13 de agosto de 2020 Autora : Inês Brás Marques Na esclerose múltipla é afetada a propagação normal dos impulsos nervosos. Nesta doença, há uma lesão da mielina , proteína que envolve as células nervosas (neurónios) e que tem um papel muito importante na propagação daqueles impulsos. Nos nervos atingidos, a propagação dos impulsos nervosos é comprometida. A esclerose múltipla é a doença do sistema nervoso mais comum nos adultos jovens e é mais frequente nas mulheres. Habitualmente os sintomas têm início entre os 20 e os 40 anos de idade. A doença pode ter duas formas : Na maioria dos casos (cerca de 80%), a esclerose múltipla tem episódios de agravamento neurológico, chamados surtos, intervalados por períodos sem novos sintomas (remissão). Esta forma da doença chama-se esclerose múltipla surto-remissão. Com menor frequência, a esclerose múltipla pode apresentar-se com agravamento neurológico progressivo e contínuo ao longo do tempo. Esta forma chama-se esclerose múltipla primária progressiva. Qual é a causa da esclerose múltipla? A esclerose múltipla é uma doença autoimune . Nestas doenças, o sistema imunitário (sistema de defesa do organismo) ataca as células do próprio organismo, o que se designa por resposta autoimune. No caso da esclerose múltipla, a resposta autoimune é dirigida ao cérebro e à medula espinhal , mais especificamente à camada de mielina que reveste os axónios de muitos neurónios. Não se sabe exatamente o que é que desencadeia esta resposta anormal do sistema imunitário. No entanto pensa-se que resulta da combinação de fatores genéticos e ambientais, como certas infeções virais. Quais são os sintomas e como se faz o diagnóstico? Os sintomas da esclerose múltipla podem afetar qualquer parte do corpo e variam de pessoa para pessoa. Os sintomas iniciais mais comuns são: Alterações da sensibilidade (formigueiro, dormência); Diminuição da força das pernas ou braços; Dificuldade em andar, desequilíbrio; Alterações da visão (dor no olho, diminuição da visão, visão dupla); Alterações urinárias (dificuldade em controlar a bexiga). No decorrer da doença podem ocorrer outros sintomas, como a fadiga (cansaço) e dificuldades cognitivas. Usualmente os sintomas vão agravando ao longo de uma a duas semanas, seguindo-se uma recuperação gradual, que pode ser completa ou parcial. O diagnóstico de esclerose múltipla baseia-se nos sintomas e alterações clínicas características desta doença e nos resultados dos exames complementares de diagnóstico. Classicamente, o diagnóstico era feito quando uma pessoa sofria dois episódios (surtos) separados no tempo, com sintomas relativos a partes diferentes do sistema nervoso. Atualmente, pode ser feito mais cedo, se após o primeiro surto houver alterações nos exames que permitam o diagnóstico. Quais são os exames úteis para o diagnóstico: Ressonância magnética cerebral e medular : obtém imagens detalhadas do cérebro e da medula espinhal identificando as lesões características da esclerose múltipla. Pode ser necessário administrar um produto de contraste (gadolínio) por via intravenosa para verificar se as lesões têm inflamação ativa. Punção lombar : é obtida uma pequena quantidade de líquido cefalorraquidiano usando uma agulha que é inserida entre as vértebras na região lombar até ao local onde este líquido circula à volta da medula espinhal. A análise do líquido cefalorraquidiano permite identificar alterações que sugerem o diagnóstico de esclerose múltipla e afastar outras possíveis causas para os sintomas neurológicos. Potenciais evocados : Estes testes envolvem o uso de pequenos elétrodos que são adaptados na cabeça para monitorizar a atividade cerebral em resposta a estímulos visuais ou auditivos. Como se trata a esclerose múltipla Na esclerose múltipla são feitos dois tipos de tratamentos : Tratamento dos surtos Os surtos de esclerose múltipla tratam-se com corticoides em altas doses dados por via endovenosa. Os corticoides são medicamentos anti-inflamatórios potentes, com um efeito rápido em melhorar os sintomas. Geralmente o tratamento dura 3 a 5 dias e os efeitos secundários são raros. Tratamento preventivo Estes tratamentos são feitos com os chamados medicamentos modificadores de doença e são tratamentos crónicos , ou seja, para fazer continuamente durante um longo período. Têm como objetivo reduzir a resposta do sistema imunitário e assim reduzir a reposta autoimune e a probabilidade de ocorrerem surtos. Atualmente existem vários medicamentos disponíveis e podem ser administrados de várias formas, por exemplo em comprimidos, injeções subcutânea ou intramuscular e tratamentos intravenosos. se podem tomar em casa, e outros que são feitos no hospital. A escolha do medicamento depende de vários fatores, incluindo a gravidade da doença, os efeitos adversos possíveis e também a escolha pessoal. Viver com esclerose múltipla A esclerose múltipla é uma doença do sistema nervoso mais comum nos adultos jovens. Com os cuidados adequados é possível ter uma via ativa e saudável. A esclerose múltipla habitualmente não reduz a esperança média de vida. Os medicamentos atualmente usados no tratamento ajudam a prevenir novos surtos, diminuindo a ocorrência de novos sintomas e o acumular de alterações neurológicas ao longo do tempo. É possível estar meses ou vários anos sem novos surtos. No entanto, é uma doença muito variável e a evolução é diferente de pessoa para pessoa , sendo necessário ajustar o tratamento a cada caso. Durante o acompanhamento das pessoas com esclerose múltipla, é comum o envolvimento de várias especialidades médicas consoante os sintomas (por exemplo, medicina física e reabilitação, urologia, oftalmologia, psiquiatria, entre outras) e também outras áreas como a psicologia e a nutrição. São realizados periodicamente exames de diagnóstico para avaliar a evolução da doença. Esclerose múltipla e gravidez As mulheres com esclerose múltipla podem engravidar . Recomenda-se o planeamento da gravidez, envolvendo o obstetra e o neurologista. Alguns medicamentos usados no tratamento da esclerose múltipla podem ser usados na gravidez, caso seja necessário. Em casos em que a doença está bem controlada, pode ser ponderado suspender temporariamente o tratamento durante a gravidez. Conheça a equipa de neurologia da rede Hospital da Luz. 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