpra um padrão e horário regular de refeições; Identifique e evite a utilização de medicamentos que podem agravar a enxaqueca (p.e., contracetivos hormonais); Identifique fatores de stress e ansiedade e tente controlá-los usando, p.e, técnicas de relaxamento, psicoterapia, acupuntura ou outras. Enxaqueca e alimentação: há relação? É referido frequentemente que a alimentação e alguns alimentos podem desencadear crises de enxaqueca. No entanto, isto apenas sucede numa pequena percentagem de pessoas. Os alimentos mais frequentemente apontados como desencadeantes de crises são: As bebidas alcoólicas (e, entre elas, o vinho tinto); A cafeína em excesso; Os produtos curados (bacon, por exemplo); A comida chinesa; Os citrinos (laranjas, limões e tomate); As gorduras; Os lacticínios; Os condimentos; O chocolate. Este é, no entanto, é um assunto controverso . Nas pessoas com enxaqueca que fizeram dietas restritivas (deixaram de comer alimentos ou grupos de alimentos que se pensava, poderem provocar crises de enxaqueca), os resultados obtidos foram contraditórios — ou seja, algumas pessoas melhoraram, mas outras ficaram na mesma ou até pioraram. Nesse sentido, deve usar bom senso e retirar apenas um alimento, se notar que cada vez que o consome tem uma crise de enxaqueca. A alimentação dos indivíduos com enxaqueca deve ser uma alimentação saudável , evitando os excessos, não consumindo chá ou café em demasia. Verificou-se que quem ingeria pouca água tinha mais crises de enxaqueca. Desta forma, é aconselhável beber muita água. É muito importante evitar o jejum prolongado e comer regularmente, pelo menos, de 3 em 3 horas. O jejum prolongado e o não tomar o pequeno-almoço são desencadeantes frequentes das crises de enxaqueca, sobretudo, nas crianças e jovens, situação que facilmente se pode evitar. Conheça a equipa de neurologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.