26 de junho de 2025 Autor : Saraiva da Cunha (infecciologia) O vírus West Nile ou, em português , vírus do Nilo Ocidental , foi isolado e identificado pela primeira vez em 1937 na região do Nilo Ocidental, no Uganda, numa mulher doente e no contexto de uma investigação sobre a febre amarela. É um vírus ARN pertencente à família Flaviviridae . O seu estudo ao longo das três décadas seguintes permitiu que ficasse a ser bem conhecido em vários aspetos, incluindo: A sua distribuição geográfica, limitada na altura praticamente a alguns países de África e do Médio Oriente; O papel das aves selvagens como reservatório do vírus e de várias espécies de mosquitos como vetores de transmissão; A possibilidade de infeção humana, que ocorria principalmente em populações rurais, provocando quase sempre infeções assintomáticas ou apenas com sintomas ligeiros e autolimitados. No entanto, a partir da década de 90 do século passado, a relevância da febre do Nilo Ocidental como problema de saúde pública aumentou de forma importante . Ocorreram três grandes surtos de infeção humana em populações urbanas – na Roménia, na Rússia e nos Estados Unidos (Nova Iorque) – com casos de doença neurológica grave, muitas vezes fatal. Desde então, o vírus West Nile tornou-se endémico nos países da América do Norte. Em vários países do sul, este e oeste europeu têm ocorrido regularmente surtos de infeção, especialmente nos meses mais quentes, quando a atividade dos mosquitos é mais importante. Atualmente, o vírus West Nile é o arbovírus com maior distribuição geográfica do mundo, com presença nos cinco continentes. Modificações do vírus, movimentos das aves migratórias e alterações climáticas, que favorecem a expansão dos mosquitos para zonas de clima temperado, estão entre os fatores que são apontados como tendo contribuído para a grande expansão da distribuição geográfica do vírus e dos casos de febre do Nilo Ocidental, particularmente no homem e nos equinos. Ciclo biológico e infeção nos mamíferos O vírus West Nile mantém-se na natureza em várias espécies de aves selvagens, que são o seu reservatório natural. Os mosquitos, de várias espécies, são o seu vetor de transmissão . Infetam-se com o vírus quando se alimentam em aves infetadas e transmitem-no depois a outras aves. As aves domésticas não são afetadas pelo vírus. Nos mamíferos, particularmente no homem e nos equinos (cavalos, burros, entre outros), o vírus pode provocar doença, mas não se multiplica de forma importante. Por isso, estas espécies são hospedeiros finais do vírus e não são fonte de infeção. Os mosquitos do género Culex são os mais frequentemente implicados na infeção , tanto em países europeus como na América do Norte. Outras formas de transmissão no homem, embora raras, incluem transfusões de sangue, transplantes de órgãos e tecidos e da mãe para filho durante a gravidez. Os equinos são particularmente sensíveis à infeção pelo vírus West Nile . Cerca de 10% dos animais infetados têm sintomas neurológicos, de gravidade variável. Em 2000 ocorreu um grande surto de febre do Nilo Ocidental em equinos, em França, depois de mais de três décadas sem ocorrerem casos. Posteriormente, a doença foi identificada em vários países europeus. Sintomas, diagnóstico, tratamento e prevenção No homem, o período de incubação da febre do Nilo Ocidental varia entre 2 e 21 dias após a infeção. A maioria (cerca de 80%) das pessoas infetadas pelo vírus West Nile não tem sintomas. A apresentação mais comum da infeção é segundo a forma de febre do Nilo Ocidental, os sintomas podem ser apenas ligeiros, mas a gravidade é variável . Aparecem subitamente e pode ocorrer: Febre e mal-estar; Dores de cabeça e musculares; Náuseas e vómitos; Erupções cutâneas; Dor ocular. Em menos de 1% dos casos, particularmente quando a infeção atinge grupos de maior risco -pessoas mais idosas, com doenças crónicas, imunocomprometidas -, pode ocorrer uma doença neurológica grave, designada doença neuroinvasiva do Nilo Ocidental, com envolvimento do sistema nervoso central. Muito raramente a infeção pode dar origem ao desenvolvimento de síndrome de Guillian-Barré. O diagnóstico é feito com base na história e sintomas apresentados, no