26 de março de 2021 Autor : Carlos Fernandes A utilização de esteroides anabolizantes em doses acima das fisiológicas por atletas de várias áreas com o objetivo de melhorar o seu desempenho foi banida pelo Comité Olímpico Internacional em 1967. Atualmente, a utilização indevida destes compostos está difundida pela população em geral, tem efeitos prejudiciais marcados e é uma questão de saúde pública preocupante. A maioria dos utilizadores de esteroides androgénicos anabolizantes são homens (cerca de 80%), seja num contexto desportivo não competitivo, por com motivações estéticas, desejo de aumentar a performance física ou contrariar os efeitos do envelhecimento natural. Estima-se que a prevalência de consumo destes compostos no sexo masculino seja de 1%-5%, e bastante inferior no sexo feminino. Em Portugal, os poucos dados disponíveis foram obtidos num estudo realizado em ginásios do grande Porto, que revelou que mais de 60% dos inquiridos já tinham usado substâncias com o objetivo de aumentar a performance física, sendo os esteroides androgénicos anabolizantes os mais frequentemente utilizados. O que são esteroides anabolizantes? Os esteroides androgénicos anabolizantes, muitas vezes referidos apenas como esteroides anabolizantes ou esteroides , são compostos sintéticos com uma estrutura química semelhante à testosterona e têm efeitos : Anabolizantes, ou seja, de aumento da massa muscular e diminuição da massa gorda; Androgénicos, ou seja, de estimulação do desenvolvimento de características sexuais masculinas. A intenção de uso esteroides anabolizantes fora de qualquer indicação médica é tirar partido dos seus efeitos anabolizantes. No entanto, os efeitos biológicos destes compostos devem-se à sua ligação a um único tipo de recetor androgénico existente. Por isso, é impossível separar por completo os efeitos anabolizantes dos efeitos androgénicos . A testosterona é a principal hormona sexual masculina. Fisiologicamente os seus efeitos são consequentes à conversão em dehidrotestosterona, que tem uma potência androgénica bastante superior à da testosterona. São exemplos de esteroides anabolizantes usados em formulações injetáveis: Cipionato de testosterona Enanatato de testosterona (Testoviron®) Undecanoato de testosterona (Nebido®) Proprionato de testosterona Decanoato de nandrelona (Deca-Durabolin®) Undecanoato de nandrelona (Dynabolan®) Cipionato de nandrelona (Dynabol®) Fempropionato de nandrolona (Durabolon®) Undecilenato de boldenona (Equipoise®) Esteres de trenbolona (Trenabol®) São exemplos de esteroides anabolizantes em formulações de administração oral: Estanozol (Winstrol®) Metiltestosterona Mesterolona (Proviron®) Oxandrolona (Anavar®, Oxandrin®) Oximetalona (Anadrol®) Metandrostenolona (Dianabol®) Como são obtidos os esteroides anabolizantes usados? Os medicamentos que contêm esteroides androgénicos e cuja comercialização está autorizada são sujeitos a prescrição médica e têm indicações precisas . Estes fármacos não se destinam a pessoas com níveis hormonais normais, nem aquelas indicações abrangem objetivos estéticos, de desempenho físico, capacidade desportiva ou outros semelhantes. Por isso, quase sempre, quem procura ou usa esteroides anabolizantes nestas circunstâncias é muito reticente em abordar a questão junto de médicos. A maioria procura informação online ou junto de outros utilizadores. Desenvolve fortes opiniões sobre o assunto, muito embora com bases não científicas e, frequentemente, apenas derivadas de relatos de experiências pessoais. A vulgarização do uso indevido destes compostos levou também a que a sua produção e aquisição fujam das normas. A produção é feita, em muitos casos, em locais não autorizados, o que põe em causa o controlo do processo de fabrico e segurança dos produtos. A aquisição é conseguida quase sempre de forma ilegal, através de contacto online ou conhecimentos pessoais. Quais são os efeitos do uso de esteroides androgénicos anabolizantes? Todas as pessoas desenvolvem sintomas consequentes ao consumo de esteroides anabolizantes ou relacionados com a interrupção da sua toma. Os sintomas que podem levar alguém que usa esteroides anabolizantes a recorrer a uma consulta médica ou que podem ser observados durante uma consulta são inúmeros. Podem ser mais ou menos marcados, dependendo das doses e do tempo de utilização, de se estar ainda a tomar ou de se ter interrompido a toma. São exemplos: Sintomas musculo-esqueléticos : como desproporção muscular corporal e tendinopatias; Sintomas endocrinológicos , incluindo sinais de hipogonadismo em homens, com ginecomastia, alteração da líbido, disfunção erétil, infertilidade ou atrofia testicular; Sintomas dermatológicos : como acne grave, estrias, alopecia androgénica e reações no local de injeção quando são usados por esta via; Sintomas cardiovasculares : hipertensão arterial, disfunção diastólica, miocardiopatia, enfarte do miocárdio ou arritmia. Sintomas psiquiátricos : depressão, ansiedade, aumento da agressividade, comportamento violento ou insónia. Sabe-se que cerca de um terço dos utilizadores desenvolve dependência Os utilizadores com dependência têm maior probabilidade de abuso de outras substâncias, como álcool, tabaco e drogas, e de doenças mentais. Dependendo do tipo de esteroide anabolizante, da dose e do esquema de toma, podem ocorrer alterações nos resultados de exames laboratoriais , por exemplo em: Hemograma, com aumento do hematócrito; Perfil lipídico, com redução dos níveis do colesterol das lipoproteínas de alta densidade (HDL) e aumento das lipoproteínas de baixa densidade (LDL); Função hepática, com a aumento das transaminases; Supressão das gonadotrofinas hormona luteotrófica (LH) e hormona estimulante dos folículos (FSH); Testosterona e estradiol aumentados ou diminuídos dependendo do tipo de anabolizantes e dos ciclos utilizados; Alterações do espermograma, com diminuição da espermatogénese (formação de espermatozoides). Abordagem terapêutica A abstinência de consumo de esteroides androgénicos anabolizantes é indispensável para a recuperação . A alteração do funcionamento do eixo hipotálamo-hipófise-gónadas, que controla a produção fisiológica de hormonas sexuais, induzida pela toma de esteroides anabolisantes faz com que seja frequente ocorrer hipogonadismo hipogonadotrófico na sequência da cessação da sua toma. Este hipogonadismo pode manifestar-se, por exemplo por: Diminuição relativa da força muscular; Diminuição da performance física; Alteração da líbido; Disfunção erétil; Infertilidade; Atrofia testicular. A recuperação pode acontecer de forma espontânea. No entanto, o tempo necessário é muito variável e os períodos sintomáticos podem ser bastante prolongados enquanto não acontece. Nos casos em que os sintomas de hipogonadismo são mal tolerados , a estimulação farmacológica da produção hipofisária de hormona luteinizante (LH) pode ser uma possibilidade. Pode-se ponderar, em alguns casos, um esquema de desmame que terá como objetivo manter valores de testosterona normais antes da suspensão completa. Caso ocorra ginecomastia , o seu tratamento também deve ser considerado. Para os homens com desejo imediato de fertilidade , poderá ser prescrita terapêutica para estimulação da espermatogénese. O desejo de cessar o consumo de esteroides anabolizantes é, naturalmente, determinante para a conduta clínica a tomar. Nos casos em que não existe este interesse em abandonar o consumo, é importante explicar os riscos de saúde associados a estes compostos, já que há ainda muitos utilizadores mal informados. Conheça a equipa de endocrinologia da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.