20 de março de 2025 Autor : Saraiva da Cunha (Doenças Infecciosas) Entre as infeções humanas com origem em alimentos e água, as que se devem a bactérias do género Salmonella ocupam um dos lugares mais importantes. A Salmonella tem múltiplas espécies e subespécies e as doenças que estas provocam são diferentes em vários aspetos, incluindo a sua gravidade. A febre tifoide e a febre paratifoide são das mais graves , têm risco de morte associado, e devem-se, respetivamente, às serovariedades typhi e paratyphi da bactéria Salmonella enterica , também abreviadamente conhecidas como Salmonella typhi e Salmonella paratyphi , que provocam doença apenas no homem. Segundo os dados da Organização Mundial de Saúde, estas duas infeções clinicamente semelhantes que em conjunto se chamam febre entérica atingiram em 2019 cerca de 9,2 milhões de pessoas em todo o mundo, provocando aproximadamente 110 mil mortes, a maioria devida a Salmonella typhi. Em 2019 a Salmonella paratyphi foi responsável por 3,8 milhões de infeções. O Centro Europeu de Controlo de Doenças (ECDC), no seu último relatório sobre a febre tifoide e paratifoide, aponta para o diagnóstico em Portugal de 54 casos da doença entre os anos de 2017 e 2021. A febre tifoide é a segunda mais importante infeção grave em viajantes , ultrapassada apenas pela malária. Atualmente, a febre tifoide não é comum nos países europeus. Continua a ser endémica e causa de morbilidade e mortalidade em muitas regiões do mundo, menos desenvolvidas e mais pobres, atingindo tanto as populações locais como os viajantes , principalmente em países de: África subsariana Sul e sudoeste asiático, como a Índia, Nepal, Paquistão, Bangladesh, Filipinas Médio Oriente América Central, Caraíbas e América do Sul Infeção A Salmonella é uma bactéria muito resistente e mantém-se viável no ambiente durante períodos prologados. Multiplica-se com temperaturas entre 7ºC-48ºC, pH entre 4,5 e 9,3, é resistente à temperatura de congelação e a condições de secura e é destruída por pasteurização. Tanto em zonas rurais como urbanas dos países onde é endémica a infeção ocorre por via oral : Através consumo de água e alimentos contaminados por fezes ou urina contendo bactérias Salmonella typhi e Salmonella paratyphi devido a: Falta de condições de saneamento básico, incluindo tratamento de resíduos, redes de esgotos, redes de abastecimento, tratamento de água de consumo; Condições deficientes de conservação e armazenamento de alimentos; Controlo deficiente de insetos, principalmente moscas que pousam em fezes e depois contaminam alimentos e água. Diretamente por via-fecal oral, quando os cuidados de higiene não são adequados . Sintomas, diagnóstico e tratamento Depois de se ficar infetado, a Salmonella typhi multiplica-se no intestino, penetra na sua parede e entra na corrente sanguínea dando origem a uma infeção sistémica. O período de incubação (entre a infeção e ocorrerem sintomas) pode variar entre 6 e 30 dias, sendo mais habitualmente de 10-14 dias. Os sintomas de febre tifoide iniciam-se gradualmente e são inespecíficos , ou seja, são comuns a muitas outras infeções: Febre alta; Falta de apetite, cansaço e mal-estar; Dores abdominais e de cabeça; Náuseas e vómitos; Convulsões febris, mais importantes nas crianças; Obstipação ou diarreia ligeira a grave, com ou sem sangue; Mais raramente, erupção na pele (em cerca de 25% os doentes), tosse, dores musculares e de garganta. A suspeita de febre tifoide é levantada perante os sintomas e com base no contexto do doente, especialmente, no caso de viajantes, na história de viagens para zonas endémicas nos últimos 30 dias. O diagnóstico pode ser confirmado por pesquisa da bactéria causal no sangue, nas fezes, na urina ou em material de uma lesão da pele. As crianças, idosos e pessoas imunocomprometidas são os principais grupos de risco de infeção e com doença mais grave. Nos casos mais graves e quando o tratamento da febre tifoide não é iniciado atempadamente, pode ocorrer meningite, peritonite, perfuração intestinal e infeção generalizada, eventualmente com consequências fatais. Sendo uma infeção bacteriana, o tratamento da febre tifoide é feito principalmente com antibióticos. Nos casos mais graves, pode ter de ser feito em internamento. A resistência crescente da Salmonella typhi e Salmonella paratyphi aos antibióticos é um dos fatores que tem facilitado a disseminação da infeção . A recuperação da febre tifoide é prolongada, podem ser necessários cerca de 2 meses. As pessoas recuperadas podem manter-se portadoras de Salmonella durante vários meses e eliminá-la através das fezes , contribuindo para manter o ciclo de infeção e a disseminação da doença. Por isso, devem reforçar os cuidados de higiene até terem a certeza de já não representarem um risco para os outros. Prevenção Em viajantes para zonas endémicas a vacinação contra a febre tifoide é aconselhada , sendo geralmente prescrita em consulta do viajante. No entanto, a vacina não confere uma proteção total, pelo que durante a viagem não podem ser dispensados todos os cuidados para evitar o consumo de alimentos e água eventualmente contaminad os, adotando medidas como: Lavar sempre as mãos com água e sabão antes de comer, beber ou mexer em alimentos , depois de usar a casa de banho, depois de mexer em animais de espécies domésticas ou pecuárias, bem como à chegada a casa; Beber apenas água engarrafada e ser o próprio a abrir a garrafa. A fervura durante alguns minutos permite eliminar a Salmonella typhi da água, pelo que pode ser considerada quando não existe água engarrafada. Outra opção é desinfetar a água com desinfetantes específicos para este efeito adquiridos em farmácias; Não usar gelo em bebidas , exceto se houver garantia que foi feito com água engarrafada; Não comer vegetais crus nem quaisquer alimentos que não estejam bem cozinhados e ainda quentes para assegurar que foram cozinhados recentemente; Não beber leite que não seja pasteurizado ou fervido , nem comer quaisquer produtos preparados com leite não pasteurizado; Comer apenas frutos que tenham casca . Antes de os comer, deve ser o próprio a lavá-los bem com água engarrafada ou fervida e descascá-los. Nunca comer a casca; Manter os alimentos e bebidas tapados e nas condições de armazenamento adequadas. As pessoas que tenham regressado de viagens para zonas endémicas nos últimos 30 dias devem manter-se atentas a manifestação de sintomas que possam estar relacionados com febre tifoide e procurar cuidados médicos de imediato. A intervenção atempada é fundamental para diminuir o risco de complicações e de morte. As pessoas que tenham tido febre tifoide e tenham recuperado devem manter os cuidados de higiene adequados para evitar a infeção de outras pessoas e abster-se de preparar alimentos para terceiros até terem a certeza de que já não são portadores. Fontes Autoridade de Segurança Alimentar e Económica. Salmonella . Bhandari J, Thada PK, Hashmi MF, DeVos E. Typhoid fever . Treasure Island: StatPearls Publihing; 2024. European Centre for Disease Prevention and Control. Typhoid and paratyphoid infection. In: ECDC. Annual epidemiological report for 2021. Stockholm: ECDC; 2024. World Health Organization. Typhoid . Conheça a equipa clínica de infecciologia da rede Hospital da Luz. 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