contexto epidemiológico e, se necessário, em testes laboratoriais para identificação do vírus. Não existe um tratamento antiviral direcionado para o vírus West Nile. Assim, o tratamento baseia-se no controlo dos sintomas e em medidas de suporte que sejam necessárias . A recuperação pode ser rápida, mas também pode levar meses. Os casos mais graves podem ser fatais, podendo a mortalidade nas formas neuroinvasivas aproximar-se de 17%. Atualmente não existe nenhuma vacina humana para prevenção da febre do Nilo Ocidental, embora exista uma vacina para uso nos equinos. A prevenção da infeção no homem passa assim, principalmente, por medidas que impeçam o contacto com mosquitos e pelo controlo da população de mosquitos . Vigilância epidemiológica Pelo potencial que a febre do Nilo Ocidental tem de se tornar um problema de saúde pública grave e pelas perdas de animais e económicas associadas à doença nos equinos, está implementado em Portugal um programa de vigilância ativa para deteção precoce e monitorização da circulação do vírus e implementação de medidas específicas sempre que necessário, tanto para proteção da saúde humana como da saúde animal. Os equinos são a espécie sentinela na vigilância da febre do Nilo Ocidental em vários países. Este plano de vigilância português envolve : Vigilância de aves selvagens (por exemplo aves migratórias do Norte de África, corvos, entre outras) com análises em aves mortas e colheira de amostras de aves vivas; Captura de mosquitos e pesquisa de vírus em explorações de equinos onde surjam suspeitas de febre do Nilo Ocidental; Vigilância de equinos , com informação sobre a doença e sua prevenção junto dos produtores e médicos veterinários, exame de animais com sintomas suspeitos, colheita de amostras para análise em animais de zonas de risco, entre outras medidas. Desde 2015 têm sido identificados regulamente focos de febre do Nilo Ocidental em equinos, localizados maioritariamente no sul do país. Em 2022, foram confirmados três focos, em Alcácer do Sal, Portalegre e Castro Verde. Febre do Nilo Ocidental na União Europeia e em Portugal A febre do Nilo Ocidental é uma doença de notificação obrigatória em Portugal, tanto no homem como nos animais . Na União Europeia, a vigilância da doença é obrigatória na maioria dos países. Ao longo do século XXI, os casos de febre do Nilo Ocidental têm aumentado em vários países europeus. Em 2018, o número de casos excedeu a totalidade dos 8 anos anteriores. Nos últimos 5 anos: Depois de um pico de casos suspeitos e confirmados em 2022 (1140) nos países europeus, em 2023 registaram-se 751 casos, até então o segundo valor mais elevado; Destes, 713 foram adquiridos localmente nos países que os notificaram e os restantes foram importados de outros países da União Europeia; Os países que notificaram mais casos foram a Itália (341), Grécia (99), Roménia (83), França (33), Hungria (22) e Espanha (22); Segundo dados epidemiológicos do ECDC, em 2024, dezanove países europeus registaram 1436 casos humanos e, em 2025 e até ao início do mês de Junho, não foi notificado qualquer caso de doença em humanos na Europa (o que reforça a tendência sazonal da doença, que ocorre nos meses de verão). Apesar do clima propício à atividade dos mosquitos em Portugal, especialmente no sul do país, e dos casos de infeção de equinos identificados, o país tem tido um comportamento diferente dos restantes países mediterrânicos, com apenas 4 casos humanos de febre do Nilo Ocidental identificados nos últimos 40 anos. Suspeita-se que possam existir mais casos que não são laboratorialmente comprovados e, como tal, não são notificados. Fontes Direção Geral de Alimentação e Veterinária. Plano de vigilância da febre do Nilo Ocidental . European Centre for Disease Prevention and Control. West Nile virus infection . European Food Safety Authority, European Centre for Disease Prevention and Control. The European Union One Health 2023 Zoonoses Report. Lourenço J, Barros SC, Zé-Zé L, et al. West Nile virus transmission potential in Portugal. Commun Biol 2022;5:6. Conheça a equipa clínica de infecciologia da rede Hospital da Luz. 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