24 de fevereiro de 2022 Autora : Joana Patrício Qualquer ferida interfere, ainda que momentaneamente, com o bem-estar e a qualidade de vida de quem é afetado. Quando se trata de feridas crónicas, ou seja, feridas que se prolongam no tempo e não cicatrizam no período que seria expectável , o incómodo acentua-se e a ferida e seu tratamento são, frequentemente, um verdadeiro desafio. Porque surgem as feridas Quando em alguma zona do corpo a barreira de proteção que é a pele deixa de estar íntegra, forma-se uma ferida e os tecidos mais profundos ficam expostos e desprotegidos de agressões externas. As feridas podem surgir por vários motivos, nomeadamente por acidentes com objetos cortantes, traumatismos, queimaduras, entre outras situações. Estes casos dão origem, geralmente, a feridas agudas , que depois de bem limpas e desinfetadas são encerradas, sempre que necessário, com pontos ou pensos. No período de alguns dias, a pele cicatriza completamente, recupera a sua integridade e função e a ferida desaparece. Existem, no entanto, algumas situações que fazem com que as feridas entrem num processo de cicatrização muito lento , levando, em vez de dias, semanas, meses ou eventualmente até anos a cicatrizar. Algumas destas situações estão relacionadas com características do próprio organismo, difíceis de modificar, por exemplo doenças crónicas que afetam o processo de cicatrização , tais como: Diabetes; Insuficiência cardíaca; Doenças autoimunes; Doenças vasculares venosa e/ou arteriais; Doenças que afetem o desenvolvimento saudável da pele. Além de situações de doença, há também alguns hábitos que podem contribuir para agravar feridas porque dificultam a resposta do organismo a uma agressão. Entre estes destacam-se: Consumo de tabaco; Dieta pobre em proteína e em antioxidantes; Stress e depressão; Sedentarismo, imobilização; Excesso de peso e obesidade; Toma de alguns medicamentos como corticoides ou imunossupressores. Ainda, fatores relacionados com a própria ferida , como a infeção ou a presença de tecido desvitalizado (tecido morto), podem também estagnar o processo de cicatrização ou mesmo agravar a ferida. Prevenir e intervir precocemente – um trabalho de equipa! O grande desafio com as feridas crónicas é conseguir identificar para cada ferida que não tem capacidade de cicatrizar de uma forma rápida e saudável quais os fatores que podem ser modificados para que o seu tratamento tenha sucesso. Em relação às doenças que afetam a cicatrização e que não podem ser eliminadas, interessa estabilizá-las o melhor possível, para que a sua interferência no processo de cura seja minimizada. Assim: Os doentes diabéticos devem ter as suas glicemias controladas para evitar perder a sensibilidade na pele (que a protege de lesões) e também para evitar que as glicemias elevadas inibam o processo de cicatrização; Os doentes com insuficiência cardíaca devem ter a sua doença estabilizada , para evitar edemas (inchaço) nos membros inferiores e diminuição da oxigenação dos tecidos; Os doentes com varizes devem controlar a doença através de cirurgia ou do uso de meias de contenção elástica e de medicamentos que evitem a dilatação exagerada das veias; Os doentes com doença arterial devem fazer anticoagulantes e/ou ser submetidos a procedimentos que permitam que as artérias sejam desobstruídas para que o fluxo de sangue necessário para uma ferida cicatrizar não seja prejudicado. Entre os hábitos que dificultam a resposta correta do organismo, o seu impacto deve ser tanto quanto possível minimizado. Importa corrigir eventuais défices nutricionais, com uma dieta rica em proteínas e em nutrientes promotores da cicatrização e uma hidratação correta. E quando a ferida insiste em não cicatrizar? Pode ser necessário um tratamento especializado! Conseguidas as condições de cicatrização favoráveis, através do controlo das doenças de base, há então espaço para corrigir as condições locais que possam interferir no encerramento da lesão , nomeadamente: A ferida deve ser sempre limpa, removendo a maior quantidade de tecido morto e de detritos bacterianos que impedem o crescimento de pele saudável; Deve ser aplicado um penso que seja adequado à fase do processo de cicatrização em que a ferida se encontra; A pele envolvente deverá estar saudável, bem hidratada e sem sujidade; Sempre que necessário devem ser utilizados dispositivos que ajudem à cicatrização da ferida, como meias elásticas, palmilhas adaptadas, entre outros. Apesar da sua complexidade, com dedicação e experiência as feridas crónicas vão sendo dominadas e tratadas com sucesso, culminando na cicatrização completa das mesmas. Quanto mais rapidamente forem identificadas e tratadas as situações que atrasam a cicatrização, maior a taxa de sucesso . Conheça a equipa clínica de cirurgia geral da rede Hospital da Luz. Os conteúdos publicados no Guia de Saúde destinam-se ao público em geral e têm apenas finalidade informativa e educativa. Não substituem a avaliação, diagnóstico ou aconselhamento clínico individual por um profissional de saúde. São produzidos ou revistos por médicos e outros profissionais do Hospital da Luz e baseiam-se no conhecimento disponível à data da sua publicação ou última atualização, indicada no início de cada conteúdo.